Baterista sobre cancelamentos do MOA: "pode ter rolado uma histeria"
- David Shalom
- Direto de São Paulo
Três dias se passaram desde o cancelamento do Metal Open Air, em São Luís (MA), e muitas dúvidas ainda seguem sem esclarecimentos. Desde a noite de quinta-feira (22), quando teve início a debandada de atrações internacionais por falta de pagamento de cachês, o Terra tenta, sem sucesso, entrar em contato com os responsáveis pela Negri Concerts, principal organizadora do festival. Aos poucos, no entanto, alguns pontos começam a ficar mais claros, seja por informações desencontradas dos próprios promotores, por meio de notas oficiais, seja pelos músicos que estiveram na capital maranhense para aquele que seria o maior evento de heavy metal da história no Brasil.
Ao Terra, o baterista do Shaman, Ricardo Confessori, atração na primeira noite do MOA, garantiu que todos os principais nomes do evento estavam, sim, hospedados em São Luís - e a decisão de não subir ao palco pode ter sido tomada por motivos extra-contratuais. "Pode ter rolado uma histeria por parte de algumas bandas, que acabaram cancelando porque outros haviam feito o mesmo", teorizou, usando como exemplo grupos como Destruction e Megadeth, que cumpriram suas obrigações e subiram aos palcos do festival. "A verdade é que eu também não sei o que rolou. É necessário ver com a produção. Obviamente algo deu errado, mas tudo o que sei foi o que li por aí."
Ao contrário do que se podia esperar pelo caos divulgado por meio de relatos de fãs e da imprensa nos últimos dias, a estrutura montada no Parque da Independência, sede do MOA, também não causou uma má impressão em Confessori - apesar de, no primeiro dia do evento, boa parte da estrutura não estar pronta. Ao menos à primeira vista. "Na sexta, foi legal, no fim das contas. Tudo estava perfeito, funcionando. Tudo normal. Em relação à segurança, não estava no nível de uma partida de futebol, mas estava lá, e as pessoas pareciam bastante calmas."
O discurso do baterista é semelhante ao do vocalista do Almah, Edu Falaschi, que desde sábado (21) tem sido alvo de críticas por ter divulgado nota na qual parabenizou a produção do MOA pela atitude de promovê-lo - indo, assim, contra todos os ataques que proliferaram em relação a ela na ocasião. "Logo após o nosso show, muitos amigos de bandas vieram me cumprimentar. Eu estava feliz e só quis dar uma força para o festival, para o público que lotava o local", se justificou ao Terra por email. "Pensei que finalmente o evento entraria nos eixos para os próximos dias, pegando no tranco e sendo o sucesso que todos nós desejávamos."
Não entrou. Depois da série de cancelamentos na sexta - e de relatos de total ausência de segurança e, principalmente, de falta de higiene e alimentação nos custosos campings, instalados em estábulos para cavalos -, o sábado não podia ser pior. Com sete horas de atraso, o segundo dia de evento viu apenas uma atração internacional subir ao palco, os desconhecidos holandeses do Legion of the Damned, e acabou alçando o Korzus ao posto de headliner da noite, em um dia com apenas quatro shows realizados dos 17 inicialmente previstos. Na madrugada do último dia, todos os palcos começaram a ser desmontados sem qualquer explicação para o público e a óbvia notícia veio no domingo, quando, após promessas de coletivas de imprensa, o MOA foi finalmente cancelado, sem maiores explicações.
Depois do pesadelo...
Os últimos dias têm sido marcados pelo "corpo fora" das duas principais organizadoras do Metal Open Air. Tanto a Lamparina Produções quanto a Negri Concerts emitiram uma série de comunicados acusando-se mutuamente pelas diversas falhas na produção do festival, um dos maiores fiascos do gênero que se tem notícia no Brasil - em 2004 ocorreu algo parecido com o paulistano Masters Open Air, cancelado algumas semanas antes de ser realizado.
Na segunda-feira (23), a Negri, a mais atuante promotora de shows de heavy metal da cidade de São Paulo em 2011, divulgou uma promoção para supostamente relativizar os danos causados aos fãs que se deslocaram até o Nordeste para conferir o evento, oferecendo entradas gratuitas para o show do Blind Guardian, no mesmo dia, na capital paulista. O problema é que a oferta só foi válida para quem apresentasse a pulseira de acesso ao MOA, uma das provas físicas dos consumidores para o caso de um futuro processo de ressarcimento diante de um tribunal - já que nem um processo de devolução do dinheiro investido nos ingressos, algo básico para qualquer contratempo do tipo, parece ainda possível. O Terra tentou entrar em contato com os responsáveis pelas empresas, mas não conseguiu ir além da caixa postal nas ligações.
"As bandas, na manhã da sexta-feira, não sabiam de absolutamente nada dos detalhes de produção, estávamos no hotel esperando e conversando. Foi só no sábado que fiquei sabendo que tudo desabou, dos absurdos das condições de tratamento com as pessoas, seres humanos", explicou Falaschi, negando que seu grupo, o Almah, tenha recebido cachê para sua apresentação, uma das poucas dentre as anunciadas realmente realizadas - mesmo caso do Shaman, de Confessori. "As coisas ficaram claras mesmo no segundo dia, quando os headliners começaram a cancelar. Se um decide não tocar é uma coisa. Mas quando começa a haver uma desistência atrás da outra fica complicado seguir em frente", completou o baterista.
Esclarecendo discursos
Apesar da série de problemas estruturais e de quebra de contrato, a desistência das atrações internacionais recebeu críticas severas dos músicos no último fim de semana. No sábado, Confessori enviou mensagem pelo Twitter para Scott Ian, líder do Anthrax, questionando o motivo pelo qual o quarteto havia se recusado a subir ao palco na segunda noite, mesmo com cachê e passagens aéreas devidamente pagas pelas organizadoras. O norte-americano se explicou alegando que não podia se apresentar sem todos os equipamentos previamente combinados com as promotoras - o set de bateria exigido, por exemplo, nunca chegou a pisar no Maranhão.
"Eu queria saber se ele tinha cancelado por alguma bobagem, o que é muito comum de acontecer por aqui. Fiz uma pergunta para ele e recebi em troca uma resposta genérica", esclareceu o músico, enfatizando, no entanto, não discordar da atitude caso esta tenha sido realmente tomada com algum fundamento. "Não sei a história de cada um, mas eu tive essa postura de tocar pelo público, mesmo sem ter recebido cachê. Se tocássemos ou não estaríamos no nosso direito, pois não recebemos. O que tem que ver é se os cancelamentos tiveram um motivo realmente justo, porque, senão, fica complicado."
Edu Falaschi, por outro lado, causou polêmica ao elogiar a organização após se apresentar com o Almah e, principalmente, por ter se mantido em silêncio ao longo do fim de semana em meio a todo o caos que se instalou na capital maranhense. Tanto ele quanto o vocalista Thiago Bianchi, conhecidos nos últimos anos por discursos em prol do heavy metal nacional repletos de verborragias muitas vezes ofensivas aos fãs, sofreram críticas severas de articulistas e frequentadores de sites especializados.
O Terra não conseguiu encontrar Bianchi para se defender das ofensas, que atingiram seu ápice no artigo Thiago Bianchi e Edu Falaschi: os maiores hipócritas do metal nacional, publicado no blog Collector´s Room e retirado do ar devido a ameaças de processos judiciais, aparentemente, por parte de ambos.
Polêmico em 2011 ao responder a críticas relacionadas à sua performance ao vivo com o Angra, no Rock in Rio IV, Falaschi se defendeu: "alguém já me viu pedindo a retirada de alguma coisa minha da net? Não, né? E olha que tem coisa, hein? Desde que entrei no Angra, sofro com perseguição, mas sempre levei na boa, aguentei críticas pesadas, pessoas tentando a todo custo me derrubar. Desta vez, no entanto, a coisa foi muito séria. Envolveu seres humanos, pessoas que foram humilhadas e que estavam lá por nós, bandas. E quando essa matéria dá a entender que eu estava de acordo com isso, aí não. Chega! Isso é demais! Porque todos sabem o quanto sou amigo dos verdadeiros fãs, o quanto sou acessível e o quanto os respeito! Quer falar mal de mim como cantor é uma coisa, mas me colocar numa posição como se eu fosse o responsável por esse desastre, aí é demais. Isso eu não vou aceitar."