Gee Rocha e a música que esperou seis anos para encontrar a filha
Guitarrista do Bad Luv fala sobre faixa guardada desde 2019 que virou presente de Caio Weber para o nascimento de Nara
Era 1º de janeiro de 2019. Lá para meio-dia, uma hora da tarde, sol quente na praia de Juquehy. Todo mundo na piscina, a namorada por perto, clima de verão, com a ressaca da virada e, de repente, à toa, sem motivo específico, Gee Rocha pegou um violão que estava ali e começou a tocar. A melodia que saiu era gostosa, bonita e combinava com o clima leve da tarde. Ele gostou tanto do que ouviu que decidiu gravar.
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O problema era que ele estava sem equipamentos e interface. Nada além de um computador. Então fez o que dava: ligou o notebook, abriu o gravador, apertou o play e tocou. A gravação ficou longe do ideal, mas a interpretação estava ali, genuína, no momento. Salvou na pastinha.
A música ficou ali, quieta, enquanto a vida seguia. Anos se passaram. Gee voltou para São Paulo e continuou tocando, produzindo e compondo. Aquele relacionamento de Juquehy terminou, outro começou, a mentalidade foi mudando e as prioridades também. E aquela gravação lá, só aguardando o momento. Ele chegou a mostrá-la para Di Ferrero uma vez. Conversaram sobre gravar juntos. Quase rolou. Depois, foi a vez de Zeeba. Mais uma vez, bateu na trave.
Nesse meio tempo, Gee se juntou com Caio Weber, João Bonafé, Murilo Amancio e Vitor Peracetta para formar sua banda nova, Bad Luv, que foi crescendo, ganhando forma, encontrando sua identidade. O primeiro álbum foi gravado e lançado. Poucos meses depois, aconteceram shows e tudo o que "começo de banda" implica aconteceu.
Até que, em 2024, arrumando a mala para vir ao Brasil para mais uma rodada de shows, Gee Rocha descobriu que ia ser pai. "Foi surreal, porque eu não sabia se conseguiria ter filho. Eu achava que não conseguiria e que teria que operar", conta o guitarrista em entrevista à Rolling Stone Brasil. "Foi uma surpresa muito boa".
Com a notícia, os preparativos — e toda a vida do artista — mudaram. Morar em Los Angeles, ter uma agenda complicada e saber que, quando a filha nascesse, seria muito difícil voltar ao Brasil: tudo isso fez Gee repensar o timing. "A Bad Luv já vinha conversando sobre um segundo álbum, mas a ideia era fazer com calma", sem pressa, talvez dali a alguns meses, talvez no ano seguinte. Só que agora a urgência era outra.
Quando chegou ao Brasil, Gee se reuniu com a banda. "Seguinte, galera: eu e minha esposa estamos grávidos. A gente ainda não sabe se é menino ou menina, mas seria ótimo gravar um novo álbum agora, enquanto eu ainda consigo vir. Vamos compor. Se ficar bom, a gente lança. Se não, a gente espera". O plano era fechar tudo em quatro meses: de outubro a fevereiro.
Gee começou a mandar guias para Caio Weber, vocalista e parceiro frequente de composição. Eram várias ideias, esboços e direções possíveis. No meio das demos, sem muito destaque, estava aquela gravação de 2019. Caio pegou a demo e escreveu uma letra. Não avisou, não comentou: só fez. Gravou e mandou por mensagem. Quando Gee apertou o play e ouviu, ficou em silêncio. Depois, chorou.
"Eu fiquei emocionado e falei: 'Mano, essa música é pra minha filha'", principalmente por causa do refrão: "Eu ainda nem sei o seu nome/ Mas daqui em diante / Você é o meu norte". E era exatamente aquilo.
"Achei isso tão bonitinho, porque eu realmente não sabia o nome dela ou dele. Mas, a partir do momento em que a gente soube da gravidez, minha cabeça explodiu. Eu pensei: 'Agora eu preciso organizar minha vida para essa bebezinha que está vindo'".
A música começou a ganhar corpo. Arranjos, produção, camadas. E Gee insistia em um detalhe: o violão original, gravado no microfone do computador em 2019, precisava ficar. Tentaram regravar em estúdio, com equipamento de verdade, mas não funcionava. "A interpretação era tão genuína e estava tão gostoso que tentar replicar não dava. Aquele violão era a textura da música, o cheiro dela". O violão de Juqueí ficou.
Além disso, Camila Cat, esposa de Gee e mãe da bebê, também entrou na faixa: "Agora já sei o seu nome, você é meu norte". Gravada depois de descobrirem o sexo da filha e decidirem o nome: Nara. "A gente teve a ideia rápida: 'E se a gente colocar a voz da Katy na música?' O Caião pirou na hora. E fica registrado para o resto da vida", conta Gee.
A Bad Luv nunca tinha feito um som assim — mais lo-fi, tranquilo, quase acústico —, mas aceitou justamente por isso. Pela verdade que a música carregava. "Às vezes, a música tem esse poder, né? Ela surpreende a banda. A gente não tem nenhuma música calma, mas tem uma música aqui que é muito especial", reflete Gee. E a banda sempre foi sobre histórias verdadeiras. "Tradução De Saudade", do primeiro álbum, nasceu de uma história do baterista Vitor Peracetta com uma amiga que faleceu. O segundo disco que está vindo tem uma música sobre o pai de Gee, que morreu quando ele tinha dois anos. A banda prefere a verdade, e "Sonho Bom", nome da faixa em questão, era a verdade mais crua possível.
Nara nasceu cinco dias antes da entrevista para a Rolling Stone Brasil. E agora, ele fala sobre a filha com aquela mistura de cansaço e encantamento que só quem virou pai recentemente conhece. Nara ouviu a música muitas vezes na barriga, porque Gee produzia direto em casa. Agora, ele quer filmar a primeira vez que ela vai ouvir fora da barriga, quando entender de verdade o que aquilo significa. "Estou louco para quando ela ouvir, quando ela entender. Acho que ela vai ter um álbum para ela. Essa é a primeira música."
"Sonho Bom" é o primeiro single do segundo álbum da Bad Luv, que já está gravado e sendo mixado. São nove músicas que mantêm a característica do grupo: pop e pesado, linguagem street e underground, com um pé no mainstream. As letras abordam dificuldades de se manter emocionalmente diante do que se vive. Tem música com ar "new music". Tem duas muito pesadas, hardcore. A primeira faixa é "muito porrada e tem muito a cara do novo Bad Luv", segundo Gee.
A canção sai dia 23 de abril. O álbum completo vem ainda em 2026. E, enquanto isso, Gee Rocha vive os primeiros dias de pai, aprendendo a dar valor à vida de um jeito novo, cuidando da família, reorganizando prioridades. Aos 40 anos, se pergunta se vai ser velho demais para acompanhar a filha crescer, mas sabe que o que importa é estar bem, cuidar de si, estar presente. E aquela música de 2019, gravada num microfone de computador numa casa de praia, finalmente encontrou seu lugar.
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