Rock in Rio Tem Chuva, Despedida do Sepultura e Noite de Metal
Segundo dia teve Avenged Sevenfold, Sepultura, MGK, Bring Me The Horizon, Bad Omens e fortes apresentações brasileiras
Sob chuva, a noite de metal do Rock in Rio 2026 destacou o protagonismo das bandas nacionais, com a histórica despedida do Sepultura e a força de Black Pantera e Nervosa. O Bring Me The Horizon fez o show mais catártico do dia, enquanto MGK enfrentou resistência e o Avenged Sevenfold fechou a programação para uma plateia já cansada. Além de consagrar a diversidade do gênero em palcos como o Sunset, o clima úmido fez o público guardar os celulares e viver o festival de forma mais física e intensa.
Rock in Rio 2026 chegou ao segundo dia trocando o calor intenso da estreia por céu fechado, queda de temperatura e chuva suficiente para alterar roupas, deslocamentos e até a forma como parte do público assistia aos shows. O sábado, 5 de setembro, havia sido desenhado como a noite mais pesada do primeiro fim de semana, com Sepultura, MGK, Bring Me The Horizon e Avenged Sevenfold no Palco Mundo, enquanto Bad Omens, Poppy, Black Pantera com Nervosa e Malvada com Day Limns ocupavam o Sunset. O que aconteceu durante as horas seguintes foi maior do que a ideia genérica de "dia do metal".
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A chuva apareceu em diferentes momentos e trouxe o inconveniente óbvio de capa molhada, gramado úmido, roupa pesada e deslocamento mais lento. Ao mesmo tempo, criou uma mudança curiosa na plateia. Em vários pontos da Cidade do Rock, celulares que normalmente permanecem erguidos durante músicas inteiras foram protegidos em bolsos, bolsas ou capas. Com menos aparelhos disputando a linha de visão, havia mais braços levantados, rodas se abrindo e gente acompanhando as bandas com o corpo inteiro.
Não houve nenhuma revolta coletiva contra as redes sociais. Choveu. O telefone custa caro. Guardá-lo virou decisão bastante racional. O resultado involuntário, porém, dizia muito sobre a experiência contemporânea de festival: quando a possibilidade de registrar diminuiu, a relação com o palco ficou mais física. O segundo dia teve um público que precisou se adaptar ao clima e, em muitos momentos, pareceu mais disposto a trocar a gravação perfeita por uma camiseta encharcada dentro de uma roda punk.
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Os Brasileiros Entraram Cedo e Não Aceitaram o Papel de Aquecimento
O segundo dia também reforçou algo que já vinha aparecendo na abertura da edição: algumas atrações brasileiras estão produzindo respostas mais imediatas do que nomes internacionais posicionados acima delas. Isso ficou evidente logo com o Sepultura, que subiu ao Mundo às 16h40 carregando uma circunstância impossível de reproduzir em qualquer outra apresentação daquele sábado. Era o último Rock in Rio da banda e um dos últimos capítulos de uma história iniciada há mais de quatro décadas.
A escolha de trabalhar exclusivamente a fase de Derrick Green afastou o caminho mais óbvio da despedida. Em vez de montar um museu cronológico do Sepultura, o repertório reafirmou os quase 30 anos em que Derrick comandou os vocais e ajudou o grupo a continuar produzindo após uma mudança que, em 1997, parecia capaz de encerrá-lo. Andreas Kisser ainda transformou parte do show em performance visual ao pintar durante a apresentação, enquanto o público enfrentava a chuva e respondia com mosh pits. A despedida tinha peso histórico, mas continuava agressiva o suficiente para evitar clima de velório.
No Sunset, Black Pantera com Nervosa ampliou essa impressão. O encontro tinha duas baterias, guitarras pesadas e um discurso social que fazia parte das músicas antes mesmo de qualquer fala entre elas. Um dos momentos mais fortes veio de fora do palco: Dona Guiomar, mãe de Charles Gama e Chaene da Gama, acompanhou "Tradução" no fosso embaixo da chuva. Depois, quando a Nervosa entrou, uma roda punk formada somente por mulheres tomou parte do gramado. A imagem conseguia juntar afeto familiar, representatividade e violência controlada de um mosh sem parecer montada para render corte de rede social.
Malvada com Day Limns já havia aberto o Sunset trazendo "Ovelha Negra" e imagens de Rita Lee, enquanto o Supernova ainda receberia MC Taya, LVCAS e Supercombo. O conjunto ajudou a desmontar aquela velha lógica em que artista brasileiro ocupa festival internacional para "aquecer" quem realmente interessa. Em diferentes momentos do sábado, as respostas mais espontâneas surgiram diante de nomes nacionais, enquanto atrações estrangeiras de maior cartaz precisaram trabalhar mais para conquistar participação. Esse contraste ficou especialmente claro algumas horas depois.
MGK Encontrou Resistência e o Dia do Metal Mostrou Que Ainda Existe Polícia de Gênero no Gramado
MGK entrou no Palco Mundo com uma produção feita para chamar atenção. Havia fogo, dançarinas, uma gigantesca cabeça da Estátua da Liberdade e um artista decidido a misturar sua origem no rap com a fase pop-punk que o levou a outra parcela do público. Visualmente, era um dos shows mais carregados do começo da noite. A reação do gramado, porém, não acompanhou a cenografia durante todo o tempo.
Parte da plateia chegou a hostilizá-lo. O próprio cantor percebeu a resistência e falou abertamente sobre pessoas que pareciam questionar sua presença naquela programação, respondendo que estava ali por seus fãs e que pretendia conquistar quem ainda não gostava dele. Foi um raro momento em que a discussão sobre pertencimento ao rock saiu das redes e entrou no palco principal do festival.
A situação ajuda a compreender a proposta daquele sábado. O Rock in Rio colocou na mesma noite o thrash do Sepultura, o pop-punk de MGK, a combinação de metalcore, eletrônica e pop do Bring Me The Horizon e uma banda como Avenged Sevenfold, cuja discografia já passou por metalcore, heavy metal, hard rock, progressivo e experimentações pouco ortodoxas. No Sunset, Poppy transitava entre metal industrial, pop experimental e eletrônica, enquanto Bad Omens fazia movimento semelhante por outro caminho.
O público nem sempre recebeu essa variedade com a mesma abertura. Horas depois, M. Shadows comentou a negatividade que havia visto nas redes e lembrou que aquelas bandas eram amigas, citando MGK, Bad Omens, Poppy e Bring Me The Horizon. O recado tinha pertinência porque o dia havia mostrado uma contradição: a nova geração do metal expandiu suas ferramentas sonoras, enquanto uma parcela do público ainda tenta determinar quem possui direito de ocupar determinados palcos.
Bring Me The Horizon Entendeu Melhor Que Ninguém o Que Aquele Público Queria
Quando Bring Me The Horizon começou "DArkSide", o clima mudou quase imediatamente. A banda chegou ao primeiro Rock in Rio com uma relação brasileira já bem construída e um Oli Sykes capaz de compreender o tamanho dessa proximidade. Casado com uma brasileira e vivendo parte do tempo no país, o vocalista alternou inglês e português, brincou com CPF e Pix e passou a apresentação inteira testando até onde conseguia levar a plateia.
O show trabalhou sua própria linguagem visual dentro dos enormes painéis do Palco Mundo, utilizando estética de games, interfaces digitais e interlúdios que davam às músicas uma narrativa contínua. "Teardrops", "Kool-Aid", "Shadow Moses", "Kingslayer", "Drown", "Throne" e "Can You Feel My Heart" construíram um set que conseguia conversar com diferentes momentos da carreira sem parecer coletânea. Até "Pray for Plagues", de uma fase muito mais extrema da banda, entrou com um fã brasileiro convidado para cantar no palco.
Oli conduziu rodas, pediu pulos e encontrou resposta inclusive longe das primeiras fileiras. Houve mosh pits espalhados pelo gramado e até uma roda adaptada dentro da área destinada a pessoas com deficiência ganhou circulação nas redes depois do show. Aqui, os comandos deixaram de parecer uma tentativa de animar uma multidão pouco receptiva. Havia um jogo estabelecido entre banda e público: Sykes pedia porque sabia que receberia de volta.
Esse foi provavelmente o grande momento musical do segundo dia. O Avenged Sevenfold tinha o posto de headliner e entregaria uma produção maior na madrugada, mas o Bring Me The Horizon encontrou a combinação mais forte entre repertório, palco, resposta coletiva e emoção. Foi o show em que a dimensão tecnológica da edição de 2026 e a fisicalidade antiga de uma roda punk pareceram pertencer à mesma linguagem.
A chuva ajudou a tornar tudo ainda menos controlado. Gente molhada pulava, celulares desapareciam com maior frequência e o gramado assumia aquele aspecto de festival em que conforto perde importância por alguns minutos. Para uma banda que trabalha catarse como parte de sua escrita, o cenário caiu muito bem.
Poppy e Bad Omens Mostraram Que o Sunset Continua Sendo Território de Descoberta
Enquanto o Mundo trabalhava com escala monumental, o Sunset teve outra função durante a noite. Poppy apareceu vestida com verde, amarelo e azul e levou ao palco um repertório incapaz de permanecer dentro de uma única classificação. Metal, eletrônico, pop, industrial e passagens mais agressivas conviviam sem a necessidade de decidir qual delas representava a "verdadeira" artista. A chuva persistiu durante parte do show, sem impedir a resposta do público diante do palco.
O Bad Omens, por sua vez, fechou o Sunset mostrando por que a ascensão recente do grupo já permite posições altas em festivais. Noah Sebastian trabalha melhor quando pode alternar agressividade com trechos mais atmosféricos, e aquele espaço ofereceu tamanho suficiente para que "The Death Of Peace Of Mind" e o material recente ganhassem impacto sem perder intimidade. A volta de Poppy para "V.A.N" ainda transformou dois shows da programação numa narrativa compartilhada.
Essa foi uma das melhores decisões de curadoria do sábado: colocar artistas que dialogam musicalmente no mesmo palco e permitir que a programação crie encontros possíveis somente naquele contexto. O Sunset teve menos gigantismo tecnológico que o Mundo, mas encontrou uma sequência coerente entre Malvada, Black Pantera e Nervosa, Poppy e Bad Omens. O palco ganhou personalidade própria durante o dia em vez de funcionar como extensão menor da atração principal.
O mesmo ocorreu em áreas menores. Korzus fechou o Global Village, Supercombo terminou o Supernova e Major RD ocupou o Favela, onde a presença dos pais na plateia acrescentou outra camada emocional à apresentação. O Rock in Rio funciona melhor quando circular pela Cidade do Rock produz descobertas reais; ficar preso aos dois maiores palcos teria feito muita gente perder alguns dos momentos mais fortes daquele sábado.
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Entre Uma Música e Outra, as Marcas Continuam Disputando Horas do Festival
O segundo dia também confirmou o tamanho que as ativações ganharam dentro da experiência. São mais de 100 ações de marcas e uma previsão de aproximadamente um milhão de brindes durante os sete dias, volume suficiente para transformar determinadas filas em programação paralela. A diferença entre uma boa ativação e uma distração cara em tempo ficou ainda mais evidente num sábado com tantos shows fortes.
A Doritos chamou atenção nessa edição ao estrear nacionalmente o Doritos Turbo, versão do produto montada com ingredientes como proteínas, vegetais, queijos e molhos. A ativação ainda trabalha roleta, oportunidades de foto e distribuição de itens, enquanto a Área VIP recebe ações próprias da marca. A proposta funciona bem porque traz alguma utilidade gastronômica para a experiência em vez de depender exclusivamente do mecanismo "entre numa fila e ganhe um objeto".
O iFood ampliou bastante sua presença em 2026. A marca ocupa quatro pontos, incluindo a montanha-russa, espaços próximos ao Mundo e ao Sunset e o Gourmet Square. Entre os brindes mais disputados aparecem o tradicional pin luminoso, minicâmeras digitais e fast pass para o brinquedo. É uma operação grande o suficiente para entrar visualmente no festival e, ao mesmo tempo, oferecer vantagens que o público consegue utilizar naquele mesmo dia.
Já a Coca-Cola apostou num espaço com DJs e apresentações musicais, distribuindo pequenos CDs usados como acessórios para celular. A área funcionava quase como uma programação complementar em meio ao fluxo entre os palcos. Em um festival com mais de 90 marcas, as melhores ativações acabam sendo aquelas capazes de justificar alguns minutos sem fazer o público sentir que abandonou a música para participar de uma ação publicitária.
E existe, claro, o VIPÃO. Com cerca de 6.250 m², capacidade diária para aproximadamente 5 mil pessoas, espaço climatizado, lounges, varanda e uma longa operação de open bar e bufê comandada por Heaven Delhaye, a Área VIP ganhou uma vantagem bastante concreta em um dia chuvoso: teto e lugar para sentar passaram a valer quase tanto quanto o cardápio. O contraste com quem enfrentava chuva no gramado era impossível de ignorar.
Avenged Sevenfold Trouxe o Maior Espetáculo, Mas Encontrou Um Público no Limite
O Avenged Sevenfold tinha a missão de encerrar um dia longo e molhado. A previsão indicava 0h05, mas a banda começou por volta de 0h35, meia hora depois do horário programado. Para quem havia entrado na Cidade do Rock às 14h, enfrentado chuva, filas, deslocamentos e vários shows, aquela meia hora tinha um peso muito diferente do mesmo atraso numa apresentação isolada.
Musicalmente, a banda montou um repertório pensado para fãs. "Nightmare", "Afterlife", "Shepherd of Fire", "Buried Alive", "Seize the Day", "The Stage", "Hail to the King", "M.I.A.", "Bat Country", "Unholy Confessions" e "A Little Piece of Heaven" dividiram espaço com "Magic" e "Nobody". O Palco Mundo foi utilizado com fogo, projeções enormes, imagens tridimensionais e uma produção que justificava o posto de encerramento.
A resposta da plateia, contudo, oscilou. M. Shadows chegou a perguntar se o público estava "educado demais" e sugeriu que a chuva poderia explicar o comportamento. Em trechos mais longos, principalmente nas passagens instrumentais e em algumas músicas recentes, a dispersão ficava visível. Quando chegavam os clássicos, a reação aumentava; "Bat Country", "Unholy Confessions" e "A Little Piece of Heaven" recuperaram boa parte da força no trecho final.
Nada disso transforma o show em fracasso. O Avenged apresentou técnica, produção e um catálogo capaz de sustentar o maior palco da noite. A comparação com o Bring Me The Horizon, porém, era inevitável. O grupo britânico havia criado horas antes uma resposta mais imediata e menos dependente de insistência. O headliner ganhou em escala; o antecessor ganhou na relação com o público.
Por volta das 2h, outra cena começou a contar uma história paralela: muita gente iniciou a saída enquanto o show ainda estava em andamento. O atraso, a chuva e mais de 12 horas de festival começaram a cobrar a conta, e o fluxo em direção aos portões cresceu antes de "Cosmic" fechar a apresentação sob luzes e fogos.
A hora de ir embora também faz parte de um festival. Existe um ponto em que ficar até o último segundo deixa de representar devoção e começa a disputar espaço com pernas doloridas, transporte e horas acumuladas de cansaço. O segundo dia deixou essa realidade visível justamente durante o maior show da madrugada.
A Chuva Acabou Mudando Mais Que o Clima
O sábado começou vendido como uma nova celebração do rock pesado e terminou mostrando algo mais amplo sobre o Rock in Rio 2026. A programação refletiu um gênero muito menos rígido do que décadas atrás, capaz de colocar Sepultura, MGK, Poppy, Bring Me The Horizon, Bad Omens e Avenged Sevenfold sob o mesmo guarda-chuva sem que nenhum deles precisasse tocar a mesma coisa.
Os brasileiros também deixaram de funcionar como nota lateral dentro dessa narrativa. Sepultura carregou a despedida mais histórica do dia; Black Pantera e Nervosa produziram alguns dos momentos de maior participação no Sunset; Malvada e Day Limns homenagearam Rita Lee; Supercombo lotou o Supernova. Em uma noite internacionalmente forte, houve apresentações nacionais capazes de provocar respostas maiores do que artistas com posições superiores no cartaz.
O Bring Me The Horizon terminou como grande destaque por conseguir unir espetáculo e entrega coletiva. Avenged Sevenfold encerrou com a maior escala visual, mas encontrou um público mais cansado e menos explosivo. MGK enfrentou resistência e transformou parte dela em conversa. Poppy e Bad Omens mostraram outras possibilidades para o metal atual. Sepultura tocou pela última vez naquele festival sem reduzir sua despedida a uma coletânea de saudades.
E a chuva, que poderia ter sido apenas incômodo, deixou uma das imagens mais curiosas do sábado. Em vários momentos, havia menos gente assistindo ao show através de uma tela pequena e mais gente simplesmente olhando para o palco, pulando, cantando ou tentando não escorregar dentro de uma roda.
Nem todo mundo saiu seco, mas muita gente saiu tendo vivido o segundo dia por inteiro.
Sepultura | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@RaphaGarcia)
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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