Amanda Sarmento estreia com 'ECLIPSE': 'Quanto mais a música fosse verdadeira para mim, mais eu sentiria que ela estava boa'
Álbum de estreia passeia por rap, R&B, afrobeat e eletrônica e marca um momento de revelação artística guiado pela dualidade emocional e pelo autoconhecimento
Como um eclipse que encobre a luz sem apagá-la, ECLIPSE nasce de um lugar de sombra e transformação. Amanda Sarmento lança hoje seu álbum de estreia: 12 faixas que transitam entre rap, R&B, afrobeat, trap e música eletrônica, com produção de Iuri Rio Branco. O conceito que amarra o projeto é simples, mas profundo: a dualidade. "Quando eu penso no eclipse, eu penso exatamente nessa dualidade, sabe? De coisas, de sentimentos… essa sombra e essa luz que todo mundo tem dentro de si. Para mim, é oito ou 80. É a luz ou a sombra", explica Amanda, libriana que vive tudo intensamente, em entrevista à Rolling Stone Brasil.
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Há também uma narrativa fictícia por trás do disco: a história de uma mulher de outro universo que, numa noite de eclipse, realiza o desejo de vir à Terra e viver um amor, apenas para, depois, descobrir o amor-próprio e partir:
"É uma história que criei na minha cabeça e que me ajudou muito a compor e a enxergar o disco como uma história com começo, meio e fim".
A construção de ECLIPSE é um retrato de paciência e intencionalidade. Amanda guardou algumas faixas por até cinco anos, esperando o momento certo para lançá-las. "Esse álbum tem músicas que eu escrevi há muito tempo, e eu sempre soube que elas eram para um momento de álbum. A música 'MULHER', que é um poema da escritora Beatriz Nascimento, eu acho que guardei por uns cinco anos", conta. A outra metade nasceu durante sessões intensas em estúdio com Iuri Rio Branco. "Ele me mostrando os beats, a gente trocando referências… aí eu ia para casa e escrevia. Foi isso". Cada faixa tinha seu lugar, sua razão de estar ali.
A mudança temporária de Amanda do Rio de Janeiro para São Paulo, durante a produção, também foi decisiva:
"Eu me mudei para São Paulo durante o período de produção do disco e fiquei em vários apartamentos alugados temporariamente. E aí eu tive muito que lidar com a solidão. Foi uma coisa que me pegou muito: estar sozinha em São Paulo, com pessoas tão diferentes, e num processo de imersão no estúdio, onde eu ia de manhã e saía às 11 horas da noite". A solidão, porém, virou produtividade. "Aqui no Rio eu sempre tô rodeada de pessoas, seja do meu namorado, seja dos meus amigos. Lá eu estava sozinha — e isso foi muito bom também, porque eu aprendi a gostar da minha solitude. Eu saía do estúdio, ia para casa e, como eu estava sozinha, escrevia, escrevia, escrevia; acordava e escrevia de novo".
São Paulo também abriu novas portas sonoras: a cidade trouxe uma vontade maior de música eletrônica, algo que aparece especialmente em "ASSALTO", quando ela fala sobre estar "na selva de pedra tentando fazer acontecer".
As colaborações em ECLIPSE foram escolhidas com precisão. Amanda rejeitou a ideia de rechear o álbum de participações justamente por ser um trabalho de estreia. "Como é meu álbum de estreia, meu primeiro álbum de estúdio, eu não queria rechear ele de participações porque, para mim, um primeiro álbum é o álbum para o artista se mostrar, sabe? Mostrar a sua composição, sua fluência e sua melodia". Ainda assim, as três participações que entram no disco representam diferentes lados de sua identidade artística: Tássia Reis em "SUBMERSA" traduz seu lado R&B, fino e cheio de alma — "ela é uma grande inspiração para mim, sempre foi"; Ruas MC em "EU JÁ SOFRI DEMAIS" conversa com seu lado alternativo e a cultura de rua onde cresceu; e Dona Maria Poeta, avó de sua empresária Clara Moneke, traz um viés intelectual que exalta escritoras negras. "Em todos os meus EPs, em todos os projetos que eu fiz até chegar aqui, eu sempre exalto uma poetisa, uma escritora negra. Acabou que fechou nessas três participações, e elas traduzem perfeitamente quem eu sou".
Permitir-se escrever com honestidade foi o grande passo. Amanda tinha receio de inserir referências literárias que o público não entendesse. "Eu tava lendo muito na época, e muitos livros me ajudaram a compor. Mas eu ficava com medo de as pessoas não entenderem — tipo na música 'MULHER', que eu recito basicamente um poema da Beatriz Nascimento. Eu ficava com medo de não entenderem sobre o que eu estava falando. Então, por muito tempo, eu fiquei num ambiente confortável, de deixar a música confortável para o público". Desta vez, escolheu o caminho oposto. "Quanto mais a música fosse verdadeira para mim, mais eu sentiria que ela estava boa. Foi muito mais eu me permitir do que o contrário: eu me permiti mostrar todo o meu conhecimento literário de composição". Tudo foi escrito à mão — "estar ali riscando, pensando: 'não, essa palavra não ficou legal'".
ECLIPSE encerra com "MANIFESTO", a primeira música gravada em estúdio, um mantra de afirmação. "Ela fecha o disco manifestando todas as bênçãos que eu quero que cheguem com essa nova fase. Fala sobre ter autoconfiança, sobre pensar positivo, sobre manifestar coisas boas… e que tudo, tudo, tudo o que a gente manifesta com fé realmente acontece".
"Eu considero o auge da minha vida estar vivendo isso com 30 anos — é muito louco", finaliza a cantora.
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