Script = https://s1.trrsf.com/update-1779108912/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

'Dangerous Woman' colocou o futuro do pop nas mãos de Ariana Grande

O terceiro álbum de estúdio da cantora, lançado há 10 anos hoje, moldou sua evolução como uma das maiores vozes do pop

21 mai 2026 - 08h45
Compartilhar
Exibir comentários

Ariana Grande jamais poderia ter se tornado o tipo de estrela pop definidora de eras que conhecemos hoje se tivesse sido tímida ou preciosista com os próprios sentimentos. Esta é a artista que cantou com sinceridade "This situationship has to end", em Eternal Sunshine (2024), enquanto abordava o fim do seu casamento. É a mesma que soltou casualmente o verso "Look at you, boy, I invented you", em Thank U, Next (2019), que ela gravou depois de desfazer um noivado com alguém cujo nome virou título de música em Sweetener (2018). A mesma que lançou Positions (2020).

Foto: Dominik Bindl/Getty Images / Rolling Stone Brasil

🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @centralsonora.

Grande não poderia ter feito esses álbuns sem antes criar Dangerous Woman. Dez anos depois de seu lançamento, o terceiro álbum de estúdio da cantora é fundamental para sua evolução como uma das maiores vozes do pop, tanto figurativa quanto literalmente — "Greedy" pode ser a música mais alta que ela já fez. Mas, acima de tudo, Dangerous Woman foi decisivo para estabelecer os tipos de histórias que Grande poderia contar com aquela voz inabalável, e as emoções que ela conseguiria transmitir por meio dela. Ele colocou o futuro do pop diretamente em suas mãos.

"Young Ariana run pop", Nicki Minaj rimou em "Side to Side", o single de maior sucesso nas paradas do álbum. Faltariam dois anos para Grande emplacar seu primeiro single em primeiro lugar (com "Thank U, Next", em 2018) e, ainda assim, a declaração de Minaj carregava muita verdade. O pop vivia um momento de transição em 2016: Rihanna e Beyoncé consolidaram seus legados com Anti (2016) e Lemonade (2016), respectivamente. As paradas eram dominadas, em grande parte, por Drake e Justin Bieber. Em outros lugares, The Chainsmokers e Meghan Trainor também emplacavam grandes hits. Mas não havia ninguém operando exatamente no mesmo espaço que Grande. Uma coisa é ter uma voz poderosa. Outra é controlá-la do jeito que ela faz ao longo de Dangerous Woman.

"Into You" é um dos exemplos mais certeiros de um clássico instantâneo na história recente do pop. "A primeira frase, aquele 'I'm so into you / I can barely breathe', é talvez a coisa mais próxima da perfeição pop que eu já ouvi", disse Lorde alguns dias depois de "Into You" chegar como o segundo single de Dangerous Woman. Grande canta esse verso em um tom baixo, não exatamente um sussurro, mas algo igualmente frágil e sem fôlego. À medida que ela avança em direção ao explosivo primeiro refrão, sua voz vai se aproximando e se aproximando, até consumir a música inteira com uma exigência ousada: "Baby, come light me up". A ponte arrebatadora leva a faixa do excepcional ao magistral.

"Touch It" é igualmente vertiginosa do começo ao fim. Sempre que parece ter atingido um ápice, ela leva tudo ainda mais longe, avançando com notas agudas implacáveis e vocalizes devastadores. A percussão pulsante de "Thinking Bout You", a faixa final do álbum, reproduz um batimento cardíaco ansioso. Um pouco atrás do tempo, harmonias etéreas giram ao redor de Grande enquanto ela se agarra a um abraço fantasma e a música acelera rumo a uma ponte explosiva. "I've been waiting patient, patiently/'Cause I don't have you here with, here with, here with me", ela canta. E então vem a entrega total, a liberação eufórica: "But at least I have the memory". Parece um precursor natural de "Imagine", de Thank U, Next, ou "Better Off", de Sweetener — músicas que você precisa fechar os olhos para realmente ouvir e, consequentemente, sentir.

A maior parte do álbum foi criada com Max Martin, Ilya Salmanzadeh e Savan Kotecha, além de Tommy Brown. Com créditos em 10 das 15 faixas, foi o projeto em que Grande mais se envolveu no processo de composição até aquele ponto da carreira. Hoje, Grande atua como compositora e co-produtora ao lado de Martin e Salmanzadeh, que se tornaram seus colaboradores mais próximos. Seu estilo de produção vocal, agora característico — empilhando camadas e camadas de harmonias arejadas em arranjos intrincados — começou a tomar forma em Dangerous Woman. Sua voz narrativa também. Grande tem um entendimento especialista de como o pop passou a operar na última década, não apenas como forma de arte, mas como um tipo de arquivo da vida de um(a) artista.

Como título de álbum, Dangerous Woman é tão "na cara" quanto os discos pop que vieram antes, como Good Girl Gone Bad (2007), de Rihanna, ou Stripped (2002), de Christina Aguilera. É importante notar que, há uma década, o discurso em torno de praticamente toda mulher no pop era completamente inseparável da performance esperada do feminismo. Algo tão comum quanto abraçar a própria sexualidade era tratado como um ato radical, em vez de mulheres simplesmente, bem, existirem. E, ainda assim, Dangerous Woman quase nunca parece estar se esforçando demais para convencer você a enxergar Grande sob uma nova luz — mesmo nos momentos que não envelheceram tão bem. A proclamação de "We got that hood love/We got that good love/We got that hot love", em "Bad Decisions", é sublinhada por um piscadela cúmplice: "Ain't you ever seen a princess be a bad bitch?"

Mesmo aos 22, ela construiu intriga em torno de sua persona pop. Na segunda metade de "Knew Better / Forever Boy", uma faixa em duas partes que termina, segue em frente e se apaixona em cinco minutos, Grande canta: "Never been with a boy more than six months/I couldn't do it, got too used to it". Não é uma confissão, é apenas um fato. É assim que chegamos a "The Boy Is Mine" e "Twilight Zone", em Eternal Sunshine, onde ela canta: "Why do I still protect you?/Pretend these songs aren't about you/Hope this might be the last one/'Cause I'm not fooling anyone". Há intimidade na forma como ela canta sobre relacionamentos — direta na entrega, mas não ingênua quanto à curiosidade do público. A primeira letra que ouvimos em "Let Me Love You", uma colaboração sensual com Lil Wayne, é: "I just broke up with my ex."

O pop não pareceu abraçar Grande por completo até Sweetener e Thank U, Next a catapultarem para o topo do gênero. Foi quando se tornou impossível separar a narrativa da sua vida da sua música. O atentado em Manchester durante a turnê de Dangerous Woman, em 2017, e a morte de seu ex-parceiro e colaborador Mac Miller, em 2018, lançaram uma sombra pesada de luto sobre sua carreira. A cada novo lançamento, o público a tratava com uma fragilidade exagerada que ignorava a tenacidade que ela exibia em Dangerous Woman. A ousadia do álbum não foi resposta a trauma ou tragédia — reagir e seguir em frente é como ela sempre se manteve com os pés no chão.

O blues "I Don't Care" é uma das faixas mais subestimadas de Dangerous Woman. É um precursor claro de "Shut Up", em Positions, e de "True Story", em Eternal Sunshine, não apenas no som, mas no tema. "Now I laugh about the things that used to be important to me/Used to have a hold on me", ela canta. "Like what do you think, and what he thinks, and what they think/But I love me." Nos anos que se seguiram a Dangerous Woman, Grande precisaria cada vez mais desses reforços. Conseguir desligar o barulho impediu que ele afogasse sua voz. Esse foco permitiu que ela refinasse suas habilidades como compositora e produtora à medida que a metamorfose artística iniciada em Dangerous Woman completava sua evolução.

Dangerous Woman levou Grande de hitmaker a tastemaker. Por um momento, ela pareceu confortável nessa posição inicial. Dangerous Woman quase se chamou Moonlight, em referência à balada inspirada no doo-wop que abre o álbum. "Focus", o single avulso pesado em metais lançado em 2015, originalmente seria o single principal. Mas ambas as músicas revisitavam terreno que Grande já havia explorado. "Focus", que acabou ficando de fora do álbum por completo, teria se encaixado melhor em 2014, em My Everything, ao lado de "One Last Time", "Problem" e "Break Free". Já "Moonlight" remetia ao seu álbum de estreia de 2013, Yours Truly. Dangerous Woman precisava ser diferente. Sua mudança de direção trouxe à tona o subtexto de influência de R&B presente desde seus primeiros lançamentos, ao mesmo tempo em que reafirmava sua posição no pop.

Quem se surpreendeu com a entrega total nessa interseção em Positions não estava prestando atenção quando mais importava. "Ela agora está no auge dos seus poderes como tastemaker, compositora. Todo o sucesso que ela teve, ela aprendeu com tudo: qual é a voz dela, o que funciona para ela", disse Kotecha à Rolling Stone em 2019, após o lançamento de Thank U, Next. "Quando o produtor ou engenheiro não entende o que ela quer [do arranjo vocal], ela simplesmente diz: 'Você se importa se eu sentar e fizer?' Ela entra no Pro Tools e conserta. Ela é uma mestre do ofício. Eu já estive perto de alguns dos maiores cantores de todos os tempos. Nunca vi nada igual."

Em julho, Grande lançará seu oitavo álbum, Petal. "Definitivamente vem de um lugar em que eu talvez tenha sido tímida ou educada demais para acessar antes", ela disse sobre o disco. "Isso meio que parece, foda-se." É o mesmo ethos que moldou Dangerous Woman, quando Grande percebeu pela primeira vez que ser tímida e educada nunca a serviria tão bem quanto ser uma potência pop absoluta e sem pedir desculpas.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra