Quem é Banksy? Reuters diz ter desvendado a identidade do mais famoso artista de rua; entenda
Advogado de Banksy não confirma nem nega; artista alega ameaças de extremistas para continuar no anonimato, condição que ele define como um 'superpoder'
O enigma sobre a identidade do artista de rua britânico Banksy pode ter chegado ao fim. Uma extensa matéria da agência de notícias Reuters percorreu locais por onde Banksy deixou seus registros, entrevistou pessoas em diferentes países e cruzou informações para chegar ao nome real do artista.
Para Reuters, Banksy, nasceu em Bristol, em 1973, cidade no sudoeste da Inglaterra, como Robin Gunningham e, posteriormente, passou legalmente a se chamar David Jones, nome bastante comum no Reino Unido.
Embora Banksy atue mundo afora há cerca de 25 anos com suas obras carregadas de mensagens sociais - em 2010, a revista Time o colocou entre as pessoas mais influentes do mundo -, sua arte ganhou nova proporção em 2022 quando o artista fez uma série de intervenções artísticas em Horenka, vilarejo próximo a Kiev, na Ucrânia, duramente atingido na guerra com a Rússia.
A obra que mais chamou a atenção traz um homem dentro de uma banheira, esfregando as costas com um escovão. Ela foi realizada nos escombros de um prédio. Banksy assumiu a autoria da obra de arte - ele publicou um vídeo que mostra seu trabalho no vilarejo.
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Foi a partir dos bastidores desse mural que a reportagem da agência fez sua investigação em torno de Banksy. Não que seja a vontade do artista em ter sua identidade revelada. Pelo contrário. Ele já afirmou por diversas vezes que esse não é seu objetivo. E mais: ele afirma não querer se colocar como um artista famoso justamente para manter seu trabalho no campo do vandalismo. O anonimato, segundo ele, confere-lhe um "superpoder".
O que diz o representante de Banksy
O advogado que representa Banksy, Mark Stephens, não negou nem confirmou as informações levantadas pela agência de notícias, mas afirmou que muitas delas não estão "corretas".
Para Stephens, o anonimato do artista é fundamental para a segurança dele e de seu trabalho. De acordo com as declarações do advogado à Reuters, Banksy tem sido alvo de "comportamentos obsessivos, ameaçadores e extremistas", embora não tenha detalhado de quem partam esses ataques.
Stephens, segundo a Reuters, concluiu dizendo que trabalhar anonimamente ou sob pseudônimo garante a Banksy "abordar questões sensíveis como política, religião ou justiça social".
Em 2023, São Paulo recebeu a exposição imersiva The Art of Banksy: Without Limits, que ficou em cartaz no Shopping Eldorado, com cerca de 150 obras do artista. Relembre aqui.
Como foi a investigação da Reuters
A agência de notícias partiu de três nomes para chegar ao que ela alega ser a verdadeira identidade de Banksy. Um deles é Thierry Guetta, um artista de rua conhecido como Mr. Brainwash que apareceu no documentário Exit Through the Gift Shop (Saída pela Loja de Presentes, em português), dirigido por Banksy em 2010 e indicado ao Oscar. O nome de Guetta foi eliminado por ser tratar de um artista francês, enquanto o 'investigado' é declaradamente de Bristol, na Inglaterra.
Outro nome abordado foi o de Robert Del Naja, vocalista da banda de trip-hop Massive Attack. Nascido em Bristol, Del Naja é pioneiro no grafite 3D. A suspeita se deu pelo fato do cantor já ter feito uma exposição de seus trabalhos em uma galeria londrina pertencente a um ex-empresário de Banksy, Steve Lazarides.
Robin Gunningham era outro dos suspeitos. Ele já havia sido apontado como Banksy em uma reportagem do The Mail on Sunday, em 2008.
Parte da investigação da Reuters foi mostrar fotos dos 'suspeitos' para pessoas que presenciaram a feitura as obras em Horenka, Kiev. Uma das testemunhas reconheceu Del Naja, do Massive Attack. Mais tarde, soube-se que o cantor ajudou Banksy no mural do homem da banheira.
No entanto, a pista fundamental foi um registro de prisão em nome de Robin Gunningham em 2000, durante Semana de Moda de Nova York. Gunningham, de acordo com os registros policiais, foi pego vandalizando o outdoor da Marc Jacobs - ele alterou a imagem para que o modelo ficasse com os dentes tortos.
A reportagem ainda cruzou informações de onde Banksy morou por meses em Nova York, o Carlton Arms Hotel. No registro policial, constava o endereço do hotel: Rua 25 Leste, 160. No hotel, há, até hoje, um quarto e uma escadaria pintadas pelo artista.
Banksy muda de nome
Cerca de oito anos após a prisão, Banksy, então, teria mudado seu nome para David Jones. A troca foi confirmada pelo antigo agente do artista, Steve Lazarides. Banksy também mudou a forma de atuar. Deixou a pintura a mão livre a passou a usar estênceis, moldes vazados, feitos de materiais flexíveis usados para reproduzir letras ou desenhos em superfícies. Sua fama só cresceu.
Ao cruzar as informações, a Reuters descobriu que David Jones esteve na Ucrânia no período no qual os grafites foram feitos no país e que essa pessoa havia deixado o local na companhia de Robert Del Naja. O quebra-cabeça, finalmente, foi montado.
O rosto de Banksy
Não apenas o nome de batismo de Banksy, mas também seu rosto já havia sido revelado anteriormente, inclusive, em capa de jornal, ainda segundo a investigação da Reuters.
Em 2004, Banksy viajou a Kingston, na Jamaica, contratado pela gravadora Wall of Sound para produzir capas de álbuns. Ele trabalharia em parceria com o fotógrafo jamaicano Peter Dean Rickards. No entanto, após um desentendimento, a parceria foi desfeita.
Rickards, então, publicou 21 fotos de Banksy tiradas durante a passagem do artista por Kingston, além de proferir ofensas ao britânico. Na época, as imagens foram publicadas pelos tabloides britânicos Evening Standard e Mail on Sunday.
A Reuters comparou as fotografias com as poucas imagens existentes de Banksy, mesmo aquelas que mostram apenas detalhes de seu rosto ou mãos e afirma categoricamente tratar-se realmente do artista britânico.
O valor das obras
Banksy não dá as caras, mas, apesar de querer conservar a imagem de vândalo, existe a empresa a Pest Control Office que autentica suas obras.
O site afirma que, embora o artista tenha escrito em seu livro que 'direitos autorais são para perdedores', ele só autoriza a reprodução de sua obra para "entretenimento pessoal e não comercial". "Imprima-as em uma cor que combine com suas cortinas, faça um cartão para sua avó, use-as como tarefa de casa, enfim, o que quiser", diz a instrução.
O último relatório divulgado pela empresa Pest Control Office, de 2024, mostra um patrimônio líquido total de cerca de £5,7 milhões, cerca de R$ 39 milhões.
A mais recente - e clandestina - exposição de Banksy teria ocorrido em fevereiro de 2024, de acordo com a Reuters, em Shoreditch, bairro alternativo em Londres, quando apenas convidados puderam ver e comprar as obras do artista, muitas delas nunca apresentadas anteriormente. Também há informações de que Banksy tenha clientes VIPs.
'A Menina e o Balão' e obras políticas
Em 2017, uma pesquisa que ouviu 2 mil pessoas considerou a obra A Menina e o Balão como a mais apreciada em Londres, fazendo dela um ícone da cidade. Feita em 2005, a obra foi arrematada em 2021 por US$ 4,3 milhões, cerca de R$ 22 milhões em cotação atual, em um leilão na casa Christie's, na capital do Reino Unido.
A última grande repercussão de uma intervenção de Banksy ocorreu em 8 setembro de 2025, quando ele fez um desenho na fachada do Royal Courts of Justice (Tribunais Reais de Justiça), em Londres. O grafite mostrava um manifestante caído no chão segurando um cartaz ensanguentado, enquanto um juiz, com toga e peruca, erguia um martelo sobre ele. A obra foi apagada 48 horas depois de descoberta, com jato de água, para, posteriormente, a parede passar por uma restauração com laser.
O caráter político da obra foi reforçado peço fato de ela ter sido realizada dois dias após 900 pessoas serem detidas em Londres durante um protesto em apoio ao grupo Palestine Action. O governo britânico baniu o Palestine Action com base na lei antiterrorista de 2000, depois que vários membros do grupo invadiram uma base da Força Aérea Britânica e provocaram danos avaliados em US$ 10 milhões (cerca de R$ 54 milhões na cotação atual).
De acordo com a Reuters, o Ministério da Justiça não informou se Banksy foi penalizado, já que, segundo a lei local, o grafite é crime com pena de multa ou prestação de serviço comunitário. O fato gerou manifestação de outros artistas de rua, que levantaram a suspeita de que Banksy recebe tratamento especial das autoridades britânicas.
Em 2024, Banksy já havia provocado as autoridades britânicas. Em uma semana em que fez intervenções diárias com ilustrações de animais nas ruas da capital britânica, o artista até então misterioso transformou uma cabine policial em um aquário com peixes que se assemelhavam a piranhas. De acordo com as autoridades, a remoção da obra foi necessária para evitar a aglomeração de pessoas no local.
Banksy não se manifestou pessoalmente acerca das revelações da Reuters.