O chumbo, o cromo e a carne: Como os The Rolling Stones chutaram o pedestal em "Foreign Tongues"
Entre falsetes ácidos e guitarras rústicas, octogenários entregam um manifesto de insubordinação analógica contra o século XXI
Aos 82 anos, os Rolling Stones preferiram usar o peso do próprio mito para quebrar a vidraça. Nesta sexta-feira (10), Foreign Tongues chega não como um testamento melancólico, mas como um manifesto de insubordinação estética. Se o elogiado Hackney Diamonds (2023) foi o cartão de visitas que provou que as engrenagens ainda giravam, este novo trabalho é a banda se recusando a limpar a graxa das mãos.
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Musicalmente, o álbum foge da armadilha de tentar mimetizar os anos de ouro. Em vez de decalcar os riffs que os coroaram, a banda costura o calor primitivo do blues de Chicago com a crueza seca de um pop que parece ter sido gravado ao vivo em um galpão abandonado. Há uma urgência na produção que privilegia o erro, o trito das palhetas e o ronco dos amplificadores valvulados. É um disco guiado por guitarras que não duelam, mas conversam em uma linguagem secreta que só Keith Richards e Ronnie Wood dominam depois de tantas décadas dividindo o mesmo ar.
O grande trunfo de Foreign Tongues mora na sua recusa em soar inofensivo. Mick Jagger usa seu fôlego absurdo para morder o calcanhar do presente. Há uma fricção fascinante que move as faixas: o eterno apetite pelo ritmo e a percepção cínica de que o mundo lá fora está ficando cada vez mais estranho e polarizado.
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