Estudo sugere que a música ocidental atingiu o pico de complexidade nos anos 1960 e vem se simplificando desde então
Pesquisadores italianos analisaram mais de 20 mil peças, compostas entre 1600 e 2021, e observaram que até jazz e música clássica perderam sofisticação harmônica e melódica
Cientistas de dados italianos publicaram na revista Scientific Reports um estudo que dá respaldo matemático a uma percepção comum entre músicos experientes: a música ocidental estaria ficando mais simples. A pesquisa, liderada por Niccolò DiMarco, da Universidade da Tuscia, analisou cerca de 20 mil arquivos MIDI de obras compostas entre os séculos XVII e XXI, de Bach a artistas contemporâneos disponíveis no Spotify, e identificou uma tendência consistente de redução da complexidade melódica e harmônica ao longo das décadas.
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Para medir essa complexidade, DiMarco tratou cada música como uma rede de notas interligadas pelos intervalos entre elas. A partir daí, propôs métricas que estimam, entre outros aspectos, o quanto cada nota se conecta às demais dentro da composição — o que o autor chama de "eficiência". Quanto maior a variedade de conexões, maior seria a complexidade. Os resultados indicam que o auge da sofisticação da música ocidental ocorreu por volta dos anos 1960, seguido de um declínio contínuo. O dado mais surpreendente é que essa queda não teria poupado nem o jazz nem a música clássica, gêneros historicamente associados à elaboração harmônica. Ambos apresentariam hoje padrões estruturais cada vez mais próximos dos de gêneros considerados mais simples.
A conclusão também enfraquece um argumento recorrente: o de que a simplicidade da música contemporânea seria culpa do hip hop, da música eletrônica ou do pop massificado. O estudo sugere que a simplificação é um fenômeno mais amplo, que atravessa diversas tradições musicais ocidentais. Para José Fornari, professor da Unicamp e especialista em cognição musical, a aceleração da indústria cultural tem relação direta com esse processo. "Com o excesso de informação em que vivemos imersos, muitos ouvintes tendem a preferir músicas simples, com mensagens diretas. Como atualmente a maioria das pessoas escuta música realizando outras tarefas, a música mais simples é mais palatável para a maioria", explica em entrevista ao O Globo.
Nem todos os pesquisadores, porém, aceitam as conclusões sem ressalvas. Ainda na mesma reportagem, Hugo Carvalho, coordenador do Grupo de Pesquisa em Música e Matemática da UFRJ, aponta limitações importantes: o estudo classifica toda a música ocidental em apenas seis macro-gêneros, deixando de fora tradições como a MPB e grande parte da música latino-americana. Além disso, a métrica de complexidade considera apenas transições melódicas — e ignora o ritmo, dimensão fundamental em gêneros como o jazz contemporâneo. O próprio DiMarco reconhece essas limitações e afirma que pretende abordá-las em pesquisas futuras.
O pesquisador faz questão de sublinhar que complexidade não é sinônimo de qualidade, e que simplicidade não é necessariamente um problema. "Bach e Mozart criavam música para um conjunto pequeno de pessoas que se interessavam naquilo. Hoje, a paisagem musical é totalmente diferente", argumenta. Para DiMarco, o espaço para ousadia harmônica sempre existirá. O que pode estar se estreitando é a representação desse espaço nas plataformas de streaming e no rádio, onde a lógica da acessibilidade e do amplo alcance tende a favorecer o que é imediato em detrimento do que é complexo.
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