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Há 50 anos, Elvis Presley dominava palco em show histórico

Três pessoas que prestigiaram o rei do rock na data contam suas lembranças

13 ago 2019
03h11
atualizado às 09h08
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Elvis estava apavorado. Os contratos haviam sido assinados e a plateia estava cheia de celebridades - Cary Grant, Ann-Margret, Sammy Davis Jr. O bilionário Kirk Kerkorian chegara em seu jato particular.

Nos bastidores do Kerkorian International Hotel, em Las Vegas, Elvis Presley disse ao guitarrista James Burton que havia formado a banda de apoio para o retorno do cantor ao palco, que não poderia cantar.

"Ele estava fora dos palcos havia nove anos", diz Burton, hoje com 79 anos. "Ele me disse, 'James, não sei se consigo. Não sei se aguento andar até lá e fazer o show, cara'. Respondi: 'É claro que você consegue. Entre no palco e não preste atenção na plateia. Apenas cante para nós. Faça como se fosse uma jam session no Jungle Room de Graceland'."

Elvis, então com 34 anos, dominaria o palco naquele dia de junho de 1969 e seu show no International marcaria seu retorno, após uma década de filmes terríveis (Feriado no Harem, Com Caipira não se Brinca) e de um eletrizante especial na NBC no fim de 1968.

A Sony está agora lançando um CD do show mostrando Presley numa conjuntura crucial, com a voz poderosa e apresentando estonteantes versões de antigos sucessos ao mesmo tempo que lançava hits como Suspicious Minds e In the Ghetto.

Hoje, 50 anos depois, nós conversamos com três pessoas que estavam lá: Burton, a cantora Darlene Love (He's a Rebel) e o veterano jornalista Robert Christgau. Na sequência, o depoimento das três testemunhas do show e também comentários do autor do texto, em itálico.

Antes, falou-se na tentativa de Elvis trazer de volta o guitarrista Scotty Moore e o baterista D. J. Fontana. Mas Moore tinha seu bem-sucedido estúdio e reclamou que a oferta de US$ 500 por semana era baixa. Elvis então chamou Burton. Nascido na Louisiana, Burton era um adolescente quando tocou com Dale Hawkins o hit 'Susie Q.', em 1957. Depois, foi tocar com Ricky Nelson.

Burton: "Elvis me disse: 'Cara, eu vi você no show de TV Ozzie and Harriet. E eu: 'Você deve estar brincando. O rei do rock me vendo tocar guitarra na TV?'. Ele riu e disse que estava querendo voltar, fazer shows ao vivo. Cansara de fazer filmes e queria voltar ao palco ao vivo com uma banda. Sentia falta de se apresentar ao vivo para os fãs".

A banda que Burton formou incluiria o baterista Ronnie Tutt e o baixista Jerry Scheff, e ficou conhecida como a TCB Band. Entre os sucessos do show estavam as apresentações de Elvis de 'Mistery Train' e 'Tiger Man'.

Burton: "Quando Elvis pulou paraTiger Man, nos pegou meio de surpresa, mas seguimos juntos".

Em 1969, Iron Butterfly, Led Zeppelin, The Who, Rolling Stones e Jimi Hendrix davam as cartas. Em agosto, em meio à temporada de Elvis em Las Vegas, os hippies se concentraram numa fazenda do Estado de Nova York para Woodstock. Kerkorian queria garantir que o retorno de Elvis fosse notícia e mandou para assistir ao show um grupo de críticos de música, incluindo o finado Nat Hentoff, Ellen Willis, da ' New Yorker', e Robert Christgau, do 'Village Voice'. Ainda construindo sua fama, Christgau não era um fã de Elvis, mas ficou impressionado com a volta do rei ao Top 10 em abril, com 'In the Ghetto'.

Christgau:"Foi um hit que abriu caminho num show de consciência e de conscientização política. Sabíamos que Elvis era um intérprete crível da música negra popular do início dos anos 1950. Mas In the Ghetto realmente mudou o tom e mostrou que em seu retorno ele era muito mais aceitável para a turma da contracultura, que era quase toda hostil ao rock".

Darlene Love tinha cantado com Elvis num especial de TV de 1968 com a banda Blossoms. A banda foi convidada para acompanhar Elvis em Las Vegas, mas estava com a agenda cheia. De qualquer moto, Love assistiu ao show da noite de estreia. Elvis subiu ao palco vestindo um macacão negro.

Love: "Ele estava em boa forma, o que lhe permitiu usar aquele macacão colado e mover-se à vontade no palco".

Burton: "A plateia enlouqueceu. Quando Elvis deixou o palco, só se ouviam gritos e palmas".

Love: "Elvis começou sua carreira contorcendo-se no palco e apanhando os lenços e o que mais as mulheres jogassem, e enxugando o rosto com eles. O microfone em suas mãos amplificava os gritos. Foi uma manifestação de todo o público".

Em sua resenha no 'Village Voice', Christgau disse: "Estávamos aplaudindo antes mesmo de entender o que realmente estava acontecendo". Christgau ficou impressionado com as provocações que Elvis fazia entre as músicas, com piadas sarcásticas e autodepreciativas. "Elvis não teve educação formal, mas era muito inteligente. Era sagaz e sabia o que estava acontecendo."

Burton:"Nós o olhávamos como se olha um gavião".

Após o show, Elvis começou uma turnê e voltaria repetidas vezes a Las Vegas. Mas naquela primeira noite, disse Love, "a plateia soube que alguma coisa havia mudado. Elvis estava de volta". E concluiu: "Todos têm seu momento, e aquele foi o momento de Elvis."/ Tradução de Roberto Muniz

Estadão
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