'Não posso licenciar a preço de fusquinha', diz filho de Tim Maia sobre gestão da obra do pai
Organizado por Carmelo Maia, o musical biográfico sobre o cantor está em cartaz até 12 de abril, no Rio de Janeiro
Sem a presença do síndico, quem bota ordem na parada é o filho dele. Responsável por administrar o espólio de Tim Maia, Carmelo Maia aposta em mais que nostalgia para manter o legado do pai vivo: o lance é unir estratégia e valorização.
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Em cartaz com a nova versão do musical que conta a trajetória do cantor, o empresário defende o cuidado na hora de liberar uma obra e rejeita propostas que, segundo ele, tentam “licenciar uma Ferrari a preço de fusquinha”.
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Musical sobre Tim Maia reestreou com nova proposta
Quando estreou pela primeira vez, lá em 2012, o musical Tim Maia: Vale Tudo tinha outro ritmo e até outro rosto. O papel principal era ocupado por Tiago Abravanel e existia uma preocupação maior em seguir à risca a biografia homônima que inspirou a montagem, escrita por Nelson Motta.
Na segunda versão, a proposta foi deixar a história do cantor mais dinâmica, com recortes importantes de sua trajetória e momentos de interação com a plateia.
"A diferença desse musical para o outro é que o atual não é um musical biográfico. A gente respeita, sim, a biografia na linha do tempo. Porém, são recortes dos melhores momentos da vida do meu pai. Tem histórias inéditas, o reencontro dele com o Roberto [Carlos], com a Sandra de Sá, o Jorge Ben Jor... O encontro com Cassiano", detalha Carmelo.
A participação do cantor de A Lua E Eu, aliás, era aguardada pelo filho de Tim desde as gravações do longa-metragem estrelado por Babu Santana.
"As pessoas acham que eu 'limei' o Cassiano [do filme]. Não. Na época, pediu uma autorização à altura do tamanho dele, mas a produção não teve condições de arcar, por isso que ele acabou de fora e eu fiquei muito triste com isso. Mas aqui no musical, o Cassiano é retratado", conta.
Escolher os personagens que ajudam a contar a história de Tim Maia é uma tarefa muito mais simples que eleger os melhores momentos de uma carreira com tantos sucessos -- e também polêmicas. Segundo o filho, o critério foi transformar a encenação em um momento de festa, com o guaraná, o suco de caju, a goiabada para sobremesa e tudo que o público tivesse direito.
"Você começa a ver o Sebastião, porque o Sebastião você nunca viu. Sempre se vê o Tim Maia, todo mundo está acostumado. Mas esse lado do Sebastião é o que me emociona demais", garante.
Um dos pontos sensíveis da nova montagem é o encontro do cantor com a mãe, Maria Imaculada, ao retornar de uma temporada nos Estados Unidos.
"Você vê um homem maduro, com uma bagagem muito madura, mas percebe que é uma criança que esqueceu que cresceu. E aquela mãe que trata um homem adulto, gordão, um 'negão', como se fosse um adolescente de 12, 13 anos de idade. Não parece aquele Tim Maia irreverente, doidão, que manda tomar naquele lugar. É um cara carente, dócil, sensível. Um outro contraste, uma outra face", pondera.
Tim Maia quase foi vivido por uma mulher
No lugar de Abravanel, quem dá vida ao tijucano nessa nova montagem é o baiano Thor Junior. Segundo Carmelo, o processo seletivo para encontrar um Tim Maia não foi nada fácil, a ponto dele considerar escolher uma mulher para a missão.
"De 1.500, caíram para 450 e, depois, para 60. Já estávamos em semanas de audições quando uma atriz chamada Aline Cunha, uma negra, gorda, muito simples, chegou e começou a cantar. Quando ela abriu a voz, eu fiquei preocupado. Porque a gente não tinha achado ainda o Tim Maia. Então, num intervalo desse, eu falei: 'Gente, eu estou preocupado, porque o meu pai até agora nada'", relembra.
Foi então que ele considerou chamar a atriz para o papel, mas logo descartou a ideia. "Eu ficava com medo de que todo mundo pensasse que a ideia era uma loucura. Ou de limitar essa atriz que canta absurdamente, tem uma potência vocal extraordinária", argumenta.
Inquieto e com as audições chegando ao fim, Carmelo voltou a ter esperanças quando viu o teste de Thor Junior. O baiano de 37 anos já tinha tentado o mesmo papel na primeira versão, que ficou com Tiago Abravanel.
"Ele chegou no último dia e foi um dos pouquíssimos artistas que não tinha papel na mão. O Thor chegou chegando, não veio com uma folha, com aquela cópia que você tem que olhar para se você não esquece a letra. E aí nós perguntamos: 'Vem cá, o que você vai cantar?' e ele respondia 'Qualquer música do Tim Maia'", detalha.
O jeitão despojado, o físico semelhante ao de Tim Maia e a potência vocal acenderam a luz verde que Carmelo precisava: pronto. Era ele o novo síndico. "Quando acabou o teste, pedimos para que ele ficasse no corredor, do lado de fora. Chamei e falei: 'Pai!'. Ele tomou um susto e me disse: 'Cara, não faz isso comigo. Tem 13 anos que eu tento ser o Tim Maia'", diz.
'Não posso licenciar uma obra a preço de fusquinha'
Tim Maia foi eternizado como o síndico na música W/Brasil (1991), de Jorge Ben Jor. Mas desde que morreu, em 1998, quem bota ordem nesse "condomínio" é Carmelo Maia. O empresário de 51 anos é o único filho registrado do cantor e gerencia seu espólio. Segundo ele, o interesse do público pelo artista mesmo 28 anos após sua partida também é fruto de um trabalho bem feito.
"Há alguns anos, disseram ao Ed Motta: 'O Tim Maia é um gênio'. E ele respondeu: 'Gênios existem aos montes, mas tem muitos gênios que estão esquecidos'. Não basta você ser gênio. Eu aprendi a girar, administrar a máquina e a marca chamada Tim Maia", ressalta.
"Meu pai está muito mais presente do que muito artista vivo. Mas isso é fruto de quê? Da minha manutenção. O Xandão, que é o filho do Chorão, do Charlie Brown Jr., às vezes ele me ligava para saber: 'Carmelo, como é que você administra fazendo isso, como é que você cobra?'", revela.
Quase três décadas após sua morte, Tim Maia movimentou a internet ao aparecer como trilha sonora da edição deste ano do Grammy e até viralizou no TikTok com Acenda o Farol. Para Carmelo, essa é mais uma prova de que a obra do cantor é bem gerenciada por ele.
"As pessoas me conhecem como 'Carmelo não autoriza com facilidade'. Não é isso. Eu preciso precificar o meu pai para que você dê o valor justo. Você vai comprar uma Ferrari? A Ferrari tem valores que agregam para você pagar aqueles milhões de dólares que ela vale. Agora, o que eu não posso é licenciar uma obra, uma campanha publicitária a preço de um fusquinha da década de 1950", argumenta.
"A galera quer pagar muito barato. E aí eu nego mesmo. Não estou passando fome. Valorizo cada vez mais a obra do meu pai", completa.
História de Tim Maia quase foi parar na Broadway
O sucesso e a força do repertório de Tim Maia é de impressionar até mesmo aos gringos. Segundo Carmelo Maia, um musical sobre o cantor esteve perto de ganhar uma montagem internacional, com temporada prevista em Nova York.
As negociações com produtores estrangeiros se arrastaram por cerca de sete anos e incluíam um projeto ambicioso: estrear na Broadway, circular por outros países e, só então, retornar ao Brasil. Em algum ponto da negociação, um dos nomes cogitados para viver o artista era o cantor americano D'Angelo, que faleceu em outubro do ano passado.
Para dar certo, a única exigência era que a versão internacional não conflitasse com o espetáculo em cartaz no país. O acordo, no entanto, esbarrou no mesmo ponto que marca outras decisões do herdeiro: o controle sobre a obra.
"Eles queriam o musical, a discografia toda do meu pai, fazer um filme do meu pai, mas pagando apenas pelo musical. Eu falei: 'Não, espera aí, cada produto é um produto'. Então, paramos as negociações, mas quem sabe no futuro. O Tim Maia é do mundo. Não é meu, é de vocês", afirma.
Carmelo e o pai
O Tim Maia pode ser do mundo, mas só Carmelo pode chamá-lo de pai. Entre negociações, licenciamentos e manutenção de legado, o empresário guarda lembranças familiares com um Tim Maia bem diferente do personagem público.
“Todo mundo está acostumado com o Tim Maia, o cara irreverente, transgressor. Mas o Sebastião era completamente diferente: dócil, sensível, carente, muito afetuoso”, conta.
A relação entre os dois também tinha suas particularidades. Carmelo relembra que o pai era daqueles tradicionais, que exigia que o filho pedisse a benção.
Tímido em alguns aspectos, o cantor evitava até contato direto em certos momentos. “Ele não conseguia me encarar se não fumasse um baseado, sabe? Nunca tive o desprazer de vê-lo fumando, cheirando, no máximo bebendo um whisky", revela. O ritual, como se lembra Carmelo, se tornou quase um momento de cumplicidade entre pai e filho.
"Ele tinha uma senha. Falava: 'Pô, meu filho, faz o seguinte, vai lá embaixo ver as cocotinhas, ou então vai comer um pouquinho, um cordeiro, uma picanha com fritas'. Aí eu já sabia do que ele precisava. Ficava umas 2 horas na praia, sentado, refletindo, comia um cordeiro e subia. Quando eu chegava, era uma mistura de bom ar com maconha, que era o jeitão dele para disfarçar (risos)", relembra.
Além dos "causos" descontraídos, Carmelo também guarda lembranças marcantes, especialmente ligadas ao lado humano do cantor. Uma delas aconteceu durante um passeio, quando Tim Maia decidiu ajudar uma mulher desconhecida.
“Ele viu uma senhora em uma cadeira de rodas completamente destruída. Colocou ela no carro, comprou uma cadeira nova e ainda deu dinheiro. Quando ele viu uma pessoa padecer de um sofrimento tão absurdo, que estava ali no fim de tarde numa cadeira de rodas, vendendo bala, comoveu muito ele. Quando acontecia, ele voltava para casa muito sentido. Se sentia muito impotente por não conseguir curar os sofrimentos das pessoas", conta.
Para o filho, episódios como esse revelam um Sebastião que, mesmo solitário, era sensível ao sofrimento alheio. "A diferença do Tim Maia para o meu pai é que o Tim Maia é o cara irreverente, temperamental, transgressor de regras. O Sebastião, não. Completamente dócil, carente, sensível, fala mansa", recorda.