Não era sujo, era estiloso: desmistificando os vikings
Durante muito tempo, as pessoas associaram a figura dos vikings a guerreiros desleixados, cobertos de sujeira e com roupas rasgadas.
Durante muito tempo, as pessoas associaram a figura dos vikings a guerreiros desleixados, cobertos de sujeira e com roupas rasgadas. Essa imagem, que filmes e séries reforçam até hoje, acabou se tornando quase um padrão no imaginário popular. No entanto, pesquisas arqueológicas e relatos de cronistas da época indicam um cenário bem diferente. A limpeza corporal, o cuidado com a aparência e até uma certa vaidade tinham papel importante na vida desses povos do Norte da Europa.
Ao analisar achados em sítios escandinavos e em antigas cidades inglesas, historiadores revisam essa visão simplificada. Objetos ligados à higiene pessoal aparecem com frequência nesses locais. Isso sugere que a rotina viking incluía banhos regulares, penteados elaborados e roupas mais bem cuidadas do que muitos imaginam. Assim, a questão deixa de ser apenas estética e passa a envolver também aspectos sociais, religiosos e até estratégicos.
Os vikings eram realmente sujos ou isso é um mito?
A palavra-chave principal nesse debate é vikings. A resposta, segundo a maior parte dos estudos atuais, aponta para um mito construído ao longo dos séculos. Fontes escritas de origem inglesa, do período em que os escandinavos intensificaram incursões nas Ilhas Britânicas, mencionam que esses estrangeiros se destacavam por se lavarem com mais frequência do que a população local. Alguns relatos indicam que tomavam banho pelo menos uma vez por semana, algo significativo para a época medieval.
A arqueologia reforça essa percepção ao revelar pentes, pinças, limpadores de ouvido e até pequenas lâminas usadas para aparar pelos, todos ligados a comunidades nórdicas. Esses itens de higiene pessoal surgem tanto em contextos domésticos quanto em sepultamentos. Isso indica valor simbólico e prático ao mesmo tempo. Assim, a imagem de guerreiros permanentemente cobertos de lama e sangue não corresponde, de forma geral, ao cotidiano que as evidências descrevem.
Higiene viking: como funcionava na prática?
O cuidado com a limpeza entre os vikings seguia ritmos ligados ao clima, ao trabalho e à disponibilidade de água aquecida. Banhos completos ocorriam com mais frequência em dias específicos, principalmente aos sábados. Essa prática acabou gerando a associação entre o "dia do banho" e o fim de semana em algumas línguas germânicas. Em regiões com acesso a fontes termais ou casas de banho, esse hábito podia se tornar ainda mais comum.
A rotina incluía lavar o rosto e as mãos diariamente, pentear os cabelos e a barba e ajustar as roupas para suportar o frio intenso. Óleos e gorduras animais protegiam a pele e também modelavam os fios, o que contribuía para o aspecto "estiloso" que alguns cronistas europeus destacavam ao descrever os visitantes escandinavos. Isso não significa ausência de sujeira em contextos de batalha ou navegação prolongada. Contudo, esses povos demonstravam preocupação constante em retomar a limpeza assim que as condições permitiam.
- Pentes de osso ou madeira para desembaraçar cabelos e barbas;
- Pinças para retirar pelos indesejados;
- Raspadores para limpeza das unhas e da pele;
- Lâminas para barbear ou aparar os fios;
- Sabões rústicos feitos com gordura e cinzas.
Por que os vikings eram vistos como vaidosos?
Além de limpos, muitos relatos descrevem os vikings como vaidosos, especialmente em comparação com povos vizinhos. A aparência funcionava como elemento de status e identidade dentro das comunidades. Cabelos bem cuidados, barbas trabalhadas e roupas ajustadas marcavam posição social diante do grupo e de estrangeiros. Em contextos de comércio, por exemplo, uma boa apresentação facilitava negociações em portos distantes.
A vaidade viking também aparecia em acessórios e detalhes visuais do vestuário. Broches decorados, cintos com fivelas trabalhadas, joias em prata ou bronze e padrões nas vestimentas surgiam com frequência entre aqueles que possuíam mais recursos. Mesmo guerreiros em expedições costumavam levar alguns desses itens. Esse hábito reforçava o contraste entre a imagem violenta de combate e o cuidado com o visual no dia a dia. Além disso, alguns pesquisadores atuais relacionam essa vaidade à busca por honra, reputação e prestígio em sociedades baseadas em laços de parentesco.
- Identidade social: cortes de cabelo e estilo de barba indicavam posição, idade ou função dentro do grupo.
- Impressão externa: comerciantes e emissários cuidavam da aparência para causar impacto em outras cortes e cidades.
- Rituais e crenças: limpeza e ornamentação exerciam papel importante em cerimônias religiosas e eventos comunitários.
O que os estudos atuais revelam sobre o estilo viking?
Pesquisas recentes ressaltam que o modo de vestir dos vikings se adaptava ao ambiente e às atividades que cada pessoa desempenhava. As roupas, em geral, utilizavam lã e linho, em camadas para garantir isolamento térmico adequado. Mesmo com materiais simples, muitos artesãos demonstravam atenção à modelagem, ao caimento e aos detalhes, como bordados em barras de mangas e golas. As cores vinham de corantes naturais, o que gerava peças mais variadas do que a visão padronizada de tons escuros.
O estilo viking, portanto, combinava funcionalidade e cuidado estético de forma equilibrada. Em momentos de guerra, armaduras, elmos e mantos reforçavam a imagem de força e intimidação. Em situações de convivência cotidiana, destacavam-se as roupas ajustadas, os cabelos arrumados e os acessórios trabalhados com habilidade. Assim, a figura tradicional do viking sujo e maltrapilho perde espaço para uma interpretação mais equilibrada e realista. Tratava-se de um povo que enfrentava condições duras, mas mantinha hábitos de higiene, valorizava a própria aparência e usava o visual como ferramenta social e estratégica.