Festival de Campos na Sala São Paulo: 10 concertos imperdíveis com entrada gratuita
Entre os destaques, estão Eliane Coelho, a grande dama do canto lírico brasileiro, a jovem maestrina mexicana Alondra de la Parra e Quarteto Brodsky; veja a seleção feita pelo 'Estadão'
O Festival de Inverno de Campos do Jordão 2023 será aberto na noite deste sábado, 1º, no Auditório Claudio Santoro, com um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Ao todo, serão mais de 60 apresentações, todas gratuitas.
Toda a parte pedagógica do festival, que nos últimos anos tem sido realizada em São Paulo, quase voltou este ano para a cidade na Serra da Mantiqueira, mas de última hora ficou mesmo na capital: em Campos, serão realizados apenas concertos de artistas e grupos convidados. Mas alguns deles também vão se apresentar na Sala São Paulo.
A programação tem presenças de destaque, como a da soprano Eliane Coelho ou do Quarteto Brodsky, assim como a visita de grupos de outras cidades do País, permitindo contato com aquilo que vem sendo produzido Brasil afora.
A entrada é franca e os ingressos podem ser obtidos no site a partir de cinco dias antes de cada concerto
A música russa é protagonista, com peças de Igor Stravinsky, Dimitri Shostakovich e Sergei Rachmaninov.
O Estadão preparou uma seleção de dez concertos que vão acontecer na capital paulista - e valem a visita à Sala São Paulo.
Eliane Coelho e Gustavo Carvalho (6/7)
Eliane Coelho é a grande dama do canto lírico brasileiro. E as mesmas técnica, musicalidade e expressão que marcam sua atuação no palco da ópera estão presentes em seu trabalho com a música de câmara. Em especial no duo que forma há alguns anos com o pianista Gustavo Carvalho. Os dois já visitaram repertórios dos mais distintos, e farão no dia 6, às 19h, recital dedicado a canções do compositor russo Sergei Rachmaninov, de quem se lembram os 150 anos de nascimento em 2023. Intimismo criado pela relação sutil entre palavra e música, por dois mestres.
Wagner e Shostakovich (9/7)
A soprano também vai participar do primeiro programa que a Orquestra do Festival, formada por alunos, vai apresentar nesta edição. Será no dia 9, às 11 horas, e, desta vez, com ópera. Mais precisamente o Prelúdio e a Morte de Amor de Isolda, da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner. É um dos pontos altos do gênero lírico do século 19, uma partitura exigente para solista, maestro e músicos. O repertório da apresentação, que será regida por Henrik Schaefer, tem ainda a Sinfonia nº 10, do russo Dmitri Shostakovich. A peça é inspirada nos anos de Josef Stalin à frente da União Soviética. Não por acaso carrega enorme dramaticidade: seu movimento final, que vai da angústia mais carregada a um final que parece celebrar o fim de um regime de violência, segue como uma das páginas mais fortes da música do século 20.
Quarteto Brodsky (a partir de 18/7)
A crítica norte-americana Wendy Lesser, escrevendo sobre o Quarteto nº 11, de Shostakovich, afirma que a peça "é como as ruínas de uma casa um dia alegre, um memorial em decomposição da felicidade perdida". É uma imagem forte, como são fortes os quinze quartetos de cordas escritos pelo compositor, que serão apresentados na programação do festival em São Paulo (a partir do dia 18, às 19 horas) e em Campos do Jordão (para assistir todas as peças, será preciso pegar a estrada: cada cidade ficou com uma parte das obras). Mas a viagem pode bem valer a pena: a interpretação estará a cargo do Quarteto Brodsky, cuja gravação do ciclo, lançada em 2016, segue como referência.
Alondra de la Parra (27 e 28/7)
Shostakovich também estará presente no concerto que a Osesp faz nos dias 27 e 28 em São Paulo (às 20h30) e no dia 29 em Campos do Jordão. O grupo será comandado pela maestrina mexicana Alondra de la Parra, de 42 anos, e vai apresentar, do compositor, o Concerto para violoncelo nº 1. É uma das peças mais difíceis já escritas para o instrumento, e as apresentações servirão como uma espécie de cartão de visita para o jovem violoncelista americano de família brasileira Gabriel Martins. A apresentação marca a volta de Alondra de la Parra ao Brasil depois de quase uma década. E ela rege também a Sinfonia nº 1 de Arturo Márquez - um vídeo em que interpreta outra peça do autor mexicano, Danzon nº 2, viralizou anos atrás, com mais de cinco milhões de visualizações (veja aqui). Outro, veja aqui, supera os 21 milhões. Para o mundo da música clássica, é muito.
Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (8/7)
O maestro Fabio Mechetti traz a São Paulo os músicos da filarmônica, que completa em 2023 quinze anos de atividades. Parece pouco tempo, mas já foi o suficiente para o grupo se colocar como projeto de referência no cenário latino-americano. O programa, no dia 8, às 20h30, tem como destaque a Sinfonia nº 3 de Rachmaninov. O autor é um dos pilares da temporada atual da orquestra, que está celebrando o compositor com ciclos completos dos concertos para piano e das sinfonias. Entre elas, a segunda talvez seja a mais conhecida, e a que mais tenha caído no gosto do público. Mas a Sinfonia nº 3 reserva momentos interessantes, em uma linguagem muito mais econômica do que suas duas predecessoras. Já valeria a ida à Sala São Paulo, mas a apresentação também tem o Concerto para violoncelo nº 1 de Saint-Saëns, com Viktor Uzur.
Orquestra Filarmônica de Goiás (16/7)
A passagem por São Paulo é uma boa oportunidade de conhecer o grupo goiano, dirigido pelo maestro inglês Neil Thomson. O projeto tem realizado um trabalho fundamental de divulgação da música brasileira. E está em meio à gravação das sinfonias de Claudio Santoro, de quem vão tocar na Sala São Paulo, no dia 16, às 18 horas, o Concerto para violoncelo e orquestra. O resgate ainda em curso da obra de Santoro, compositor que dialogou de maneira muito viva com diferentes correntes artísticas e políticas do século 20, fez da orquestra personagem importante no cenário musical brasileiro. E o concerto em São Paulo tem um atrativo extra: a presença, como solista, da jovem violoncelista brasileira Marina Martins, hoje estudando na Europa, representante da nova geração de talentos do país. A apresentação terá ainda obras de Edino Krieger, Camargo Guarnieri e Radamés Gnatalli.
Hélices, buzinas e campainhas (23/7)
O Grupo de Percussão do Festival vai apresentar no dia 23, às 11 horas, duas peças escritas na década de 1920, símbolos de um sentido de experimentação ainda hoje repleto de vitalidade. A primeira delas é Les Noces, ou As Bodas, de Igor Stravinsky; a segunda, Ballet Mecánique, de Georg Antheil, é a partitura mais conhecida do autor, seja pela associação ao filme mudo de mesmo nome do cineasta Fernand Léger, seja pelos instrumentos que exige: além de quatro pianos, uma ampla percussão, da qual fazem parte campainhas eletrônicas, buzinas de carro e até hélices. O concerto será regido por Ricardo Bologna e também é oportunidade de testemunhar a versatilidade do trabalho dos artistas do Coral Paulistano, comandado pela maestrina Maíra Ferreira.
A sinfonia de Tár (29/7)
O segundo e último programa da Orquestra do Festival, no dia 29, às 16h30, tem como destaque a Sinfonia nº 5 de Mahler - a mesma que perpassa a trajetória de sucesso e decadência da maestrina Lydia Tár, interpretada no cinema por Cate Blanchett. A regência aqui será da indonésia Rebecca Tong, vencedora, em 2020, da primeira edição do concurso La Maestra, realizado na França.
Não é apenas no filme de Todd Fields que a Quinta de Mahler marca presença, tendo sido usada décadas antes por Lucchino Visconti em Morte em Veneza. Seu Adagietto é provavelmente a peça mais conhecida do compositor, uma declaração de amor e angústia a sua amada Alma. A peça será antecedida por Eu Engulo Nuvens, do jovem brasileiro Rafael Arcaro, que vive na Inglaterra, onde participou de um programa para compositores da Filarmônica de Londres.
Camerata Antiqua (29/7)
O Festival de Campos tem realizado ao longo dos anos um panorama informal da vida orquestral brasileira, trazendo para São Paulo conjuntos de diferentes estados do país. Nesta edição, além das orquestras de Goiás e Minas Gerais, a programação inclui a presença da Camerata Antiqua de Curitiba. A camerata vai completar 50 anos em 2024 - e foi, em sua história, pioneira no trabalho de resgate e interpretação da música antiga. Apesar da diversidade de seu repertório, a música do século 18 continua como sua especialidade. E em São Paulo, no dia 29, às 20h30, o grupo apresenta o oratório Joshua, de Händel. A obra narra a história de protegido de Moisés, que com ele liderou o êxodo do povo judeu do Egito e mais tarde assumiu seu lugar. A regência é de Ricardo Kanji, ele também especialista na pesquisa histórica de repertório.
Variações Goldberg (4/7)
A música antiga, depois de muito tempo, é hoje presença regular na programação do festival - há até um grupo formado por alunos para interpretar esse repertório especificamente, liderado pelo maestro e violinista Luis Otávio Santos (nesta edição, no entanto, eles tocam apenas em Campos do Jordão). Mas, além do concerto da Camerata Antiqua, o público terá a chance de ouvir as Variações Goldberg, de Bach. É uma peça de proporções gigantescas, quase uma hora e meia de música que está entre as mais interessantes escritas pelo compositor (e elas não são poucas). E será apresentada no dia 4, às 19 horas, pelo pianista americano criado no Brasil Max Barros.
Serviço - Festival de Campos do Jordão em São Paulo
- Sala São Paulo: Praça Júlio Prestes, 16, Térreo, Campos Elíseos, São Paulo, SP. Tel. (11) 3367-9500. 1.484 lugares. Gratuito. Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 18h.
- Ingressos: A entrada é franca e os ingressos podem ser obtidos no site a partir de cinco dias antes de cada concerto