Como 'Revolver' tirou os Beatles do palco e os colocou na eternidade
Híbrido perfeito de psicodelia e pop, álbum inaugurou texturas impossíveis de se recriar ao vivo e fez dos Fab Four verdadeiros artífices de estúdio
Quando aterrissou nas prateleiras das lojas de discos, Revolver (1966) passou longe de ser uma mera coleção de novas canções. O sétimo álbum dos Beatles veio ao mundo como ponto de inflexão na música pop e na própria existência da banda. Foi o LP que tirou John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr dos palcos e os colocou na eternidade, consagrados como verdadeiros artífices de estúdio.
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Lançado em 5 de agosto de 1966, Revolver foi o reflexo de quatro músicos exaustos da histeria coletiva da Beatlemania e das turnês mundiais em que mal conseguiam ouvir os próprios instrumentos. Diante desse cenário, a solução foi transformar Abbey Road em um laboratório de experimentação, provando que o estúdio poderia operar quase como um instrumento musical, dada a quantidade de possibilidades sonoras ofertadas.
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Sob supervisão do produtor George Martin e do jovem engenheiro de som Geoff Emerick, o quarteto de Liverpool travou contato, por exemplo, com técnicas que permitiam:
- a gravação de fitas ao avesso (backmasking);
- a compressão de áudio;
- e a aplicação do ADT (Automatic Double Tracking), que dobrava os vocais ou ruídos produdizos organicamente.
Assim, inauguraram algumas texturas impossíveis de se recriar ao vivo na década de 1960. Era tudo que eles queriam; o álibi ideal para não precisar voltar a pisar num palco tão cedo.
Uma colcha de retalhos genial
Porém, o impacto imediato de Revolver não residiu apenas em sua audácia técnica, mas, sobretudo, estética. Musicalmente, o álbum é uma colcha de retalhos genial que transparece as obsessões individuais de John Lennon, Paul McCartney e, agora, até mesmo George Harrison. É dele a composição que abre o LP: "Taxman", com guitarras cortantes e críticas à política de impostos de Harold Wilson, primeiro-ministro do Reino Unido à época.
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Harrison continua sua emancipação como compositor em "Love You To", fazendo uso explícito do sitar e da tabla, instrumentos da música indiana. Esse mergulho na sonoridade oriental, que já vinha sendo tateado desde "Norwegian Wood", do Rubber Soul (1965), se introduziu também no tecido dos movimentos de contracultura, sendo um dos estilemas mais marcantes do período de conexão dos Beatles com a psicodelia.
"Tomorrow Never Knows", que encerra o disco, é exatamente uma transa lisérgica orquestrada por John Lennon, influenciado pelo LSD e pelo livro The Psychedelic Experience: A Manual Based on The Tibetan Book of the Dead (1964). Entre "Taxman" e ela, o ouvinte é conduzido por reflexões sobre existencialismo, solidão, viagens ácidas e crônicas do cotidiano urbano inglês.
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No ápice da good trip, os Beatles alcançam o híbrido perfeito entre psicodelia e pop em canções sublimes como "I'm Only Sleeping", "She Said She Said" e "I Want to Tell You". Menos delirantes e mais cantaroláveis, "Good Day Sunshine", "Yellow Submarine" e "And Your Bird Can Sing" são exemplos de composições que furaram diferentes bolhas, sendo amplamente conhecidas por públicos de idade, geração, afinidade musical e localização geográfica distintas.
A contribuição de Paul McCartney, obviamente, também é decisiva. Macca brilha intensamente em "Eleanor Rigby", dispensando guitarras, baixo e bateria, para se apoiar exclusivamente em um octeto de cordas - quatro violinos, duas violas e dois violoncelos. Já a melancólica balada "Here, There and Everywhere" e o soul ensolarado de "Got to Get You Into My Life" demonstram sua capacidade única de transitar por diversos gêneros com absoluta naturalidade e sofisticação.
Capa e legado
Visualmente, Revolver também promoveu ruptura com sua icônica capa, criada pelo artista plástico alemão Klaus Voormann, amigo de longa data da banda desde os tempos de Hamburgo. Misturando ilustrações e colagens de fotografias em preto e branco dos integrantes, a arte quebrou o padrão das fotos coloridas e sorridentes que dominavam a indústria fonográfica. A colagem rendeu à banda o Grammy de Melhor Capa de Álbum.
Passadas seis décadas, o legado de Revolver segue imensurável. Rito de passagem entre a era da Beatlemania e a fase madura da banda, o disco não só pavimentou o caminho para Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) como influenciou diversas manifestações artísticas, incluindo grupos contemporâneos da época como Beach Boys, Pink Floyd e Grateful Dead. Ao privilegiarem a excelência no estúdio em detrimento ao afago efêmero do palco, os Beatles transmutaram de ídolos juvenis a fenômeno universal e duradouro. Sem qualquer prazo de validade.
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