Budah e 'Frequência Lunar': entre a perfeição e o desapego
Como uma capricorniana obsessiva aprendeu que "o bom já está bom" — e transformou isso em um disco revelador
Há artistas que parecem nascer com uma simplicidade natural: só fazem, entregam e seguem em frente. Mas, assim como uma boa capricorniana, Budah não é desse tipo — e quem se identifica sabe que isso não é apenas um signo astrológico; é quase uma sentença. Aquela sensação de que nada satisfaz por completo, de que sempre existe uma aresta a aparar, um detalhe a refinar, um ponto além do horizonte onde a perfeição, enfim, repousa sobre a carreira da artista.
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Essa obsessão a empurrou para cima. Tirou Budah de Cariacica, no interior do Espírito Santo, e a levou aos palcos mais importantes do Brasil. Colocou seu nome ao lado de Wyclef Jean, abriu caminho para colaborações internacionais e rendeu indicações a prêmios que poucos artistas brasileiros alcançam. Mas a obsessão também aprisiona. E é justamente da tensão entre esses dois polos — a ambição que constrói e o perfeccionismo que paralisa — que nasce Frequência Lunar (2026), seu segundo álbum, lançado em maio.
Se Púrpura, o disco de estreia, era um R&B lírico, meticulosamente lapidado — com cada nota no lugar, cada palavra carregada de intenção —, Frequência Lunar é um disco radicalmente diferente, mais agressivo, mais experimental, mais disposto a errar.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Brendha Rangel, a Budah, refletiu sobre sua carreira, seus trabalhos e seu "xodó", o novo disco.
"Eu sempre fui muito pé no chão, nesses 10 anos de carreira", conta. "Eu acho que eu sempre mantive a minha cabeça nesse lugar de tipo: cara, não esquece da sua família, não esquece dos seus amigos antigos", continuou.
A menina de Cariacica não sumiu. Mas a artista de 25 anos, agora em palcos internacionais, começava a ser consumida por um demônio sem nome exato: a exigência de ser impecável.
Quando Budah começou a escrever Frequência Lunar, sabia que estava arriscando tudo. O álbum seria diferente de Púrpura de um jeito radical — mais rap, mais drill, mais house; menos R&B contemplativo. Batidas inquietas no lugar de atmosferas etéreas. Pista de dança em vez de quarto. Isso a assustava. Havia a confiança de que quem amou Púrpura, álbum com mais de 50 milhões de streams, amaria tudo o que viesse na mesma chave; mas existia a dúvida sobre como o público reagiria a Frequência Lunar. Para uma perfeccionista, a incerteza é veneno.
"Como eu me arrisquei mais nesse disco, eu acho que foi essa ansiedade diferente", explicou. "Eu tava muito insegura, cara".
O ponto de virada veio de onde ninguém esperaria: o projeto Live from Vevo, um espaço quase sagrado por onde Billie Eilish, Anitta e Sam Smith já passaram. Budah foi para fazer história, mas o corpo se rebelou. Uma intoxicação alimentar severa a derrubou nos dias que antecederam a gravação. Incapaz de se manter de pé, a cantora disse que por pouco não desistiu:
"Eu não conseguia ficar em pé", contou. "A minha empresária sugeriu cancelar, mas, antes de eu dar o OK, eu parei, deu 10 segundos e eu falei: 'Não, cara, eu vou fazer'". Dez segundos: a distância entre ceder e insistir; entre aceitar o real e forçar o ideal. Budah escolheu forçar — e gravou. Gravou sem conseguir ficar em pé. Gravou porque havia prometido ao mundo que seria perfeita, e a perfeição não admite desculpas. "Eu não sei como eu consigo fazer real assim", refletiu depois. Era a admissão de que, naquele momento, tinha cruzado uma linha: sacrificara o próprio corpo no altar do perfeccionismo. E, quando voltou para São Paulo, voltou diferente.
https://www.youtube.com/watch?v=2XZDDLohtGk
A cicatriz daquele dia em Nova York virou epifania. Budah enfim entendeu: "Eu preciso, às vezes, só fazer o que é bom e não o que é perfeito pra mim". Para muitos, é uma frase simples; mas, para uma capricorniana, é revolução. Significa aceitar que existe um ponto em que o esforço deixa de valer a pena; em que a melhora deixa de ser melhora e vira doença. "Tipo, às vezes a minha voz tá boa e aí eu falo: 'Não, cara, eu consigo fazer melhor'. Só que, cara, o bom já tá bom, sabe?". Foi uma descoberta tão funda que ela passou a repeti-la como mantra: "Cara, tá bom, vamos deixar aí, sabe? Não fica procurando coisa, porque, se eu escutar, eu vou ficar procurando coisa". Até hoje, ela ouve os próprios álbuns caçando imperfeições — mas agora reconhece a hora de parar.
O conceito como libertação
Frequência Lunar é a resposta sonora a essa epifania. Não é coincidência que um disco assim tenha nascido de um conceito científico cuidadosamente estruturado. Budah e sua equipe estudaram frequências sonoras com um rigor quase acadêmico. Entenderam como "os graves vibram no corpo e trazem energia bruta", "como as frequências médias revelam emoção e intenção" e como "os agudos podem soar leves e, ao mesmo tempo, incômodos".
Em seguida, se debruçaram sobre as fases da lua: como elas influenciam ritmos biológicos, como desenham ciclos de energia e introspecção. O resultado foi quase perturbador: o álbum inteiro — as 14 faixas, os sentimentos, as narrativas — parecia se encaixar com precisão nesse padrão lunar de frequências. Era como se existisse uma lógica maior, uma harmonia que não era feita por Budah, mas através dela. "E aí a gente entendeu que, tipo assim, tinha a ver com a frequência de som e tinha a ver com a lua, sabe? E aí por isso Frequência Lunar".
As escolhas de participações também refletem essa nova filosofia. Budah não foi aleatória, mas também não foi obsessiva. "Tem músicas que eu fiz pra pessoas", explicou, lembrando que escreveu "Vida de Artista" especificamente para Tasha & Tracie, querendo entrar na vibração delas e se desafiar com as inteligências das duas. Em outras, como "VIP", ela simplesmente ouviu a faixa pronta e soube: "Cara, Duquesa aqui ia ser, assim, lindo". Com Iza em "Salto 15", com Pabllo Vittar em "Vampira", com Vita em "Submundo": cada parceria parece nascer de necessidade. É o perfeccionismo redirecionado, não para a própria voz, mas para o conjunto; não para a execução, mas para a escuta.
O palco como teste final
Como forma de coroar toda essa jornada, a cantora anunciou uma turnê do álbum. Começando em 22 de agosto no Cine Joia, em São Paulo, e culminando em 6 de setembro no Rock in Rio, no Espaço Favela, esse será o teste definitivo. Porque é no palco que a obsessão pela perfeição volta como fantasma três vezes maior. A exigência de ser impecável bate à porta com força renovada. De repente, a menina de Cariacica se vê dividindo a programação com Black Eyed Peas, Ne-Yo e Rael — figuras que, de onde ela veio, pareciam intocáveis. "Acho que eu não tenho noção assim das coisas, real… tipo, quando vêm essas oportunidades eu fico: gente, mas como assim eu vou tocar no Rock in Rio?", confessou. "E aí as pessoas olham pra mim e falam: 'Cara, a gente tá trabalhando pra isso, sabe?' (risos)".
Montar o repertório se provou tão difícil quanto gravar. Há músicas de Púrpura que ela ama — o primeiro álbum, o ponto de partida, a obra que a consagrou — e não há tempo para tudo. É preciso deixar ir. "Eu tô com um apertinho no coração de deixar algumas músicas de Púrpura, porque… foi meu primeiro álbum, foi uma turnê muito linda também". Na hora de decidir, chorou: "Eu chorei quando a gente tava montando o repertório. Eu fiquei: 'Cara, eu não acredito que essa música vai sair'". Mas entendeu que aquilo não é uma perda — é um ciclo que se repete. "Isso vai acontecer muitas vezes. Eu vou lançar o terceiro álbum, eu vou lançar o… e isso vai acontecer". É aceitação. É, enfim, a maturidade capricorniana chegando.
https://www.youtube.com/watch?v=B3nabZrRdUo
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