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Compositor e cantor Almério grava Cazuza em 'Tudo É Amor'

Artista, que tem 41 anos, construiu, desde 2003, carreira que priorizou composições autorais antes de se lançar nesse tributo

22 fev 2022 05h11
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O cantor pernambucano Almério guarda uma história curiosa sobre Cazuza, compositor a quem ele dedica o álbum Tudo É Amor - Almério Canta Cazuza, recém-lançado nas plataformas digitais. Quando era adolescente, ele ganhou do irmão mais velho, Alexandre, uma coletânea do artista carioca. Entretanto, havia um detalhe: ainda não existia um tocador de CD na casa da família, em Altinho, pequena cidade do agreste de Pernambuco.

Almério, então, por dois anos, passava horas folheando o encarte onde as letras das músicas estavam impressas. E, antes mesmo dele poder juntar texto e melodia, o grande encanto das canções, percebeu a força e o poder dos versos libertadores de Cazuza, sobretudo para um garoto de 13, 14 anos, na metade dos anos 1990, que sofria bullying na escola e recebia olhares de reprovação da vizinhança por conta de sua sexualidade.

Quando o irmão pôde, enfim, comprar um discman e acoplá-lo à vitrola, tudo fez mais sentido ainda. "Foi catártico. Criei uma intimidade com Cazuza. Ele se tornou meu conselheiro. Reativava minhas forças e me fazia seguir em frente", diz Almério. Além de Cazuza, Caetano Veloso e Elis Regina também eram vozes constantes em suas audições.

Por isso, não é exagero afirmar que o álbum Tudo É Amor esteve, de certa forma, por quase três décadas, interiorizado em Almério - atualmente ele tem 41 anos -, que construiu, desde 2003, uma carreira de ator e cantor e sempre priorizou composições autorais antes de se lançar nesse tributo.

Almério concorda com isso e revela a surpresa que teve quando recebeu o telefonema da idealizadora do projeto, Ione Costa, em julho de 2020. "Ela me perguntou se eu sabia cantar O Tempo Não Para. Respondi: sei cantar de trás para frente, com os pés nas costas. Eu fiz 13 anos de noite, de bar, e as pessoas sempre pediam Cazuza", conta.

A Almério e Ione, juntaram-se Marcus Preto, que assumiu a direção artística do álbum, o empresário André Brasileiro, na direção geral, e o baterista e arranjador Pupillo na produção musical. A escolha de repertório do tributo seguiu três critérios: três hits, três semi hits e 5 lados B. Um equilíbrio entre algo "cabeça" e o caminho fácil, só com sucessos.

Então, ao lado de músicas como Blues da Piedade e O Nosso Amor a Gente Inventa estão Cobaias de Deus, parceria de Cazuza com Angela Ro Ro, Perto do Fogo, parceria com Rita Lee e Quando Eu Estiver Cantando, com João Rebouças. Essas três últimas faixas são todas do álbum Burguesia, o último lançado por Cazuza, em 1989.

Cobaias de Deus, de tom existencialista e questionador, gravada apenas com acompanhamento do piano de André Lima e do baixo acústico de Fábio Sá, levou todos do estúdio às lágrimas, segundo Almério.

Apesar da intimidade que Almério tinha com a obra de Cazuza, essa emoção que brotou no estúdio - o álbum foi gravado em 10 dias - nasceu de um novo mergulho na obra do compositor.

Almério queria saber o que ele poderia acrescentar àquelas canções. "Descobri que Cazuza era um baita cantor. Não foi fácil. Me isolei, me emocionei. Isso em plena pandemia, vendo a dor do nosso povo, em um país desgovernado por um presidente desprezível", diz. Além desse sentimento, o cantor queria trazer seu canto agreste para as canções do carioca que fez a cabeça da geração do pop/rock brasileiro.

E como apenas o discurso vazio não faz a cabeça de Almério, Tudo É Amor terá parte do dinheiro arrecadado com plays em plataformas de música, shows e vinil (que deve ser lançado em abril) doada para a comunidade Entra Apulso, localizada em Boa Viagem, no Recife, que tem cerca de três mil habitantes.

Convidados

Um dos convidados do álbum é um velho conhecido de Cazuza. Ney Matogrosso foi convidado para dividir com Almério o rock/samba Brasil, de George Israel, Nilo Romero e Cazuza, lançado em 1988 e eternizado na voz de Gal Costa.

"Queria cantá-la ao lado de uma grande voz. Ney é um artista gay como eu. Ele é um planeta, vasto. Ele abriu caminho para as bichas todas, sem levantar bandeiras, apenas sendo o que ele é. No estúdio, ele olhava nos meus olhos. Nunca tinha me visto e pediu que eu o dirigisse na gravação. Saí transformado".

Céu foi convidada para participar da faixa Eu Queria Ter uma Bomba, canção dor de cotovelo - claro, com o sofrimento no estilo Cazuza, cheio de ironias e metáforas. "Ela trouxe uma dorzinha elegante para a música", avalia o cantor.

Almério se mostra feliz com o resultado de Tudo É Amor. Aguarda o momento certo de voltar aos palcos, com mais segurança para ele e para o público. Tem ideias para mais três discos autorais. Em 2023, completará 20 anos de música, considerando-se o tempo em que começou a cantar nos bares da vida.

Enquanto isso, depois de anos com residência fixa em Recife, e temporadas entre Rio de Janeiro e São Paulo, ele agora vive em uma pequena vila nas imediações de Caruaru, cercado pela vegetação típica da caatinga, a terra vermelha e o silêncio. "É um mergulho dentro de mim. Sou igual a Tieta. Voltei para o agreste".

Estadão
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