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A turnê 'Lux' de Rosalía é um espetáculo que só ela conseguiria realizar

A visionária espanhola iniciou uma temporada de duas noites no Madison Square Garden, encenando um show que era parte ópera, parte balé, parte extravagância pop — e totalmente dela

17 jun 2026 - 17h41
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Quando Rosalía lançou seu álbum Lux no ano passado, uma das melhores partes de ouvi-lo pela primeira vez foi descobrir o mundo barroco e espiritualmente divino que ela havia criado e deixar que ele se desdobrasse como um livro mágico e móvel. Mas ouvi-lo é uma coisa; ter uma visão completa da imaginação expansiva e ambiciosa por trás do disco é outra — e é exatamente isso que acontece quando você vê Rosalía interpretar essas músicas ao vivo.

Rosalía
Rosalía
Foto: Kevin Winter/Getty Images para Latin Recording Academy / Rolling Stone Brasil

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Na terça, a radical e mutável visionária espanhola levou o álbum ao Madison Square Garden em toda a sua grandiosidade, montando um show esmagadoramente bonito, intensamente artístico e, de alguma forma, também eletrizante, divertido e cheio de fantasia. A apresentação fazia parte de uma temporada de duas noites na arena de 19 mil pessoas — ambos os shows foram adiados duas vezes por causa da campanha dos Knicks nas finais da NBA — e os fãs chegaram esperando uma experiência religiosa, vestidos de brancos celestiais, com muitos halos e tiaras e, ocasionalmente, um robe. Mas, no segundo em que a Heritage Orchestra entrou no palco, ficou claro que aquilo não seria um culto comum de domingo: o conjunto do Reino Unido que tem servido como banda de apoio de Rosalía nesta turnê caminhou até o fosso enquanto "Angel", de Jimi Hendrix, ecoava pelos alto-falantes.

Alguns acordes crescentes sinalizaram o início do show, enquanto integrantes da equipe, vestidos de preto, circulavam pelo palco, organizando os elementos de cena. Eles empurraram uma enorme caixa branca para o centro e, lentamente, abaixaram cada lado, revelando Rosalía lá dentro, usando um tutu branco e sapatilhas de ponta, como uma bailarina de caixinha de joias, enquanto a plateia rugia. Esses primeiros passos deram início a duas horas de coreografia e encenação de tirar o fôlego, fruto do trabalho dela com Dimitris Papaioannou, que também dirigiu a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2004. A voz de Rosalía encheu a arena com as linhas em cascata de "Sexo, Violencia y Llantas", a marcante faixa de abertura do álbum, que rapidamente estabeleceu o tom para a experiência teatral que viria.

A apresentação é dividida em quatro partes e, especialmente, os dois primeiros atos emendam um momento avassalador atrás do outro. Muitas das orquestrações mais grandiosas do show — e talvez algumas das acrobacias vocais mais insanas que já ouvimos de Rosalía — acontecem aqui: há beleza e leveza em "Reliquia", e misticismo profundo e uma sensação de dissolução do ego em "Divinize". O drama operístico impressionante de "Mio Cristo Piange Diamanti" é um testemunho realmente impactante do poder vocal treinado em conservatório e de como ela é excepcional como intérprete, enquanto a mistura estrondosa de cantos de coro e explosões eletrônicas em "Berghain" adiciona escuridão e arestas, antes de as(os) dançarinas(os) dispararem em movimentos frenéticos que elevam o volume ao máximo.

Se você acompanha Rosalía há muito tempo, sabe que isso é um salto em relação à modernidade cinética da turnê de El Mal Querer e ao cinema cru e minimalista da fase Motomami. A coreografia é uma grande mudança: o balé que ela faz ao longo dessa seção recebeu críticas nas redes sociais de bailarinas profissionais que dizem ficar mortificadas com sua forma e aterrorizadas com os tornozelos dela — mas o ponto maior é a construção de mundo que Rosalía faz no palco, em tempo real. Ela está criando uma experiência opulenta, de outro tempo, homenageando formas de arte altamente disciplinadas e mostrando o compromisso e o rigor que a trouxeram até aqui.

Mas talvez o elemento mais surpreendente seja o quanto de alegria e brincadeira Rosalía leva ao palco. Sob certa lente, Lux pode soar como um projeto pedante e até pretensioso, com suas dúzias de idiomas e referências a santos espirituais e textos divinos. Ainda assim, a experiência ao vivo suaviza as arestas, acrescentando respingos de pop, sensualidade e travessura a um set profundamente transformador — e é um equilíbrio que poucos artistas conseguem alcançar tão bem quanto Rosalía, que parecia eufórica por estar em Nova York. "Eu lembro do primeiro show que fiz aqui: tinha, tipo… sem exagero, 20 pessoas", disse, recordando a primeira vez que tocou na cidade. "E hoje à noite eu tô tocando no Madison Square Garden!" Para fãs dos lados mais animados de sua discografia, houve também versões retrabalhadas de sucessos como "Saoko" e "Despecha". Parte da emoção foi ver a rapidez com que ela entregava momentos de beleza capazes de arrancar lágrimas num segundo e, no seguinte, soltava uma piscadela de Betty Boop.

Um toque de exagero teatral apareceu na tradição dela de levar uma celebridade amiga ao palco para uma confissão reveladora. Rosalía já recebeu de Lola Young a Bad Gyal e fez com que contassem histórias provocativas de desventuras em sexo e romance. Na terça, ela chocou todo mundo ao trazer Maggie Rogers. A cantora e compositora contou uma história realmente insana sobre um encontro com um jornalista do New York Times que, segundo ela, a levou para a sala de reuniões do escritório dele para se beijarem à 1h da manhã — só para ela descobrir depois que ele tinha namorada. Dispensa-se as afirmações das artistas de que jornalistas "inventam coisas" e de que não dá para confiar neles (a liberdade de imprensa está mais ameaçada do que nunca, gente, por favor), mas a confissão de Rogers é, de longe, a mais suculenta da turnê até agora. E isso preparou o terreno para "La Perla", uma repreensão mordaz a um chauvinista, feita em tempo de valsa, com uma coreografia atrevida de cabaré ao estilo Crazy Horse Paris para complementar a insolência da música.

Mas o melhor exemplo da capacidade de Rosalía de conciliar ambição, técnica e leveza talvez tenha sido "Foc'Rainni", a faixa de encerramento antes do encore. Na versão estendida do álbum, esta é uma das músicas mais devastadoras, evocando um coração partido, um noivado fracassado e uma história de amor que nunca foi. E, mesmo com toda a tristeza, há tanta entrega despreocupada na performance ao vivo: Rosalía corre pelo palco com suas bailarinas, cantando em alto volume versos sobre a própria independência: "Eu serei minha/E da minha liberdade". Você está com Rosalía quando ela termina o show se jogando do palco, pronta para onde a vida a levar em seguida. Ela voltou para "Magnolias", uma elegia delicada que reconstrói a morte como uma despedida serena, e cantou sobre partir deste mundo para transcender de volta às estrelas. A essa altura, ela já tinha nos deixado tanta coisa, e o público estava, de fato, um pouco transformado.

Setlist da turnê Lux de Rosalía

ABERTURA

"Overture"

ATO 1

"Sexo, Violencia y Llantas"

"Porcelana"

"Divinize"

"Mio Cristo Piange Diamante"

ATO 2

"Berghain"

"SAOKO"

"LA FAMA"

"LA COMBI VERSACE"

"De Madrugá"

ATO 3

"El Redentor"

"Can't Take My Eyes Off You" / "Confessional Engagement"

"La Perla"

"Sauvignon Blanc"

"La Yugular"

INTERMEZZO

"Dios Es Un Stalker"

"Rumba del Perdón"

"CUUUUuuuuuute"

ATO 4

"BIZCOCHITO"

"DESPECHÁ"

"Focu? Ranni"

ENCORE

"Magnolias"

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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