Veronesi lança 'Caos Calmo' no Brasil e defende liberdade criativa na literatura
Autor do sucesso editorial 'O Colibri' passará por Brasília e São Paulo
Por Bruna Galvão - Quase um ano após ser um dos destaques da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), o escritor italiano Sandro Veronesi lançou nesta quinta-feira (28), no Brasil, a versão nacional do romance "Caos Calmo".
Publicado originalmente em 2005, o livro venceu o Prêmio Strega, principal honraria literária da Itália, e o Prix Femina Étranger, na França.
"Espero que as pessoas não se sintam desiludidas com esse meu texto velho", disse Veronesi em entrevista à ANSA.
Além do lançamento em Brasília, o escritor italiano participará de um debate na Feira do Livro, na Praça Charles Miller, no sábado (30), às 16h15, no palco principal. No domingo (31), ele se encontrará com leitores na Livraria da Vila, na Avenida Paulista, às 15h.
Adaptado para o cinema com Nanni Moretti no papel principal, "Caos Calmo" acompanha Pietro Paladini, um executivo que enfrenta uma ruptura brutal após uma coincidência trágica: enquanto salva uma mulher desconhecida de um afogamento no litoral italiano, sua companheira morre subitamente em casa. A partir daí, o romance mergulha em temas como luto, desejo e deslocamento.
Entre o lançamento de "Caos Calmo" e o de "Setembro Negro" (2024), seu romance mais recente, apresentado na Flip no ano passado, Veronesi publicou outras obras, entre elas "O Colibri" (2019), considerado o favorito dos leitores brasileiros.
O livro lhe rendeu o segundo Prêmio Strega, em 2020, além de uma nova adaptação para o cinema, dirigida por Francesca Archibugi e estrelada por Pierfrancesco Favino no papel principal.
No entanto, mais do que ter mudado como escritor, ele acredita que a maior transformação ocorreu na forma como passou a construir a argumentação de seus textos.
"Apesar de não ter relido 'Caos Calmo', não acredito que este livro esteja tão distante daquilo que sou hoje", confessou Veronesi, que, ao longo de seus títulos seguintes, mudou bastante "o tempo de narração e as vozes" de uma obra para outra.
"E quanto mais eu mudo, mais contente fico", acrescentou o autor, citando justamente "O Colibri" e "Setembro Negro" como exemplos dessa busca constante por novas estruturas narrativas, tendo em vista que contam com técnicas literárias bem variadas entre si.
O primeiro acompanha a trajetória da família Carrera a partir de Marco, um homem capaz de permanecer em equilíbrio em meio ao caos. Já o segundo retrata o amadurecimento de Gigio Bellandi, um garoto de 12 anos durante o verão de 1972, quando sua vida sofre uma reviravolta.
Ao abordar o cenário literário contemporâneo, Veronesi defendeu a liberdade criativa dos autores. Para ele, escritores devem poder escrever "sobre o que quiser", independente do que diz "a convenção", a qual também deve ser "driblada".
A reflexão surgiu a partir de um comentário sobre a escritora brasileira Ana Paula Maia, finalista do International Booker Prize com a tradução de "Assim na Terra como Embaixo da Terra".
Em declarações à imprensa, ela já se definiu como uma autora que fala sobre "porcos e pessoas mortas" e não sobre as questões de uma mulher negra nascida no Brasil, como era "esperado".
"Em geral, principalmente nos Estados Unidos, o habitual é que você escreva sobre a sua experiência, sobre o grupo social ao qual pertence", explicou Veronesi, que está sempre "do lado das escolhas do autor".
O italiano acredita que essa imposição seja um dos motivos que criaram o cenário ideal para a "maluquice absurda nos EUA que é apoiar" o presidente americano, Donald Trump, alguém com "tamanha vulgaridade, ao qual falta postura e cultura".
"Muitas vezes, pessoas que não são privadas de cultura estão 'desesperadas' por esta cultura woke, que quer impor aos artistas o que podem ou não fazer. E isso é um enorme erro", analisou Veronesi, pontuando que, na Itália, "isso ocorre com menor frequência".
Sobre o avanço de movimentos da extrema-direita em diversos países, o escritor não vê empecilhos na alternância de poder entre uma ideologia e outra. "O problema, é que, em geral, a extrema-direita quer barrar esta sucessão, assim como fez o fascismo na Itália", avalia "Se Trump, ao perder uma eleição, levou seus apoiadores a invadirem o Capitólio, sem que tenha sido processado por isso, e, pior, sendo reeleito, o contrário não aconteceu no Brasil, com [Jair] Bolsonaro", exemplificou Veronesi.
Para ele, "se antes, acreditávamos que os EUA eram os defensores da democracia no mundo, isso não ocorre com o autoritarismo de Trump".
"Trump e Bolsonaro fizeram uma das coisas mais graves que se pode fazer em uma democracia. Se neste momento, eu fosse escolher qual dos dois países é um modelo de democracia, sem dúvidas, digo que é o Brasil", pontuou Veronesi. .
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