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Maurício Maestro: 'Quem mais perdeu nessa história fui eu'

Criador do Boca Livre que viu os três parceiros saírem do grupo de mais de 40 anos por terem com ele divergências políticas que se tornaram insustentáveis diz ao 'Estado' que vê a vacina 'com um pé atrás', a compara com o imunizante para a febre amarela, que o deixou com 39,5 de febre, e diz que quer ter o direito a escolher se será ou não vacinado; Zé Renato, um dos ex-integrantes, diz que está 'chocado' com sua insensibilidade

22 jan 2021
17h25
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"Quem mais perdeu nessa história fui eu." A frase é do cantor, contrabaixista e um dos fundadores do quarteto Boca Livre, Maurício Maestro. Ele começou a ficar só há cinco dias, desde que seus três parceiros passaram a anunciar a saída do grupo por divergências políticas e sanitárias. Quem primeiro se manifestou por meio de um post da assessora Memeca Moschkovich, que também deixou os trabalhos ao lado do Boca, foram Zé Renato e Lourenço Baeta. David Tygel anunciou que seguiria no grupo até, um dia depois, também decidir partir. "Abandono esse projeto que criei com tanto carinho. Pensei que persistir seria a arma para não sufocar. Mas, hoje, o País que já está asfixiado precisa se curar primeiro para depois voltar a se amar."

A razão da saída dos três foram as posturas de Maestro, sendo o auge delas sua decisão de não tomar a vacina para se imunizar contra a covid-19. Ao Estadão, ele diz: "Eu fui o cara mais atingido com isso não só pela falta de perspectiva de trabalho, mas também pela série de acusações. Eles que me abandonaram".

Ele diz não ser contra ninguém que queira tomar a vacina anticoronavírus. "Mas quero poder decidir sobre mim mesmo, ter o direito de escolher." Sobre o argumento que se tem colocado acima de questões políticas - o do número de mortes chegando aos 215 mil nesta quinta-feira -, Maestro diz: "Se pesquisar bem, verá que os números relativos de mortes no Brasil são menores do que em outros países". Ainda que sejam, não seriam assustadores? "Eu também me assusto ao andar de ônibus e fazer tantas outras coisas nesse País... Essa é uma questão que está sendo radicalizada para atingir o governo (Bolsonaro)... Muitas pessoas morreram porque não saíram de casa, não tomaram sol, não levaram suas vidas normalmente. Só ficaram em casa e morreram. O que aconteceu com elas? Eu saí, fui fazer show em Belém, tomei sol e estou aqui, vida que segue."

Maestro compara a vacina contra a covid com o imunizante da febre amarela, que ele tomou obrigatoriamente antes de fazer uma viagem. "Eu quase morri, fiquei com uma febre de 39,5 graus. Eu tenho pé atrás mesmo. Quero esperar os resultados para poder escolher." E não pode ter sido graças à vacina da febre amarela o fato de ele não ter contraído a febre amarela, uma doença com letalidade no Brasil que pode chegar a 50% dos infectados? "Fiquei dois dias em viagem, só em locais urbanos. Se pegasse, seria muito azar. E aquela vacina já existia há tempos, testada e comprovada."

Zé Renato também fala com o Estadão. Segundo ele, as posturas de Maestro começaram a incomodá-lo há dois anos, com algumas considerações políticas feitas contra Chico Buarque, um artista alinhado ao PT. "E agora não vamos mais cantar as músicas do Chico?", perguntou Zé, na época. Vieram outras situações parecidas, conta o ex-parceiro, e Zé pensou: "Jamais imaginei que uma pessoa que conheço há 40 anos poderia se alinhar com essas ideias. Um grupo com a liberdade no nome, que fez dois discos independentes em um período difícil para firmar uma posição de independência".

Ele diz que entende agora ter ficado no Boca por tempo demais e que já não gostaria de ter gravado o último álbum, Viola de Bem Querer. "Foi o Lourenço quem me convenceu. Mas, ali, já não tinha mais clima." Há duas semanas, conta, veio um convite para irem a Manaus fazer uma gravação especial em um álbum de um artista amigo. Zé disse que iria depois que fossem vacinados, mas Maestro recusou a condição, iniciando uma discussão e reforçando que ninguém era obrigado a tomar a vacina.

Apesar de estar só, é de Maurício o nome Boca Livre, o único integrante que nunca saiu do grupo desde sua criação, em 1978. Ele diz que não vê clima para decidir se vai se unir a outros cantores sob a marca. "O Boca Livre é algo maior do que cada uma das pessoas que estavam ali. O grupo é uma soma de personalidades e contradições também." Tomar a vacina em nome da reconciliação seria uma possibilidade? "Não, e acho que o problema (dos que saíram) não seria apenas esse." Ele tem razão. Suas posturas declaradas nas redes sociais já criavam discordâncias: "Como aquela pessoa que me chamou para o grupo ficou assim?", diz Zé Renato. "Aquela imagem foi desconstruída para mim." Tomar ou não a vacina não teria se tornado uma questão política? As pessoas que a negam não estariam temendo, na verdade, serem vistas como fracas em seu valente antiesquerdismo? Maestro diz que não mas, um pouco adiante, e em outro contexto, fala em coerência. "Eu sou conservador, católico, sempre tive posturas firmes. O Boca Livre também era, ou ainda é porque os discos ficam: um grupo conservador que manteve sua integridade, um foco de resistência."

Talvez seja o ponto. Em tempos de tantas perdas, não seria essa mais uma em nome de um confronto instalado no País por pessoas que nem sequer assinariam uma nota de pesar se todos eles morressem? Maestro lamenta as perdas dizendo que elas "não podem ser medidas em palavras" e diz: "As vidas perdidas e prejudicadas não são só de artistas conhecidos, mas também de músicos anônimos que ficaram sem lugar para trabalhar. Foi muito triste ver governadores e prefeitos recebendo dinheiro para a saúde e usando de forma indevida, insensível e corrupta". Zé Renato diz que também não sabe se pode se apresentar ao lado dos outros dois, agora, ex-Boca Livre. "Ainda estamos digerindo." Ele diz que a insensibilidade diante da vacinação é algo "chocante". "As pessoas estão morrendo e, quando discordamos desse ponto, a questão não é mais política. Eu não consigo cantar ao lado disso."

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Estadão
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