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'Revolver', o LP ácido dos Beatles, faz 60 anos. Por que foi tão revolucionário?

Álbum de 1966, de canções como 'Eleanor Rigby' e 'Doctor Robert', ampliou a linguagem da música pop e redefiniu os rumos da banda britânica; biógrafo Philip Norman e especialista Gilvan Moura comentam o impacto da obra

5 ago 2026 - 12h06
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Quem conhece a obra dos Beatles costuma destacar o complexo Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) e o derradeiro Abbey Road (1969) como os dois trabalhos mais impactantes da carreira da banda britânica. São escolhas pertinentes. É inegável, no entanto, que eles não existiriam sem Revolver (1966), o LP ácido que faz 60 anos nesta quarta-feira, 5.

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Após seis álbuns lançados, os rapazes de Liverpool deram um passo além em abril de 1966. Pela primeira vez, eles tiveram controle das ferramentas do estúdio de gravação, tornando-o um verdadeiro protagonista. Musicalmente e psicologicamente distantes da fase "iê-iê-iê", ampliaram a linguagem da música pop e obtiveram como resultado um disco que levou a inovação artística a outro patamar. Satisfeitos com a qualidade do projeto, também decidiram abandonar os palcos em agosto daquele ano, pois não conseguiam se ouvir em meio aos gritos das fãs e queriam concentrar seus esforços em estúdio.

"As ideias deles estavam começando a ficar bem mais influentes no estúdio. Eles começaram a me dizer o que queriam, a me pressionar para dar mais ideias e mais modos de transformá-las em realidade", contou o produtor George Martin (1926-2016) no livro institucional dos Beatles, Antologia.

Os Beatles atingiram um novo patamar artístico com o LP 'Revolver'
Os Beatles atingiram um novo patamar artístico com o LP 'Revolver'
Foto: Apple Corps/Divulgação / Estadão

Martin, bem como seu engenheiro de som, Geoff Emerick (1945-2018), foram pedras angulares nessa jornada. A dupla percebeu que, para atingir os objetivos do grupo, seria preciso esquecer as técnicas tradicionais de captação e abandonar a lógica de gravar as músicas como se fosse uma apresentação ao vivo.

"Os Beatles estavam exigindo mais, muito mais, tanto de mim quanto da tecnologia. Nós não sabíamos disso à época, mas estávamos fazendo grandes avanços no processo de gravação", escreveu Emerick em seu livro de memórias, Here, There And Everywhere: Minha Vida Gravando os Beatles.

Vanguardismo e drogas

A coleção de 14 canções evidenciou a evolução artística de cada integrante. Antes de John Lennon (1940-1980) conhecer Yoko e se interessar pelo vanguardismo, Paul McCartney já estava expandindo seus horizontes. Ele disse, em Antologia, que começara a "perder a mentalidade do pop puro". Passou a ter mais contato com gente de outros setores do meio artístico, como o marchand Robert Fraser, e ouvir as loucuras, no melhor sentido da palavra, de músicos como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Também ficou impressionado com Pet Sounds (1966), a obra-prima dos Beach Boys que seria uma influência ainda mais acentuada para o álbum posterior, Sgt Pepper's.

McCartney apresentou três das melhores baladas que fez em toda a sua vida. Here, There and Everywhere, eleita pelo próprio como sua composição favorita; For No One, abrilhantada pelo uso da trompa, e Eleanor Rigby, com sua letra melancólica e o soberbo arranjo para octeto de cordas criado por George Martin. Paul também trouxe à baila a ensolarada Good Day Sunshine e o rock com metais e toques de soul music Got To Get You Into My Life, uma ode à maconha, o que nos leva ao impacto das drogas durante a realização de Revolver.

O álbum foi regado a montantes consideráveis de marijuana e LSD. She Said She Said, Doctor Robert e Tomorrow Never Knows, todas de Lennon, são os exemplos mais evidentes. A primeira foi inspirada em uma viagem de ácido do beatle pela Califórnia e a segunda, sobre um tal doutor que "anima" seus pacientes, foi definida pelo músico como autobiográfica, pois ele era o responsável por distribuir certas pílulas dentro do círculo da banda. Alguns biógrafos, contudo, apontam que tratava-se de uma referência a Robert Freymann, médico de Nova York conhecido por administrar injeções com anfetaminas a uma clientela rica.

Tomorrow Never Knows, um marco à parte, é tida como uma das peças mais revolucionárias da história da banda. Eles usaram loops de fita - isto é, pequenos trechos de áudio gravados em fita magnética, com sons diversos, repetidos e que criavam uma paisagem sonora inédita. John quis que sua voz soasse como "Dalai Lama" ou "cem monges" no topo de uma montanha. A letra foi inspirada pelo livro A Experiência Psicodélica (cujos capítulos faziam uma interpretação do Livro Tibetano dos Mortos), do autor americano Timothy Leary, emblema da contracultura e defensor do uso de substâncias alucinógenas. Como prova de seu impacto cultural, a faixa foi executada em um momento-chave da série Mad Men e citada em uma música do Oasis, apenas para lembrar dois casos.

Já o guitarrista George Harrison (1943-2001) despontava como um compositor à altura da parceria Lennon/McCartney e teve três canções incluídas: Love You To, registrando seu interesse pela música indiana e a cítara; Taxman, grito anti-establishment contra os altos impostos do Reino Unido (com direito a uma provocação ao primeiro-ministro britânico Edward Heath), e I Want to Tell You, sobre a frustração de não conseguir articular em palavras os seus sentimentos.

Ringo Starr, por sua vez, ofereceu algumas de suas melhores execuções na bateria, criando levadas que acompanhavam com precisão as ousadias dos demais integrantes. O baterista costuma dizer que tem enorme orgulho das performances em Tomorrow Never Knows e Rain - faixa que não entrou em Revolver, tendo sido lançada como lado B do single Paperback Writer (ambas foram gravadas durante as mesmas sessões do álbum).

De quebra, Ringo, que até então cantava apenas esporádicos covers nos discos dos Beatles, ganhou seu momento definitivo como vocalista em Yellow Submarine. A canção de atmosfera infantil e bem-humorada aparecia como um inesperado respiro em meio à parafernália psicodélica de Revolver.

O conceito experimental do projeto foi refletido na arte de capa hipnótica e cheia de colagens concebida por Klaus Voormann, amigo dos tempos de Hamburgo, cidade que os Beatles tocaram bastante no começo dos anos 60. E o título se conecta à forma como um disco gira ("revolves", em inglês) na vitrola, e não a uma arma de fogo.

'O público não estava preparado'

"O público não estava preparado para tanta informação e acredito que houve até uma certa dificuldade de entender e apreciar Revolver naquela época", avalia o youtuber Gilvan Moura, dono do canal especializado The Beatles School e guia turístico em viagens temáticas sobre a banda na Inglaterra.

Ele destaca, também, como o tempo foi determinante para o sucesso do álbum. "Não havia planos para uma turnê no início de 1966 e um terceiro filme que fariam [após Os Reis do Iê, Iê, Iê e Help!] foi cancelado, então eles tiveram tempo para compor e desenvolver essas músicas e letras em paz. Desde 1963 a vida deles era na estrada, programas de TV e rádio, e quando tinham um tempinho corriam para o estúdio para gravar algo. Agora, tinham tempo e domínio do estúdio", analisa.

Arte de capa do álbum 'Revolver' foi feita por Klaus Voormann
Arte de capa do álbum 'Revolver' foi feita por Klaus Voormann
Foto: The Beatles/Divulgação / Estadão

Philip Norman, biógrafo dos Beatles desde os anos 80 e autor de títulos sobre John, Paul, George e, mais recentemente, o empresário do grupo, Brian Epstein, afirma que aquele foi um período em que os quatro ainda estavam genuinamente felizes por fazer parte da banda. Era o momento anterior ao surgimento das tensões internas que, nos anos seguintes, se intensificariam até culminar na separação do grupo, em 1970.

"Rubber Soul (1965) ficou conhecido como o álbum da maconha e Revolver como o álbum do ácido", lembra o escritor inglês em entrevista por telefone. "Mas, para mim, ambos ainda carregam aquele espírito da Swinging London: os dias quentes, as calçadas fervilhando, a Carnaby Street, tudo o que marcou aquele breve período de prazer, liberdade e empolgação da juventude."

Norman escolhe como sua faixa favorita Tomorrow Never Knows, cujo verso de abertura ainda é capaz de abalar o ouvinte. "Turn off your mind, relax and float downstream" ["Desligue a mente, relaxe e flutue correnteza abaixo", na tradução], cantou John, sessenta anos atrás. De algum modo, o convite permanece irresistível: basta seguir a correnteza para perceber que Revolver continua soando como se viesse do amanhã.

Ouça 'Revolver'

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Estadão
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