Show de Gilberto Gil é o melhor lugar do mundo: O que esperar da passagem da turnê por São Paulo
'Tempo Rei' desembarca em SP nesta sexta, 11; Gilberto Gil fará quatro shows na cidade em sua despedida das grandes apresentações
O show Tempo Rei consagra um dos colossos de uma geração iluminada da música brasileira sem apelar para a nostalgia e o sentimentalismo. Com inteligência, elegância, apelo popular e a devida grandeza. Musical e fisicamente mais talhado para as apresentações ao vivo em grandes espaços do que seus pares geniais Caetano Veloso e Chico Buarque, Gilberto Gil é, aos quase 83 anos, um bicho — e bruxo — de palco, com os superpoderes e as capacidades físicas mortais muito bem preservadas.
O que ele vem mostrando, na estreia em Salvador e nas quatro primeiras noites cariocas da turnê, e que deve se repetir em São Paulo a partir desta sexta-feira, 11, no Allianz Parque, é imperdível.
Em termos de espetáculo cênico e apelo visual, também não deve nada, nenhum dólar hipertenso, mariola ou cigarro Yolanda, aos megashows de astros pop internacionais. Em termos de repertório e vivência coletiva, pode ser muito mais profundo do que qualquer "experiência" prometida em festivais e grandes eventos de show business.
Dirigido por Rafael Dragaud e com cenografia de Daniela Thomas, Tempo Rei está à altura da ambição, ou melhor, do objetivo confesso do espetáculo, que é "celebrar a ampla obra musical do cantor e compositor baiano, trilha sonora que está enraizada na cultura do país, além de estar presente no DNA de todo brasileiro".
A segunda é Procissão (1965), introduzida pela tradicional oração cantada Meu Divino São José: um momento forte, sublinhado pelas imagens em vídeo e os efeitos visuais nos telões que o tempo todo expandem a narrativa musical. Em seguida, o marco tropicalista Domingo no Parque (1967) faz a curva da trajetória criativa de Gil.
Na oitava música, Cálice (1973), um dos momentos mais intensos de resposta do público. Um coro de "sem anistia" costuma preceder ou se sobrepor ao depoimento de Chico Buarque (editado com cortes abruptos no texto, uma das poucas imperfeições do show) lembrando a censura nos tempos do regime militar. Com imagens históricas ao fundo, incluindo uma faixa com a frase "Ditadura assassina", Gilberto Gil encara o desafio vocal do arranjo com galhardia, atingindo a dramaticidade exigida.
Caminhando para o fim
O terço inicial do show se fecha com Back in Bahia (introduzida por trecho de Batmacumba), o rock escolhido para retratar os anos de exílio em Londres, abrilhantado por um solo incendiário de João Gil, e as emblemáticas Refazenda (introduzida na sanfona por um trecho de Tenho Sede, outra composição de Dominguinhos e Anastácia) e Refavela, quando os telões laterais puxam/ensinam o coro afro (Kiriê, iaiá) ao público menos familiarizado com a canção, e a dupla da percussão Gustavo Di Dalva e Leonardo Reis dá seu show no proscênio. Na introdução, Gil conta da viagem transformadora que fez à Nigéria, em 1977, para participar do Festival Mundial de Arte e Cultura Negra.
Depois da 12ª música, o megahit Não Chore Mais, com mais colorido político no tom dos anos de chumbo (e um contraponto no cenário, as fitas do Bonfim com "tudo, tudo, tudo vai dar pé"), vem a parte bailão, com Gil elétrico, guitarreiro dançante, emendando sequência reggae (Extra, Vamos Fugir e A Novidade), uma apoteótica explosão de luzes purpurinantes sobre o público na disco-funk "quincyjônica" Realce, e mais uma trinca matadora da fase hits de danceteria dos anos 1980: A Gente Precisa Ver o Luar, Punk da Periferia (quando exibe o dedo médio em riste, brincando também com outras formações "digitais" do gesto) e Rock do Segurança.
O terço final, com Gil sentado ao violão, é introduzido com delicadeza por Mestrinho, tocando Retiros Espirituais, do álbum Refazenda (1975), antes de Se Eu Quiser Falar com Deus. A partir daí, dependendo do dia, a voz pode se ressentir um pouco, o que é natural, considerando a duração do show.
O mistério das participações especiais no show do Gil
Participações especiais cercadas de mistério (no Rio, teve Marisa Monte em A Paz, e Caetano Veloso em Super-homem — A Canção) costumam pintar por aí, nessa parte, em meio a pérolas como Estrela (única canção noventista do repertório — embora tenha sido composta em 1981, Gil só a gravou em 1997). Em Drão, dedicada a Preta Gil, imagens do telão comovem ao mostrar a cantora quando criança, junto da mãe, Sandra Gadelha, inspiradora da canção.
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Num respiro antes da arrancada derradeira, Nara Gil e Mariá Pinkusfeld dão brilho especial a Esotérico, e os pífanos de Thiago Queiroz renovam o grande clássico Expresso 222. Para sacudir qualquer possibilidade de cansaço, a banda emenda Andar com Fé (que em uma das noites do Rio teve canja de Lulu Santos), com Gil exigindo participação do povo ("cadê a palma?"), Emoriô (tocada em Salvador com o Baiana System, na acoplagem com Dia da Caça) e mais um irresistível ijexá discothèque, Toda Menina Baiana, costurado na seminal Frevo Rasgado (de 1968).
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Assim como o público, Gil dança à vontade, sem guardar energias para o bis. E volta arrasador, com a famosa introdução guitarreira de Esperando na Janela, de Targino Gondim, dando a deixa para casais fazerem da pista vip um salão de forró. O gran finale é com Aquele Abraço.
Gilberto Gil sai de cena sambando, depois do ad libitum com trecho de Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso. Fica a certeza: o melhor lugar do mundo durante as duas horas e vinte minutos de Tempo Rei é onde esta turnê estiver passando.
Tempo Rei: Gilberto Gil em SP
11, 12, 25 e 26/4, às 20h: Allianz Parque. Av. Francisco Matarazzo, 1705, Água Branca
Quanto: R$ 280/R$ 530 (baixa disponibilidade; camarotes oficiais Backstage Mirante, Placar, One e Fanzone vão de R$ 900 a R$ 2.200).