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Rael e o reencontro com o MC que ficou adormecido: 'Ele tava por aí tirando onda'

Rapper fala sobre Nas Profundezas da Onda, disco feito em 30 dias após perder a mãe e que marca o retorno ao lado underground

19 mai 2026 - 08h39
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Rael ficou seis anos sem lançar um disco solo. O último tinha sido em 2019. Veio a pandemia, veio a perda da noção de tempo e espaço, veio um monte de colaborações. As pessoas convidavam ele para fazer músicas leves, músicas românticas. E o Rael da Rima — aquele do Pentágono, aquele com veia underground, aquele mais gangsta — ficou adormecido. "Ele tava por aí tirando onda, velho", conta o artista de 44 anos, em entrevista à Rolling Stone Brasil.

Foto: Divulgação / Rolling Stone Brasil

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Não que ele tenha sumido completamente. Mas ficou em segundo plano. Porque fazer rap no Brasil, quando Rael começou, não era glamoroso como é agora, não era legal como é agora. Era difícil. Outros gêneros musicais não gostavam muito, não tinham conexão, não entendiam o que estava sendo feito. "Então você tinha que gostar muito do rap naquela época. Hoje eu vejo uma realidade, uma indústria gigantesca, vejo festival, vejo artistas fazendo show, contratando um monte de gente. Naquela época era tipo: 'Mano, vai trabalhar e faz rap'. Imagina".

E, durante esses seis anos sem disco solo, Rael curtiu fazer feats, curtiu explorar o lado mais leve, mais romântico. Tanto que Onda, lançado em 2025, sintetiza esse rolê todo: ele foi o anfitrião e convidou todo mundo para a festa. Nove colaborações: Mano Brown, Ivete Sangalo, Ludmilla, Marina Sena. Um disco para tirar uma onda mesmo, para ir para a pista, para dançar.

Mas o Rael da Rima tava lá. Esperando. E, em Nas Profundezas da Onda, lançado em março de 2026, ele volta. Sozinho. Sem nenhuma colaboração. Um mergulho que ele tinha que dar sozinho para externar ideias que estava sentindo. "Eu acho que tem algumas músicas, como Todo Processo, que eu tinha que fazer sozinho".

Raiva como combustível

E teve combustível. Rael perdeu a mãe no ano passado. Foi assaltado. Aconteceram coisas que acontecem na vida das pessoas, normal. E, em vez de ir para a "internet chorar" (como ele conta), ele entrou no estúdio. "Eu acho que, para mim, foi um processo um pouco de cura também".

Essas sensações que estavam rolando ele conseguiu canalizar para o disco. "Eu usei a raiva, ou as coisas que aconteceram comigo, como ser humano, como combustível". E não quis fazer exposição pública do luto. Quis preservar. "Minha mãe, pô, que esteja num bom lugar. Eu sei que eu vou estar conectado com ela sempre e vou seguir".

Ela já tava sofrendo havia um tempo. Foi um descanso também. "Eu quis ressignificar aquilo. E você fica sentido, né? A gente fica mexido. Eu acho que, para o criador — não só de música; na arte, no modo geral —, aquele período… é que nem sofrer de amor também. Às vezes, o artista faz o melhor disco da vida dele quando tá com uma desilusão amorosa. Eu acho que tem essa correlação: sofrimento barra 'vou externar isso'".

Dois discos em menos de um ano

Nas Profundezas da Onda foi feito em 30 dias. Rael, Nave e mais alguns produtores que colaboraram aceleraram o ritmo. Em menos de um ano, dois discos. E os dois são xodó, de maneiras diferentes. "Talvez, se eu fosse sintetizar isso numa metáfora de filhos ou parentes próximos, o Onda é aquele filho mais extrovertido, e o Nas Profundezas é um pouco mais introspectivo, com os seus momentos de felicidade, quando se permite".

Onda é luz. Nas Profundezas da Onda tem luz, mas também tem sombra. "A gente é isso também. A gente não tá alegre o tempo inteiro. A gente não quer festa o tempo inteiro. A gente quer falar das nossas coisas: do que acontece, do que a gente sente com aquilo, das nossas indignações, do que a gente acha que tem que mudar".

E é aí que o Rael da Rima aparece. Essa essência do rap de contextualizar, de apontar o dedo para as coisas que a gente quer mudar. Saúde mental, indústria da música, ecocídio, feminicídio. "Por trás do artista não é só um hit, é um disco de sucesso. Tem um ser humano ali também, que tem suas nuances".

"Melhor disco da carreira"

Rael considera Nas Profundezas da Onda o melhor disco da carreira. E explica por quê: "Eu consegui linkar as ideias e as melodias. Eu acho que, de forma abstrata, eu consegui externar uma coisa que vem acontecendo na indústria da música: como a gente se relaciona com o universo digital e com a criação. O que isso reconfigurou a mente e o nosso dia a dia mesmo, em relação a ouvir música, a consumir, a ir pra show. Tudo isso se reconfigurou".

Conseguiu linkar em pouco tempo e, musicalmente falando, fazendo coisas que já faz há um tempo: essas misturas. Mesmo sendo um MC vindo do rap, juntou o lado de produtor musical, de melodista.

E fazia tempo que ele não se encontrava assim num projeto. Porque vinha colaborando havia muito tempo com muita gente. Fazia tempo que não se encontrava — ele com ele mesmo — num disco. Do começo ao fim, sem ouvir a voz de outras pessoas. "Explorando várias temáticas. Então eu fiquei feliz de, nessa loucura, nessa antena ligada".

https://www.youtube.com/watch?v=TWe6Sn119qQ&list=PLhFfb7m0YeFLmy0hjBXirdHdVoSKQSKU3&index=2

Elemess e nova fase

Nas Profundezas da Onda é o primeiro disco que Rael lança com a Elemess. Ficou 12 anos em outro escritório (Laboratório Fantasma); era outro ritmo, outro jeito. "Cada escritório, cada lugar tem o seu jeito mesmo. Depende muito de quem tá ali, operacional da coisa, do time que foi montado".

E tá curtindo muito. Tem muita coisa rolando: João Rock, Rock in Rio, lançamentos. "Estamos aí, mano, a todo vapor. Eu acho que tanto eu quanto eles estamos cheios de sede de mostrar o trampo. Que bom. Eu gosto de trabalhar, não tenho preguiça, sou interativo".

Sobre turnê, é muito cedo. É a primeira vez que ele faz dois discos em um ano, então tá na turnê do Onda ainda. O show tá incrível, a formação tá incrível. Não quer mexer nisso. Então vai inserir músicas do Nas Profundezas no Onda e, mais pra frente, ver o que vai fazer. "Eu já tô com idade de fazer outras coisas".

Com 20 e poucos anos fazendo isso, Rael já tá num momento em que aceita a ansiedade do lançamento com mais leveza. Não fica esperando o que vão achar, porque não faz o que esperam que ele faça. Faz o que quer. "Eu vou lançar; quem quiser ouvir, que ouça; quem acolher, que acolha; quem não gostar também, tudo bem. Eu acho que faz parte não gostar de um disco. O cara erra também, acerta; tudo faz parte".

E Nas Profundezas da Onda representa renovação, maturidade. "Significa estar bem comigo mesmo, porque eu me senti realizado em várias questões. Fazia tempo que eu não me encontrava assim num projeto". Do começo ao fim, sozinho, explorando várias temáticas. O Rael da Rima que ficou adormecido por seis anos voltou. E trouxe junto o Rael melodista, o Rael produtor, o Rael que mistura tudo sem medo. "Sou fora de régua e de esquadro, não nasci pra ser quadrado. Minha alma é free".

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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