Quando Renato Rocha, membro esquecido da Legião Urbana, jogou a real sobre ex-colegas
Músico falecido em 2015 nunca escondeu seus problemas com outros integrantes da banda, desde sua entrada antes do primeiro álbum até sua demissão em 1989
Quando pensamos na Legião Urbana, a imagem que vem à cabeça é de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Entretanto, havia outro integrante nos primórdios da banda: Renato Rocha. E ele nunca escondeu o que pensava dos ex-companheiros.
O músico conheceu os integrantes em Brasília e não teve uma impressão positiva deles de cara. Isso em grande parte por andarem em grupos distintos de punks: Rocha era skinhead e os membros da Legião, fãs de pós-punk.
Após uma tentativa de suicídio de Renato Russo que afetou seus braços às vésperas da gravação do álbum de estreia da banda, Rocha foi recrutado. O baixista contou em entrevista ao jornalista Luiz Cesar Pimentel, da revista Zero, em 2002:
"Como ele tocava baixo, precisava de alguém para o lugar dele. Eu sabia todas as músicas, as letras. Entrei quatro dias antes do início das gravações. Acabamos virando a maior banda do Brasil."
(** No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação civil sem fins lucrativos, oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, gratuitamente, 24 horas por dia. Qualquer pessoa que queira e precise conversar, pode entrar em contato com o CVV, de forma sigilosa, pelo telefone 188, além de e-mail, chat e Skype, disponíveis no site www.cvv.org.br.)
Rocha ficou na Legião até 1989, contribuindo na composição de hits como "Daniel na Cova dos Leões" e "Quase Sem Querer", ambas do álbum Dois (1985). Entretanto, as diferenças fundamentais entre o baixista e os outros integrantes - especialmente a postura destes perante à fama e riqueza - continuaram presentes.
Na mesma entrevista, o músico ainda disse:
"Eu fumava meu baseado inocente, tomava minha dose de uísque e ficava pensando: 'Cara, eu estou fazendo a melhor coisa do mundo: ganhando grana pra fazer música, e neguinho fica aí se lamentando à toa, reclamando do bife'. Eu aproveitei minha fase rock. Os caras não tinham atitude roqueira, não falava com a galera, esnobavam os fãs. Pra mim ficar na Legião era um sacrifício."
O baixista ainda não poupou críticas a Dado Villa-Lobos. Rocha acusou o guitarrista de acatar aos desejos da esposa, Fernanda, impedindo uma turnê mundial da banda.
Ele ainda disse que o colega poderia ter impedido sua demissão em 1989, logo antes de eles assinarem um contrato novo para gravar As Quatro Estações, lançado naquele mesmo ano.
Renato Rocha após a Legião Urbana
Ao longo dos anos subsequentes à sua saída da Legião Urbana, Renato enfrentou problemas sérios de alcoolismo e foi encontrado por reportagem do programa Domingo Espetacular, da Record, morando na rua. Ele recebia apenas R$ 900 por mês de direitos autorais, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).
Depois dessa reportagem, Rocha foi internado algumas vezes em clínicas de reabilitação por amigos e participou de shows comemorativos da Legião. Em 2015, durante um fim de semana no qual estava liberado de sua desintoxicação, o músico faleceu de parada cardíaca.