Elton John faz show "certinho" e fãs reclamam: "é para ver em pé"
Às 20h desta quarta-feira, fazia 22º C e caía uma leve garoa em São Paulo. Dentro e fora do Jockey Club, onde em meia hora começaria o primeiro show da turnê brasileira de Elton John, vendedores ambulantes vendiam refrigerante por R$ 5, cerveja por R$ 8 e capas de chuva por R$ 15. “Não, peraí, eu quero só uma capa”, brincou um fã do cantor britânico ao perguntar o preço do acessório a um vendedor. “Quinze reais tá barato, daqui a pouco vai começar a chover forte”, garantiu o ambulante. Por via das dúvidas, o fã levou uma cerveja e uma capa.
Realmente tudo indicava que a garoa se transformaria em chuva de verdade: o vento frio, o céu acinzentado e a enorme quantidade de fãs usando capas. Mas, enquanto todos se acomodavam nas 15 mil cadeiras dispostas no Jockey, o cenário foi mudando. Às 20h32, quando o cantor começou o show com The Bitch is Back e provou que sim, a pontualidade britânica é coisa séria, o céu já estava limpo e não havia mais sinais de garoa.
Apesar do som, baixo nos setores mais distantes do palco, Elton Jonh empolgou logo no início, sentando no piano e fazendo com que grande parte do público levantasse, aplaudindo muito o músico. Vestindo camisa e óculos azuis e um terno brilhante, ele emendou com Bennie and the Jets, antes de interagir com os fãs pela primeira vez: “boa noite, São Paulo! Estou feliz em estar de volta a esse lindo país, fantástico!”. Veio então Grey Seal.
Nesse momento, já estavam todos sentados novamente, mas os comentários mostravam a diversidade de público presente no espetáculo, que ganhou o nome de 40th Anniversary of The Rocket Man (em homenagem à lendária canção). Enquanto uns reclamavam de ter de assistir ao show sentados, outros manifestavam impaciência com quem insistia em falar durante a apresentação. “Que povo de quinta esse falando no meio do show”, reclamou um casal.
Depois veio Levon, em que ele tocou piano de pé e foi muito aplaudido. Elton passou por Tiny Dancer e, antes de Believe, fez questão de dizer que essa era uma de suas músicas preferidas. “É sobre amor, que é tudo em que acredito”, justificou. Parte do publico concorda. "O show me trouxe grandes recordações da minha juventude. O Elton John embalou minha época de namoro, de paqueras", comemorava a professora Maria da Conceição Vergueiro.
Na vez da dançante Philadelphia Freedom, ficou evidente a indignação dos fãs com o formato “teatro a céu aberto” escolhido para a turnê. “Nessa tem que levantar, como vai ficar sentado com uma música animada dessas? Não me conformo! É até um desrespeito com o artista”, proferiu uma fã mais exaltada.
O modelo do show de ontem no Jockey Club um formato ainda quase inédito no Brasil. Apesar de ocorrer em uma grande arena, apenas 15 mil ingressos, todos para setores com cadeira, foram colocados à venda. "O lugar não deveria ter nem cadeiras. Ou, se tiver cadeiras, deveria ser permitido levantar", opinou o analistas de sistemas Victor Pires. "Esse show é pra ver em pé mesmo", completou sua acompanhante Maria Eugênia Souto.
Logo após Candle in the Wind, Elton encantou o público com Goodbye Yellow Brick Road. Nesse momento, em uma espécie de flashmob, uma manifestação improvisada pelo próprio público, surgiram balões amarelos no setor localizado bem à frente do palco. Victor Antonelli, 18 anos, e Carolinne Golfeto, 16, ambos estudantes, lamentavam a distância. "A gente queria ter ido mais na frente. Só que não deu."
Logo depois veio Rocket Man, ponto alto da primeira metade do show e aniversariante da turnê que celebra os 40 anos da cançã. Com um virtuoso solo de piano do astro da noite. O público novamente levantou e aplaudiu muito. Elton foi até o meio do palco e fez um sinal de agradecimento, ao que uma ou outra fã mais empolgada respondeu gritando “lindoooo”.
O hit dos anos 1980 I Guess That's Why They Call It the Blues, do álbum Too Low for Zero, destacou o excelente grupo de backing vocals e precedeu Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding, que recebeu um prelúdio sombrio, marcado pela escuridão do palco e por ecos dos sons do vento e de uivos. Na sequência, Honky Cat e Sad Songs (Say So Much) arrancaram aplausos dos fãs.
A partir daí, Elton John emendou um sucesso no outro. Ele passou por Daniel, Sorry Seems to Be the Hardest Word e Skyline Pigeon até que chegou em Don't Let the Sun Go Down on Me. Foi curiosamente nesse momento que, quando já ninguém mais esperava, a chuva voltou com uma certa força, fazendo valer a pena os R$ 15 investidos em cada capa.
Por fim, veio a trinca bombástica I'm Still Standing, Crocodile Rock e Saturday Night's Alright for Fighting. Já na primeira o público desistiu da história de ficar sentado e levantou para não voltar mais às cadeiras - o próprio cantor fez gestos para que todos ficassem em pé. Na segunda, mais uma manifestação afetuosa dos fãs, que, não contentes em entoar com força o “lalala” do refrão, levantaram plaquinhas com a sílaba LA. Na última, Elton puxou as palmas, rapidamente seguido pelo público.
Ele, então, saiu do palco. Mas nem precisou de muitos gritos e aplausos para voltar para o bis. “Tá com pique, o velhinho”, chegou a comentar uma fã, diante do retorno tão rápido. “Obrigado por serem tão gentis, tão generosos, em todas as vezes que vim ao país de vocês. Desejo a vocês amor e felicidade”, disse ele antes de dar voz a Your Song para finalizar um show de 2h15 feito sob medida para os fãs - mas sem grandes surpresas, é verdade.
Na saída, ouvia-se muitos elogios ao cantor. Depois da apresentação no Rock in Rio de 2011, em que o britânico ocupou um “buraco” entre os shows de Katy Perry e Rihanna, parece que ele finalmente reencontrou seu público. Alguns reclamavam apenas de terem sido obrigados a ficar sentados em grande parte do espetáculo. “É um show para ver em pé”, comentava-se.
Depois da loucura, do sexo desenfreado e das drogas dos anos 70 e 80, Elton John casou com David Furnish, teve dois filhos - gestados em barrigas de aluguel - e, aos 65 anos, parece estar querendo shows mais tranquilos. Mas, ao que tudo indica, seus fãs ainda querem pular ao som de seus maiores sucessos. E por mais tempo. "A unica coisa ruim é que foi muito rápido. Pra quem é fã sempre vai ser muito rápido. Se eu pudesse eu ficaria noites e noites ouvindo Elton John", prometia a estudantes Sophia Vergueiro, 18 anos.
No Brasil, Elton John ainda se apresentará em Porto Alegre, em 5 de março, no estádio Zequinha; em Brasília, em 8 de março, no Centro Internacional de Convenções; em Belo Horizonte, em 9 de março, no Mineirão; e no Recife, em 10 de março, no Chevrolet Hall.
Confira o setlist completo do show em São Paulo:
The Bitch Is Back
Bennie and the Jets
Grey Seal
Levon
Tiny Dancer
Believe
Mona Lisas and Mad Hatters
Philadelphia Freedom
Candle in the Wind
Goodbye Yellow Brick Road
Rocket Man (I Think It's Going to Be a Long, Long Time)
Hey Ahab
I Guess That's Why They Call It the Blues
Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding
Honky Cat
Sad Songs (Say So Much)
Daniel
Sorry Seems to Be the Hardest Word
Skyline Pigeon
Don't Let the Sun Go Down on Me
I'm Still Standing
Crocodile Rock
Saturday Night's Alright for Fighting
Your Song