Será que a onda de autoficção na literatura está desaguando em relatos banais? Leia análise
Professora Dirce Waltrick do Amarante analisa como autores têm usado suas próprias histórias em obras-primas, mas também em livros que não são essencialmente bons ou bem escritos
No ensaio O que são obras-primas e por que há tão poucas?, publicado na primeira metade do século passado, a escritora norte-americana Gertrude Stein afirma que, durante o processo de criação, o autor não tem identidade. E prossegue: "identidade é reconhecimento, você sabe quem você é porque você e os outros lembram alguma coisa sobre si mas principalmente você não é aquele enquanto cria certa coisa. Eu sou eu porque meu cachorrinho me conhece mas, criativamente falando, o cachorrinho sabendo de que você é você e de seu reconhecimento de que ele sabe, eis o que destrói a criação". Essa pós-crítica avant la lettre integra o livro O que são obras-primas?, de Stein, em tradução de Luciana Viégas.
Nos seus ensaios, a escritora usa uma linguagem peculiar, com várias repetições e sem muita pontuação, característica também de sua escrita ficcional. A sua reflexão sobre o papel da identidade do autor na literatura não poderia ser mais atual, quando boa parte da ficção de hoje se fundamenta, ao que parece, justamente nessa identidade. Parece-me que, no nosso país, não foi a escrevivência de Conceição Evaristo que fez escola, a despeito de sua grande influência sobre as novas gerações, mas a autoficção da francesa Annie Ernaux.
O fato é que, depois da tradução das obras de Ernaux, e de sua visita ao país no ano passado, quando foi a grande atração da Flip, a autoficção tem se proliferado e chamado a atenção por aqui - fenômeno que cresce há ao menos uma década. Todos têm algo para contar sobre si e sobre o seu entorno, mas bastaria isso para produzir literatura? Stein reflete sobre essa questão. Diz a escritora: "qualquer mulher em qualquer vilarejo ou os homens se você preferir ou mesmo as crianças conhecem tanto da psicologia humana quanto qualquer escritor nessa terra". E conclui que "não é este conhecimento que produz as obras-primas. Não, não e não".
Um conselho de Stein é: "Pense como você cria, se efetivamente cria não se lembra de si enquanto cria. E mesmo o tempo e a identidade, você se refere a eles ao criar, apenas, enquanto cria, eles não existem. Isto é de fato o que ocorre". A escritora alerta ainda que "não há possibilidade de mesclar a outra civilização com a sua própria se você é você e se você é você em sua própria civilização você é capaz de se misturar demais com a sua civilização [...]". Quem realçar uma identidade enquanto escreve, deixaria, segundo Stein, outras culturas de lado, o que seria empobrecedor, no plano artístico.
Certas autoficções poderiam ser consideradas obras-primas, no sentido dado ao termo por Gertrude Stein, mas não se atinge esse nível estético apenas narrando uma história pessoal, é preciso, como a própria Stein reconhece, lidar criativamente com a linguagem, com a forma etc., como fizeram Conceição Evaristo e Annie Ernaux, por exemplo.
Becos da memória, cuja publicação foi uma verdadeira odisseia, pois, tal como Ulisses, o herói de Homero, levou 20 anos para chegar a sua casa editorial, conta as lembranças da autora brasileira, mas narra também as lembranças de outras personagens. Diz Conceição a respeito de seu livro: "invento sim e sem o menor pudor. As histórias são inventadas, mesmo as reais, quando são contadas. Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção".
Ernaux, prêmio Nobel, adota uma prosa econômica, talvez cirúrgica em certos momentos, para descrever eventos complexos, criando, assim, um paradoxo entre forma e conteúdo, o que explicaria, em parte, a sua falta de "estilo".
Vale aqui trazer à discussão uma reflexão de C. S. Lewis, que lançaria luz sobre a obra de Ernaux. Em Um experimento na crítica literária, de 1961, Lewis, ao se referir ao leitor "literariamente iletrado", afirma: "A boa escrita pode incomodá-lo tanto por ser muito enxuta quanto por ser rica em seus propósitos." (Tradução de João Luís Ceccantini). Para o "bom leitor", segundo Lewis, os "enunciados em que os fatos são mostrados de forma nua e crua são os mais evocativos de todos", enquanto que, para o leitor "literariamente iletrado", tudo deveria ser escrito "com muitos pormenores, ou será percebido de forma muito rasa".
A proliferação recente de relatos autoficcionais corre o risco, porém, de banalizar esse tipo de escrita, tornando-a insignificante e até mesmo Kitsch. O Kitsch falsificaria "os efeitos superficiais da arte de invenção, com um objetivo rasteiramente comercial", como afirma José Paulo Paes em A aventura literária (1990).
As autobiografias são um "novo movimento literário" no nosso país. Àqueles que não apreciam o gênero, lembro do conselho que William James deu à sua pupila, Gertrude Stein: "Nunca rejeite nada. Nada foi comprovado. Se você rejeita alguma coisa, este é o começo de seu fim como intelectual". A opção pelos fatos em detrimento da imaginação não é inédita na literatura moderna e contemporânea. Nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, ganhou projeção o "Novo Jornalismo" ou o "Romance de Não Ficção", termo criado por Truman Capote para definir seu livro A sangue frio: relato verdadeiro de um homicídio múltiplo e suas consequências, de 1966, uma espécie de narrativa documental sobre um crime bárbaro que chocou a sociedade norte-americana em 1959.
Para o leitor interessado em autobiografias, há algumas bem-sucedidas, além das já mencionadas. Citaria A redoma de vidro, de Sylvia Plath, e A autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein, que foi escrita por ela, mas se apropriando da voz (identidade) de Toklas, sua companheira -- a narradora do livro não conta a sua vida, mas a de Stein. A autora de Três vidas parece ter seguido mais uma vez o conselho de William James, que lhe dizia: "complique a sua vida o máximo que lhe agrade, isso é conseguir a simplicidade".
Há também as autobiografias completamente falsas, que fazem de certa forma uma crítica a esse modelo de escrita. Esse é o caso do humoradíssimo Papeis de Maria Dias: Memórias Pósteras, de Luci Collin (cujo nome de batismo é Luci Maria Dias Collin). Mas não pense o leitor que encontrará algo da vida da escritora nessas memórias forjadas ou futuras. Como ela mesma esclarece, são "Escritos que jamais pretenderam ter valor literário querendo ser apenas registro despretensioso de momentos maiores e menores na existência de uma Maria Dias. Matematicamente falando ela teve mais momentos menores na vida do que o contrário, mas acredita-se que isso segue um padrão de normalidade suportável".
____
Dirce Waltrick do Amarante é professora da Universidade Federal de Santa Catarina. Traduziu autores como James Joyce, Edward Lear, Gertrude Stein, Leonora Carrington e Cecilia Vicuña. Autora, entre outros, dos livros Metáfora da Tradução (ensaio) e Cenas (contos).