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Xamã volta ao Espaço Favela no Rock in Rio com inspiração até no Queen: 'Potência máxima'

Em entrevista ao 'Estadão', rapper comenta evolução no festival, relação com o palco e show preparado para este domingo, 6

6 set 2026 - 10h11
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Resumo
Xamã retorna ao Espaço Favela no Rock in Rio com um show dinâmico inspirado no Queen para condensar sua trajetória. Vivendo uma fase consolidada, o rapper celebra a cultura periférica no festival, divulga o álbum "Flerte" e expande sua atuação artística para o cinema e o streaming, com destaque para a comédia na Netflix e a premiação no Festival de Gramado.

Xamã retorna ao Rock in Rio neste domingo, 6, para uma apresentação no Espaço Favela que pretende condensar diferentes momentos de sua trajetória em uma hora de show. Depois de estrear no festival em 2019, passar pelo Palco Sunset em duas apresentações em 2022 e pelo Dia Brasil em 2024, o rapper chega à edição de 2026 com uma carreira mais consolidada e uma estrutura maior para levar ao palco.

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A proposta, segundo ele, é fazer caber em apenas uma hora uma história que poderia render um espetáculo de três. Para encontrar o equilíbrio entre passado e presente, Xamã buscou referências até no show do Queen.

Xamã retorna ao Rock in Rio neste domingo, 6, para uma apresentação no Espaço Favela
Xamã retorna ao Rock in Rio neste domingo, 6, para uma apresentação no Espaço Favela
Foto: Lucas Nogueira/Divulgação / Estadão

"É uma hora de show. A gente queria fazer três horas para contar a minha história. É só uma hora de show, e como a gente conta tudo isso, assim? (risos). Eu estava vendo algumas referências e tem o show do Queen, que eles fazem 25 minutos, rapidamente. A gente fala: 'Olha o que esse cara fez?'. Mas é o Queen, óbvio, né?", diz.

A ideia é usar a estrutura do espetáculo para percorrer diferentes fases de sua carreira: "Trazer a carreira inteira com coral, potência de metais, DJ, muitos MCs. Potência máxima dessa vez", resume.

Um 'suco do Rio de Janeiro'

O retorno ao Espaço Favela também tem um significado especial para Xamã por representar, em sua visão, uma parcela importante da identidade do próprio festival. Para o rapper, o palco dedicado à produção periférica funciona como uma espécie de síntese da cultura carioca.

"A música periférica do Rio, que é o pagode, o funk, o rap, que é toda cultura de dança (...) Tudo isso pulsa pelo Palco Favela."

Ele ressalta que a experiência de um festival internacional ganha outra dimensão quando a produção periférica do Rio também ocupa esse espaço.

"Poder ter essa lente de aumento num palco da periferia é uma coisa surreal, porque tem muita gente que vem de fora, não só do Brasil, mas do mundo, e pode ter um suco do Rio de Janeiro no Rock in Rio. É uma maravilha", diz.

Da estreia à volta ao Espaço Favela

A relação de Xamã com o Rock in Rio começou em 2019, justamente no Espaço Favela. A apresentação marcou uma mudança de escala em sua trajetória, ao colocá-lo diante de um público muito maior do que aquele que já acompanhava seu trabalho nas batalhas de rima e em outros shows.

"Acho que a partir daquele show fui apresentado ao público. Algumas pessoas que me conheciam de algumas cifras de batalha, ou então de rima, ou então de outro show em algum lugar, elas viram um show meu no palco dos maiores festivais do Brasil, do mundo", fala.

Segundo o rapper, o espaço teve papel importante na projeção de sua carreira: "Lente de aumento que o Palco Favela deu na minha carreira que me projetou para outros lugares. Eu vivi essa transformação".

A lembrança daquela primeira apresentação continua guardada de maneira concreta. "Eu guardo o figurino, eu tenho o mesmo figurino", afirma.

Na ocasião, a emoção diante da plateia foi maior do que ele esperava. "Quando eu subi, eu vi a galera e não acreditei, comecei a chorar, chorar, assim, meio que engasgar (risos). Não tinha me preparado psicologicamente para aquilo", conta.

Depois da estreia, vieram novas experiências no festival. Em 2022, Xamã esteve duas vezes no Palco Sunset, em uma apresentação solo e outra ao lado de nomes como Alceu Valença e Elba Ramalho. Em 2024, participou do Dia Brasil, edição que celebrou os 40 anos do Rock in Rio.

Agora, o retorno ao Espaço Favela ganha, para ele, um sentido de continuidade: "E dessa vez veio quase que uma trilogia de um filme, tá ligado? (risos). Vem toda aquela saudade de estar tocando o palco, toda aquela experiência de poder estar no Rock in Rio novamente, e poder estar levando essa estrutura que a gente tem hoje de carreira pro Palco Favela, né?".

O rapper Xamã
O rapper Xamã
Foto: @euxama via Instagram / Estadão

Entre rascunho e desenho

A dimensão do espetáculo também mudou a maneira como Xamã pensa sua preparação. O rapper diz que trabalha entre a intuição criativa e a organização necessária para transformar as ideias em um show.

"Rascunho é tão incrível, sexy, poderoso. Rascunho são universos. O desenho é muito mais racional, né? Você vai vendo o desenho e você fala: 'Nossa, esse azul não era o que eu imaginava'", explica.

Para ele, o processo criativo passou a acompanhar também sua aproximação com o cinema: "Eu tenho uma mente muito criativa. Tudo é ideia, tudo é projeção, tudo é criação. E principalmente depois que me inventaram de fazer cinema". "É sempre uma dança de rascunho e desenho, né? Criação e ideia", completa.

Um novo jeito de fazer música

Recentemente, Xamã lançou Flerte, seu quinto álbum de estúdio. Com oito faixas inéditas, o projeto marca uma nova fase na carreira do rapper ao explorar sonoridades como afrobeat, amapiano, dancehall, house music e ritmos latinos, sem deixar de lado a força narrativa que caracteriza seu trabalho. O disco conta ainda com participações de Ludmilla, L7nnon, Amabii, NP e Nomad.

Para Xamã, porém, a principal novidade de Flerte aconteceu no próprio processo de composição. Acostumado a escrever sozinho, ele passou a dividir a criação com outros artistas. "Eu componho comigo, eu escrevo comigo aqui e ninguém vai fazer parte do meu processo. Quando eu comecei a fazer o Flerte, eu já conhecia o NP, que é um compositor incrível. E ele sempre foi muito swingado. E conheço a Amabbi, que a gente já gravou algumas coisas", conta.

A experiência fez Xamã romper uma resistência que carregava havia anos: "Foi incrível, porque eu quebrei uma mania que eu tinha, que eu achava 'não, não vou conseguir compor isso'. 'Ah, não, música de amor tem que ter essa experiência'."

Entre as músicas do álbum está Você Tirou Meu Ar, cuja letra foi escrita por Amabbi. Para Xamã, interpretar uma composição que não nasceu de sua própria experiência também exigiu um exercício diferente. "Muito difícil, né? Eu vestir a roupa de outra pessoa", confessa.

O título Flerte surgiu justamente dessa atmosfera de experimentação e rapidez na criação. "Tem esse nome porque foi feito muito rápido. E era aquela coisa de, sabe quando você cria uma música rápida e ela tem uma sensação de 'Nossa, isso é fresco, é bom, é novo!'", fala.

A música encontra o cinema

A atuação também ganhou espaço na trajetória de Xamã. Em Cinco Tipos de Medo, dirigido por Bruno Bini, ele interpreta Sapinho, em um longa inspirado em uma história real de Cuiabá. O filme está entre os 15 habilitados a disputar a indicação brasileira ao Oscar 2027 e rendeu ao rapper o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Gramado de 2025.

Para ele, o trabalho representou uma porta de entrada para um universo que já fazia parte de seus interesses antes mesmo da carreira como ator. "Esse filme foi um achado, uma oportunidade, um privilégio de poder ser escolhido pelo Bruno Bini, de poder estar com aquela galera toda. Foi a primeira vez que eu estive no set e, a partir daquilo ali, tudo mudou depois", comemora.

A relação com a sétima arte, no entanto, não começou no set. Xamã conta que o interesse já aparecia em sua música, inclusive no álbum Iluminado, formado por faixas relacionadas a filmes. "Eu já flertava com o cinema antes de fazer parte dele. Era fã de locadora", comenta.

Agora, ele vê os dois campos de sua carreira cada vez mais próximos: "É uma paixão que já estava na minha vida, só que era difícil fazer com que a música e o cinema dançassem a mesma música, né? E agora está dando certo".

O filme 'Cinco Tipos de Medo' rendeu a Xamã o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Gramado de 2025
O filme 'Cinco Tipos de Medo' rendeu a Xamã o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Gramado de 2025
Foto: @euxama via Instagram / Estadão

Novos personagens

A atuação também começa a levá-lo para personagens diferentes dos papéis ligados ao universo do crime. Depois de interpretar Bagdá, em Três Graças, novela da TV Globo, e Búfalo, na série Os Donos do Jogo, do Globoplay, Xamã se prepara para novos projetos. "Os próximos personagens estão saindo um pouco da atmosfera do crime, do bandido", pontua.

Ele cita a experiência com os dois trabalhos como parte de um processo de amadurecimento diante das câmeras. Segundo o rapper, Búfalo foi um dos papéis de maior destaque de sua carreira até agora. Já Bagdá permitiu abordar uma dimensão social. "O Búfalo já era um personagem mais caricato, engraçado e bom de assistir. O Bagdá teve um papel social, uma coisa de um bandido que acabou virando artista", fala.

A possibilidade de transformar essa trajetória em narrativa artística também encontra paralelo com o rap. "O rap é isso, a gente transforma crime em poesia. Tira a perspectiva de violência e transforma em arte. E a gente poder criar e fazer isso em tempo real é muito mágico", pontua.

Na Netflix, Xamã já trabalha em outro registro. Ele integra o elenco de Casamento Aberto e Outras Coisas que Não Existem, nova série brasileira de comédia dirigida por José Alvarenga Jr. e criada e escrita por Alexandre Machado. As gravações começaram em São Paulo, e a produção ainda não tem data de estreia definida.

O elenco reúne Camila Pitanga, Heloisa Périssé, Samantha Schmütz, Sergio Guizé e Otavio Muller, além de Xamã. "Uma equipe incrível! Cara, poder estar com essa galera (...) Você entra no set, eu assisto a eles. Eles me levaram para uma atmosfera também de outras criações, compondo também junto. E está sendo muito divertido passar por essa experiência", salienta.

Xamã integra o elenco de 'Casamento Aberto e Outras Coisas que Não Existem', nova série brasileira de comédia da Netflix
Xamã integra o elenco de 'Casamento Aberto e Outras Coisas que Não Existem', nova série brasileira de comédia da Netflix
Foto: Julia Mataruna/Netflix/Divulgação / Estadão

A comédia, ele admite, é um território novo. "É um esporte novo. É um esporte que ele passa por outras perspectivas e a direção aguçada, o olhar do Alvarenga também, é muito incrível", pontua.

Para Xamã, seja na música ou na atuação, o trabalho continua baseado na troca. "Eu troco o tempo todo com esse elenco. Eu sou o repórter (risos). A gente conversa muito", fala.

E é justamente essa colaboração que, segundo ele, sustenta o trabalho no cinema. "O cinema só existe com trocas. Nem um filme monólogo você faz sozinho. Você vai precisar de outras milhões de pessoas por trás das câmeras. E compor com essas pessoas é um privilégio máximo", finaliza.

Estadão
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