Lúcio Maia fala sobre seu novo álbum homônimo: 'Psicodelia é uma dissidência psicotrópica do surrealismo e do dadaísmo'
Ex-guitarrista da Nação Zumbi fala sobre novo disco homônimo, futurismo, cinema expressionista e por que sempre olhou pra frente
"Psicodelia é uma dissidência psicotrópica do surrealismo e do dadaísmo". A frase é de Lúcio Maia, 55 anos, guitarrista que fundou a Nação Zumbi e que acaba de lançar seu segundo disco solo homônimo. E não é só frase de efeito, para Lúcio, isso é um conceito de vida, de arte, de carreira: "O dadaísmo é a grande ruptura psicológica do padrão, né? Da ideia da Matrix, da ideia da igualdade, daquela ideia de manter aquele padrão", explica em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil.
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O surrealismo, segundo ele, já é a quebra absoluta dessa tendência do normal. Da obrigação do entendimento comum. Daquele lance da ruptura do padrão mesmo. "Pensando dessa forma, a gente sempre teve esse tipo de comportamento, né? Desde sempre. Desde o primeiro disco da Nação em 94. Nós somos artistas".
E Lúcio Maia (2026), disco com oito faixas instrumentais que celebra psicodelia, futurismo e diversidade de sonoridades, é exatamente isso: ruptura de padrão. Guitarras únicas envoltas em timbres psicodélicos, arranjos precisos, climas diferentes, composições inspiradas por gêneros diversos. Tudo misturado, tudo olhando pra frente.
https://www.youtube.com/watch?v=g-FwDKXN_tc
Olhar pra frente sem abnegar o passado
"O futurismo tem um conceito do qual eu concordo em parte, que é o lance de você ter a visão voltada pra frente. Mas o movimento futurista tem um lance da abnegação do passado. Tipo, coisa radical, destruição de museus e tal. Eu não tenho esse tipo de pensamento".
Para ele, a parte mais importante do futurismo é o fato de olhar para a frente. "Eu não acho que eu me consideraria um músico bem-sucedido se eu ficasse repetindo coisas do passado — bem-sucedido no meu conceito, porque não é uma regra. Eu sei que tem muita banda que repete o próprio conceito, porque é um conforto, uma zona de conforto da qual você pode usufruir pelo resto da sua vida. Tá OK, não tem problema para mim".
Mas ele não se sente satisfeito enquanto não romper essa relação do passado com o presente. "Então, eu procuro sempre olhar para a frente, mas sem abnegar o passado".
Trinta anos e o cansaço
Mas, antes de voltar a olhar para a frente, Lúcio teve que parar. Depois de 30 anos fazendo isso, ficou um pouco desgastado. A Nação Zumbi nunca teve férias, nunca deu um break de verdade. Entre 2008 e 2013, ele saiu da banda, mas não parou: foi fazer turnê com Marisa Monte, que também foi intensa. Muitos anos de viagens. Em 2020, depois que saiu da Nação de vez, ficou mais recluso. Tinha lançado um disco solo em 2019 — outro homônimo — que teve repercussão "super bacana", segundo ele. Mas não estava mais a fim de fazer disco e fazer show; não estava mais a fim de viver nesse sentido. "Eu tinha dado uma brecada na ideia de fazer disco".
Aí, no ano passado, deu saudade. "Me deu saudade de tocar guitarra para mais pessoas". E o resultado está indo bem acima do que ele esperava. "É tão difícil hoje em dia as pessoas terem interesse por música, dentro desse universo TikTok de um minuto, sabe? Tudo tem que ser tão rápido, tão efêmero. Tudo nasce e morre em segundos".
Então, em 2021, Lúcio fez uma música com uma sonoridade bem psicodélica, uma coisa bem desprendida do usual — até mesmo na textura. "'Horas Iguais' foi praticamente o start dessa nova ideia, de eu fazer um disco que tivesse mais esse desprendimento, sabe? Que eu pudesse brincar com as texturas de forma bem despojada".
Sem preocupação com uma estética predefinida. Foi fazendo e, no final, percebeu que tinha um disco bem psicodélico, com mais ou menos a mesma tendência de "Horas Iguais", ali em 2021.
O disco em si
"Cogumelo de Vidro" abre o projeto e estabelece o tom. Quando foi feita, Lúcio ainda não sabia que ela seria a primeira faixa. O disco depois foi moldado para criar uma linha de raciocínio, uma linha do tempo, para contar a história direitinho. "Mas as composições vão vindo a todo momento".
E "Cogumelo de Vidro" tinha uns oito minutos. Ela tem três momentos diferentes; conta histórias. São três momentos diferentes. Quando Lúcio resolveu colocá-la no disco, não queria fazer uma música de oito minutos. Reduziu cada momento: a primeira parte, a segunda, a terceira. E deu no que ela é.
Mas funciona muito bem como primeira música do disco. "Porque ali tem muito, fala muito das influências de tudo que eu já ouvi na vida. Tem desde baião, passando por surf music, tem reggae, tem dub, tem soul music, tem funk. Só não tem metal; o resto tem".
Outra faixa chamativa é "L'amour", que possui o único momento do disco com voz: uma narração em francês. Lúcio fez em homenagem a Serge Gainsbourg, que é uma grande referência para ele. "Em todos os aspectos, porque o Serge foi, além de músico, cantor, compositor; escreveu roteiro para filme, para teatro. Ele foi um artista completo. Tinha um lance de estética visual. A casa dele é um p*ta museu lá em Paris".
"Era um cantor absurdo, pianista. Começou como voz e piano, tocando em bares. E flertou com todos os ritmos do planeta. Ninguém foi igual a ele, cara. Ele tem discos de salsa, disco de voz e piano. Tem disco de rock, tem disco que ele gravou na Jamaica, de reggae, com a banda do Bob Marley, com eles. Então, foi um artista completo. Eu acho que o Serge Gainsbourg merece todas as homenagens do planeta. E eu fiz essa singela homenagem para ele, minha forma de expressar a influência que ele teve sobre mim".
Outra referência usada pode ser vista em "Fetish Motel", que tem uma atmosfera cinematográfica semelhante aos filmes noir dos anos 1960. Mas, para Lúcio, não é basicamente um só filme, e sim toda uma cena. "Eu sou muito fissurado no cinema expressionista, principalmente o alemão ali dos anos 20 e 30. Louis Brooks, Fritz Lang, toda aquela época artística. A música instrumental, a guitarra, por exemplo, para mim, é um instrumento que vocaliza bastante. E eu acho que esse foi o foco desse disco: a guitarra vocalizando as melodias. Como quase um cinema expressionista, de usar as poucas ferramentas que tem para contar uma história".
Música como estimulante sensorial
Lúcio quer que a música dele seja um estimulante sensorial, mais do que uma demonstração técnica. Como ele sabe que atingiu esse objetivo? "Leva tempo, cara. O mais difícil é que você realmente precisa ter estrada para conquistar algumas conquistas. Você precisa de um tempo para aprender como funciona".
E o fato de ele trabalhar com música, trabalhar com trilha de cinema, abriu muito essa criatividade dele: trabalhar em estúdio de forma que você tem uma ideia inicial que vem na cabeça; a partir dali, você a transfere para o instrumento e depois arruma aquilo de forma técnica. "Leva tempo mesmo, cara. É uma coisa que eu aprendi a fazer".
E o mais importante: você ter digital, fazer de forma que as pessoas escutem e digam: "Nossa, isso é fulano". Essa é a parte mais difícil. "Porque a questão da produção em si é você ter prática. Você pratica, pratica, até o ponto em que consegue dominar. Mas essa parte mais sensorial, cara, é ouvir muita música, ler muito livro, assistir a vários filmes, conversar com pessoas, é ter vivência".
Lúcio Maia não repete o passado. Não fica na zona de conforto. Olha para a frente sempre, mas sem abnegar de onde veio. Psicodelia como dissidência do surrealismo, do dadaísmo. Ruptura do padrão. Trinta anos de carreira, 55 anos de vida, uma bagagem que agora está estampada na capa do disco. Lúcio Maia é um disco que brinca com texturas, que vocaliza melodias como cinema expressionista, que mistura Luiz Gonzaga com Lee Perry, que homenageia Serge Gainsbourg. Um estimulante sensorial. Mais um tijolo robusto na fundação de uma carreira. E a certeza de que, daqui a 10, 20 anos, esse disco vai continuar sendo o que é: alguém que nunca parou de olhar para a frente.
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