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Para Kaki King, ser eleita "guitar hero" só a fez ser mais odiada

14 mar 2012 - 07h59
(atualizado às 08h05)
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David Shalom
Direto de São Paulo

Kaki King é uma profissional rara. Franzina, a musicista de 32 anos, com voz de menina e fala acelerada, tem se destacado nos últimos anos por uma qualidade pouco vista no sexo feminino: sua excelência como guitarrista. Para comprovar o fato, basta escrever seu nome no You Tube para centenas de vídeos revelarem a garota exibindo em violões e guitarras exuberantes tappings - técnica que consiste em tocar as casas do braço do instrumento simultaneamente com as duas mãos -, entre outras habilidades que exigiram anos de treinamento para serem aperfeiçoadas. Em 2006, o reconhecimento mundial veio ao ser incluída na lista dos novos "guitar heroes", elaborada pela revista norte-americana Rolling Stone. Detalhe: foi a única mulher da lista.

"Eu fiquei muito agradecida por ter sido escolhida, por ter visto que me consideram uma boa guitarrista, mas, na prática, nada mudou na minha vida", disse King em entrevista exclusiva ao Terra, realizada a uma semana das apresentações que faz em São Paulo nesta quarta (14) e quinta-feira (15), no Sesc Ipiranga. "Na verdade, as pessoas passaram a me odiar ainda mais. É o que sempre acontece quando cem indivíduos desejam algo e outro alguém o conquista".

Se fala com prazer de sua música, a guitarrista demonstrou durante a conversa que sua antipatia pode ser proporcional ao seu talento quando é indagada sobre assuntos mais sensíveis. Homossexual assumida, ela se recusou terminantemente a falar a respeito do tema, chegando a ser até ríspida ao tomar conhecimento de que este seria abordado. O mesmo ocorreu no momento em que foi perguntada sobre a pouca presença de mulheres se destacando como instrumentistas no mercado e se o fato de ser uma delas a teria ajudado a atingir o status conquistado em sua carreira. "Eu nunca fui homem e elas podem fazer o que quiserem", respondeu.

Confira a entrevista na íntegra a seguir:

Terra - Você imaginava voltar ao Brasil após tão pouco tempo, menos de um ano depois de sua primeira passagem pelo País?

Kaki King - É verdade. Parece que foi ontem que estive aí e já estou retornando. Isso me deixa muito empolgada, pois da última vez me diverti muito. Amei a comida de vocês, é incrível! Especialmente um prato, que, se eu não me engano, chama feijoada. Mal posso esperar por essa nova turnê.

Terra - O que o público pode esperar de seus shows? Você concentrará o repertório em seu trabalho mais recente, Junior, ou os fãs terão a oportunidade de ver um apanhado geral de sua carreira?

Kaki - Não haverá nenhuma música nova, isso eu posso dizer, pois ainda as estou escrevendo para meu próximo disco. Como você disse, optarei por trazer ao País uma grande mistura das músicas que gravei ao longo dos anos. Acho que, de novo, só haverá duas guitarras com as quais não toquei na minha última passagem por aí, o que me dará a oportunidade de executar uma coisa ou outra que não executei naquela oportunidade.

Terra - No início de sua carreira, você se concentrou apenas na música instrumental, principalmente na exibição de suas técnicas no violão. Por que você decidiu dar um passo além e passar a também cantar em suas canções?

Kaki - Sabe, a música instrumental é muito boa para passar noções gerais às pessoas, mas, se você quer algo mais específico, se quer falar sobre algo que está sentindo, é necessário usar palavras. Agora, se a vontade é apenas tranferir um sentimento, acho que a música instrumental é perfeita para isso. Vejo-me bem localizada entre os dois gêneros, fazendo canções com minha voz e outras apenas com violões e guitarras. A música foi feita para expressar emoções e acho que essas são duas boas maneiras de tocar as pessoas.

Terra - Essa mudança foi algo planejado?

Kaki - Na verdade, foi exatamente o oposto: o que realmente planejei foi tocar violão instrumental, porque, antes disso, eu já era uma cantora. Então, quando fui fazer meu primeiro disco, eu disse, "ok, vou parar de escrever canções e compor apenas músicas instrumentais para este trabalho".

Terra - O fato de ter começado a cantar em suas canções a aproximou de alguma forma do mercado mais popular?

Kaki - Na verdade, não. Sabe, em meu primeiro disco, Everybody Loves You, todas as músicas tinham mais ou menos uns três, três minutos e meio de duração. No entanto, quando comecei a cantar, passei também a fazer coisas diferentes, mais complexas, levando as canções a ultrapassar a marca dos nove minutos. Na música pop isso não ocorre, as coisas são mais diretas, mais cruas. Não existem composições desse tamanho.

Terra - Na adolescência, você era baterista. Por que decidiu trocar de instrumento?

Kaki - Aconteceram diversos eventos na minha vida que me levaram a chegar a isso. Sabe, eu sempre toquei bateria e pensava que, para estar em uma banda, essa era a melhor opção, pois a pressão era menor. Eu ficava sempre no fundo do palco e não tinha que fazer solos, nem nada do tipo. Entretanto, também toquei violão minha vida inteira, com a diferença de que não o fazia na frente de outras pessoas, fui desenvolvendo minhas técnicas meio que em segredo. Falo sério. Quando o momento certo bateu na minha porta, aquele em que eu finalmente comecei a tocar violão em público, eu já havia me tornado muito melhor do que qualquer um podia imaginar, afinal, por muito tempo isso foi algo que fiz sozinha, em meu próprio mundo privado.

Terra - O mundo da música, principalmente o dos instrumentistas, é dominado por homens. Você teve problemas no início da carreira por causa disso? Ser mulher lhe rendeu desvantagens?

Kaki - Na verdade, não. Ouvi algumas vezes que poderia receber atenção pelo fato de ser mulher, mas acho que o destaque só veio mesmo por eu ser uma boa violonista. Quanto à questão sobre desvantagens, não sei respondê-la. Nunca fui homem, então nunca pensei como um.

Terra - Você sente ausência de mulheres no mundo da música?

Kaki - Bem, elas podem fazer o que quiserem.

Terra - Além de bateria, guitarra e violão, você também tocou baixo. Como o instrumento a ajudou no desenvolvimento de suas técnicas, especialmente do tapping, seu maior trunfo como musicista?

Kaki - Qualquer instrumento que tenha como foco a área rítmica, como baixo e bateria, me ajuda enormemente em minha forma de tocar. Como comecei no violão sozinha, sem acompanhamento de outros músicos, fui tentando descobrir como encher o som ao máximo. Como expliquei, enquanto, na vida pessoal, eu era uma violonista, na social me concentrava na bateria, então pegava as coisas que ouvia - a parte da bateria, do baixo, tudo aquilo que minhas bandas faziam - e tentava passar da forma mais natural possível para o violão. De repente, me sentava e pensava, "como conseguir tocar tudo o que estou ouvindo na minha cabeça sozinha?". O tapping foi essa maneira possível que encontrei de fazer isso. Não foi algo proposital, apenas a forma viável de tocar duas coisas simultaneamente.

Terra - Em 2006, a revista norte-americana Rolling Stone a incluiu em uma lista com os "guitar heroes" da nova geração. Como você recebeu a notícia? Isso fez crescer sua popularidade?

Kaki - Eu fiquei muito agradecida pelo fato de terem visto em mim uma boa guitarrista. No entanto, nada mudou, nada ficou diferente no dia seguinte. Além disso, as pessoas parecem ter passado a me odiar ainda mais. É o que sempre acontece quando cem indivíduos desejam algo e é outro alguém quem o conquista

Terra - Para finalizar, a respeito de sua sexualidade, eu tenho que perguntar...

Kaki - Não, não. Você não tem que perguntar nada.

Terra - Tudo bem. Posso fazer a pergunta antes?

Kaki - Mas eu não tenho que responder.

Terra - Não custa tentar. Você sofreu algum tipo de preconceito pelo fato de ter se assumido homossexual logo no início da carreira?

Kaki- Não.

Terra - Apesar de a sociedade estar mais liberal, casos de violência ainda atingem homossexuais no mundo inteiro. Contudo, mais e mais artistas têm se engajado contra essa realidade. Você já pensou em fazer parte disso?

Kaki - Não. E não falo sobre esse assunto por ser algo pessoal e privado. É isso.

Foto: Divulgação
Fonte: Terra
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