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'Samborium', de Dom Salvador, mistura nosso samba com o jazz de NY

Trabalho é resultado de encontros do músico com Gili Lopes e Graciliano Zambonin durante a pandemia

27 fev 2023 - 05h11
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Tocar bateria foi o primeiro sonho do menino nascido em 12 de setembro de 1938, caçula numa família de 11 filhos, todos cantores/as e/ou instrumentistas em Rio Claro, cidade do interior paulista. O ritmo o fascinava. Mas não havia professor na cidade, o que o levou a outro instrumento de percussão.

"Foi por isso que escolhi o piano", revela Dom Salvador em entrevista ao Estadão, a propósito do lançamento de seu álbum Samborium, que chegou recentemente às plataformas de streaming e que deverá ser lançado futuramente também em vinil.

Aos 84 anos e há meio século morando em Nova York, Dom Salvador (nome artístico de Salvador da Silva Filho) explica o título: "Uma de minhas músicas se chama Samborio, e como a incluí neste álbum, resolvi colocá-la no título, mas botei em latim, para dar um charme extra".

Ele fala já abrindo um largo sorriso de mestre. Um mestre que combina a genialidade com uma atitude tranquila e atenta às novas gerações.

Samborium é o resultado dos encontros "praticamente diários" de Dom Salvador, durante a pandemia, com dois novos parceiros, também vivendo em Nova York: o contrabaixista Gili Lopes e o baterista Graciliano Zambonin. Pela primeira vez em 43 anos, ele não podia trabalhar no River Café, fino restaurante do Brooklyn, onde cinco dias por semana toca "piano romântico", como diz, "sem quebradeira", há 45 anos, desde 1977 (mudou-se para Nova York em 1973).

"São dois grandes músicos, e a pandemia nos aproximou de forma muito bonita", diz Dom Salvador. O resultado é arrebatador. Quatro temas jazzísticos - um de Billy Strayhorn, alter-ego de Duke Ellington, e três de Thelonious Monk, o mais original e inventivo pianista do jazz moderno - convivem com temas autorais entremeados de improvisos absolutamente diferenciados.

Empatia

A empatia se estabelece desde os primeiros acordes de Upper Manhattan Medical Center, de Strayhorn. A estranheza deliciosa do seu piano foi muito bem definida pelo crítico de jazz norte-americano Ben Ratliff, em 2018 no The New York Times: "Samba na mão esquerda e fraseado de jazz na mão direita".

Para entender, depois de se embasbacar com este piano diferenciado, é preciso retornar ao estudante de música clássica em Campinas, no Conservatório Carlos Gomes, e depois na Escola Magdalena Tagliaferro. "Sem técnica você não vai a lugar nenhum", adverte. "Porque estudei música clássica, dominava a técnica."

O complemento ideal aconteceu já no Rio de Janeiro, quando acompanhou Elis Regina em seu primeiro show no Beco das Garrafas, no início dos anos 1960, e teve em seguida no baterista Edison Machado uma alma gêmea musical. Rio 65 e Tristeza, surgidas no ano seguinte, foram verdadeiras revoluções na música instrumental brasileira.

Dom define com simplicidade o diferencial da bateria de Edison, o primeiro a tocar samba-jazz, que emulou ao piano: "Casou com meu estilo. Me incomodava o ritmo imutável, direto, da bateria, em que não havia interação. Eu escutava muito jazz. Philly Joe Jones tinha muita interação. Era aquilo que eu gostaria de ouvir atrás. E o Edison fazia isso".

Houve outra fonte direta do samba-jazz: a faixa Billy Boy, no LP Milestones, de 1958. Nessa canção, gravada antes por Ahmad Jamal (1951), Miles deixou rolar só o trio Red Garland (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Philly Joe Jones (bateria). Era um compasso jazzístico 4/4, mas com pulsação de 2/4, ou seja, de samba. "Acendeu uma luzinha, coloquei mais este ingrediente no meu liquidificador criativo", recorda, rindo.

Em vídeo

Ele completa 85 anos em setembro próximo. Tem total domínio técnico do instrumento e se renova ao tocar com os "meninos" dos quais se cerca em Samborium.

Coincidentemente, recebeu neste momento uma linda homenagem do Jorginho Neto Collective & Big Band, formado por músicos da periferia da Grande São Paulo. Eles postaram, em 30 de janeiro passado, o vídeo de Volta Dom, composição e arranjo do trombonista Jorginho. É um dos seis vídeos sendo lançados semanalmente nas plataformas digitais.

O álbum será lançado no segundo semestre deste ano, acoplado a um documentário mostrando como a música pode transformar a vida de uma comunidade inteira.

Estadão
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