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A jornada de amadurecimento de Ryu, the Runner

De morar sozinho aos 21 aos 22 anos, dividindo duas mixtapes: como viver de verdade mudou sua arte

28 mai 2026 - 08h51
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Ryu, the Runner fez uma escolha que mudou sua vida — e, consequentemente, sua carreira. Aos 21 anos, enquanto criava seu primeiro grande projeto, decidiu sair de casa e morar sozinho. Sem a mãe por perto, longe dos amigos, sem rede de segurança, sem nada. "É mais difícil do que parece", ele admite. Nos estúdios da Rolling Stone Brasil, o fenômeno da rap nacional refletiu sobre sua jornada de amadurecimento: "Eu falei: 'Caralho, era para ter ficado na casa da minha mãe'. [risos] Mas foi uma fase, foi difícil".. E, enquanto processava tudo isso — a solidão, as responsabilidades, o peso de ser realmente um adulto —, estava criando música. Aquelas que se tornariam Adulto Ideal, sua mixtape de estreia.

Foto: Rolling Stone Brasil

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O disco que nasceu dessa transição. Ryu questionava, buscava, se perdia em reflexões sobre o que era viver a vida adulta. Não tinha respostas. Tinha dúvidas, dores, momentos de clareza misturados com confusão. Quando Adulto Ideal Vol. 1 saiu, em outubro de 2024, o streaming começou lento. "Senti que não foi tão bem aceito no começo. Acho que o trap tava passando por um momento meio estranho". Mas Ryu acreditava no disco. Então fez algo raro em uma carreira que tinha decolado rápido: parou de esperar pelo streaming e foi pra rua. Começou a fazer mais shows próprios (coisa que nunca tinha feito tanto). Divulgava todo dia. "Vi que precisava fazer o trabalho de formiguinha. Antes, tudo batia, mas agora tinha que fazer diferente".

E funcionou. Devagar, mas funcionou. Adulto Ideal Vol. 1 começou a tracionar. As pessoas começaram a ouvir, as faixas entraram em playlists, os fãs começaram a se identificar — especialmente aqueles que também estavam naquela transição estranha de virar adulto, de morar sozinho, de não saber direito o que faziam ali. O disco chegou a 40 milhões de plays. E, enquanto isso acontecia, Ryu continuava vivendo, morando sozinho, tocando seus negócios, aprendendo com as quedas, amadurecendo sem perceber.

Durante esses meses, muita coisa mudou na vida dele. Não só nos números, mas internamente. Ele começou a observar mais, a entender melhor as coisas, a lidar com situações que antes o confundiam. Os shows, especialmente, foram uma aula.

"O palco é um lugar muito doido. Quando comecei, tava no automático. Mas, conforme fui ficando mais velho, comecei a ver como o meu fã agia, como as pessoas reagiam. Antes, eu dava risada disso. Agora, estou começando a aproveitar mais".

O segundo capítulo

Meses depois, com tudo que tinha acumulado, Ryu decidiu que queria fazer mais, uma continuação. Se o Vol. 1 tinha sido uma pergunta, o Vol. 2 seria uma resposta. Ou melhor: seria um amadurecimento daquela pergunta. "O Vol. 2 é o irmão mais velho do Vol. 1", ele explica.

"O Vol. 1 é mais melódico, mais introspectivo; eu tava naquela transição. E o Vol. 2, eu tô rimando mais, tô mais na brisa de ser rapper mesmo, de rimar, de falar os bagulho que eu queria. O Vol. 2 é o resultado dessa virada".

Para chegar lá, Ryu fez 40 faixas, depois, escolheu apenas 10 para o Vol. 1. Com elas, gravou mais 14 para o Vol. 2. A maioria nem chegou a circular: "É difícil, mano. Deixei algumas que vários amigos gostavam. Mas você entende que cada faixa tem seu lugar, seu momento". E isso vem de alguém que produz desde os 13 anos. Aos 22, Ryu aprendeu que produção não é adicionar mais; é saber tirar. Saber o que não funciona. Saber deixar respirar. "Parei de produzir tanto, mas produzo as minhas faixas. Antigamente, pegava o loop e fazia a bateria em cima. Fui me aprofundando. Agora, deixo o produtor fazer e depois só mexo no que quero".

Essas escolhas de sensibilidade aparecem em tudo que ele faz. Nas parcerias também. Adulto Ideal Vol. 2 traz Phl Noturnboy, Emitê Único, LPT Zlatan, TZ da Coronel.

"Quis fazer feats só com meus amigos. Quem fosse amigo meu mesmo, com relação e intimidade. Não queria fazer um bagulho com alguém só por fazer".

A benção dos Racionais

Como forma de esquenta para o lançamento do Vol. 2, Ryu decidiu fazer um teaser diferente: uma conversa simbólica, dentro de um espaço que representa o subconsciente dele, com Ice Blue, dos Racionais MC's, alguém que ajudou a construir a história do rap no Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=y40SbOT91p4

"Eu queria alguém importante pro rap, que pudesse passar uma visão que eu não consegui colocar 100% nas músicas. E Ice Blue tem muito a ver com isso, com o jeito que eu quero dizer as coisas".

E quando o Vol. 2 finalmente saiu, em abril de 2025, o impacto foi diferente do primeiro volume. Dessa vez, as pessoas já sabiam quem ele era. Sabiam que ele tinha construído algo sólido. E agora voltava para aprofundar. O disco chegou a 10 milhões de plays em poucas semanas.

"Mano, assustava. Eu ouvia Racionais na infância inteira e ter essa benção do Blue desse jeito... eu fiquei muito feliz".

O projeto tem 14 faixas. Quatorze histórias que conversavam entre si, mas não de forma linear, organizadas em torno de três eixos: maturidade, ambição, perigo — que funcionam como camadas do que ele estava vivendo naquele momento. "A maturidade aparece na escuta e na observação. A ambição na busca constante por evolução. E o perigo como consequência da exposição que vem com o crescimento. Quanto maior o avanço, maior a pressão", refletiu.

Musicalmente, o projeto retoma o trap que Ryu trouxe ao público, mas com maturidade estética diferente. As produções são de Neckklace, C4rlinhxs, 6ee, SMOKEFUSION, Cassin. "Tem uma sonoridade diversificada, mas com uma ideia central. Acho que isso torna o projeto único", ele disse. E reforçou algo importante: "Se não fossem os produtores, eu não teria conseguido fazer isso. Só tem beat de quem eu 'fecho', de quem tá comigo".

O que vem por aí?

Quando perguntado se vai fazer Adulto Ideal Vol. 3, Ryu é direto: "Não". "Acho que fechei o bagulho. Agora podem esperar coisas novas". Os shows do projeto continuam, mas a série termina aqui. "Fechou o ciclo". E isso é maturidade também: saber quando parar.

Aos 22 anos, Ryu tem clareza sobre o que vem a seguir. "Eu achava que meu maior sonho era ser famoso. Mas agora que sou, criei outros sonhos. Quero lançar mais projetos, não vou parar. Matuê tem 32 anos, Felipe Ret tem 40, e os caras tão aí tocando".

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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