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Marco Nanini encara medo de personagem de Beckett no teatro: 'Como um senhor, estou na idade certa'

O ator convidou o diretor Rodrigo Portella para comandar o espetáculo 'Fim de Partida' e montou um elenco para reencontrar parceiros de trabalhos marcantes; peça está em cartaz no Sesc Pinheiros

30 abr 2026 - 05h42
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Uma fala é recorrente na conversa com o ator Marco Nanini, de 77 anos, que estreia nesta quinta, 30, o espetáculo Fim de Partida, clássico do irlandês Samuel Beckett (1906-1989), no Teatro Paulo Autran, do Sesc Pinheiros, e tem agenda fechada até julho do ano que vem por diversas cidades do País. "Eu não tenho memória para mais nada", diz ele, em um tom que até parece bem-humorado.

'Fim de Partida' está em cartaz no Sesc Pinheiros
'Fim de Partida' está em cartaz no Sesc Pinheiros
Foto: Fernando Young/Divulgação / Estadão

A primeira contradição se manifesta quando o artista relembra de uma experiência com a atriz Helena Ignez, uma de suas companheiras na encenação dirigida por Rodrigo Portella, que traz os atores Guilherme Weber e Ary França. "Conheci Helena em 1968, o auge dela como musa do cinema alternativo, linda, com um sotaque baiano forte, e eu não passava de um figurante", recorda. "Foi meu segundo trabalho recém-saído da escola de teatro."

A peça era Salomé, de outro irlandês, Oscar Wilde (1854-1990), e a estrela brilhava sob a direção de Eros Martim Gonçalves (1919-1973), professor de Nanini no Conservatório Nacional de Teatro que o convocou para a montagem. "Ela dançava com um véu vermelho enrolado em uma vara de pescar e reencontrá-la é uma surpresa maravilhosa", afirma o ator. A atriz, de 83 anos, não economiza elogios ao colega. "Nanini construiu uma trajetória de coerência sem perder a inquietação", observa. "Um grande ator carrega a memória afetiva e, quando cita Salomé, é porque vai usar a referência no novo trabalho."

Fim de Partida representa para o teatro moderno algo semelhante ao que Rei Lear, de Shakespeare, significa para os clássicos. Tem o personagem maduro que a maioria dos grandes atores sonha interpretar. "Antes, ficaria caricatura, mas hoje, como um senhor, estou na idade certa e posso fazer o Hamm, mesmo que o medo de enfrentá-lo não tenha diminuído", assume Nanini.

Escrita em 1957, na ressaca do fim da Segunda Guerra Mundial, a peça confronta o cego e cadeirante Hamm e o serviçal Clov (papel de Weber), que alimentam uma relação de dependência física e emocional. Os abusos de poder e os constrangimentos se intensificam com a presença de Nell e Nagg (representados por Helena e França), os pais de Hamm, que vivem enterrados em latões de lixo. "Chegamos a um tempo em que presenciamos um eterno pós-apocalipse como o do texto de Beckett", comenta Nanini. "Quando pensamos que vamos respirar vem mais um golpe, uma guerra, uma notícia que complica as nossas vidas."

Partiu de Guilherme Weber, de 53 anos, a provocação de que era a hora de Nanini protagonizar Fim de Partida. Em cartaz com o espetáculo Traidor, escrito e dirigido por Gerald Thomas, Nanini passou por uma cirurgia no menisco em 2024 e entrava em cena em uma cadeira de rodas. Weber já o enxergou como Hamm e acreditou que poderia usufruir da oportunidade para trabalhar novamente com o ídolo. "Nanini é um realizador de sonhos na minha carreira", fala.

Os dois se conheceram em 2000. Nanini aplaudiu o espetáculo A Vida É Cheia de Som e Fúria, que revelou Weber e o diretor Felipe Hirsch, e o novato disparou para o veterano. "Um dos meus sonhos é fazer com você A Morte do Caixeiro Viajante", disse ele, em relação à peça do autor estadunidense Arthur Miller (1915-2005). Nanini planejava uma montagem com a atriz Marieta Severo, difícil de deslanchar, e pediu sugestões de textos para Weber e Hirsch.

Assim, surgiu Os Solitários, peça do norte-americano Nicky Silver, que, em 2002, além de Nanini, Marieta e Weber, trazia outro novato, Wagner Moura, dirigidos por Hirsch. "No processo, Nanini comprou os direitos de A Morte do Caixeiro Viajante, que estreamos em 2004", afirma Weber. "Eu me orgulho de ter trabalhado com os três artistas que sonhei, Fernanda Montenegro, Lima Duarte e Nanini."

Helena Ignez e Ary França em cena de 'Fim de Partida', peça de Beckett com Marco Nanini no elenco
Helena Ignez e Ary França em cena de 'Fim de Partida', peça de Beckett com Marco Nanini no elenco
Foto: Fernando Young/Divulgação / Estadão

Como queria o desafio da contracena com parceiros conhecidos, Nanini se lembrou de outro companheiro das antigas para fechar o elenco de Fim de Partida. Com o ator Ary França, de 69 anos, ele trabalhou em O Burguês Ridículo, de Molière, peça dirigida Guel Arraes e João Falcão em 1996. "Eu, que vinha de uma escola de comédia hedonista e iconoclasta, enxerguei em Nanini um ator disciplinado e comprometido com o público", observa França. "Para ele, o espectador não é um parceiro, é alguém que deve ser tratado com respeito e até sacralidade."

Nanini e França se reencontraram nas filmagens do longa-metragem Amor e Cia., de Helvécio Ratton, em 1998, e, no ano seguinte, uma tremenda química se revelou ao grande público da TV. Na novela Andando nas Nuvens, Otávio Montana (personagem de Nanini) é internado em uma clínica psiquiátrica e desenvolve afinidades com Juvenal, papel de França, que convivia com amigos imaginários - o que rendeu cenas impagáveis. "Graças a ele, eu me vejo ampliando a compreensão de Beckett a cada dia porque, mesmo fazendo um teatro do absurdo, o Nanini não deixa que nenhum de nós se esqueça de que subimos ao palco para contar uma história", completa França.

Marco Nanini e Guilherme Weber na peça 'Fim de Partida'
Marco Nanini e Guilherme Weber na peça 'Fim de Partida'
Foto: Fernando Young/Divulgação / Estadão

Se o objetivo era um bastidor tranquilo, Nanini pode se considerar feliz com o novo espetáculo. Ele garante que o trabalho em equipe é cada vez mais importante na sua vida e cita ainda o cenário de Daniela Thomas e a luz desenhada por Beto Bruel. Apesar disto, Nanini adora o processo solitário. Em casa, costuma ler e reler incontáveis vezes o texto, divide os diálogos em blocos e forma vários quebra-cabeças que, com seis décadas de carreira, ele sabe que será desmontado assim que entrar na sala de ensaios.

"No teatro, convivemos com cabeças diferentes e é interessante que todos tenham boa índole", comenta Nanini. "Helena, Guilherme e Ary são ótimos parceiros que já conhecia bem, Rodrigo é um diretor que conversa o tempo todo com o elenco e, se, nesta idade, posso desenvolver o projeto que desejo, quero todo mundo feliz."

Fim de Partida

  • Sesc Pinheiros - Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros. São Paulo
  • Quarta a sábado, 20h; domingo e feriado, 18h.
  • R$ 90. Até 31/5. A partir de quinta, 30/4.
Estadão
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