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Livro mostra inéditos e outro lado de Bernardo Guimarães nos 200 anos do autor de 'A Escrava Isaura'

Organizado por Francelina Drummond, Miscelânea reúne textos inéditos e esquecidos do escritor mineiro e reafirma sua relevância na literatura e na história do Brasil

21 ago 2025 - 09h06
(atualizado em 21/8/2025 às 10h45)
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Duzentos anos após seu nascimento, Bernardo Guimarães volta a ser debatido não apenas como figura histórica da literatura brasileira, mas como autor de uma obra que ainda dialoga com temas como escravização, identidade cultural e crítica social. É o que mostra Miscelânea, Nos Passos de Bernardo Guimarães, livro organizado pela pesquisadora Francelina Drummond que reúne escritos inéditos ou pouco conhecidos do autor, muitos publicados originalmente em jornais do século XIX e jamais editados em livro.

A ideia do livro nasceu da longa pesquisa de Francelina sobre a imprensa de Ouro Preto no século XIX, na qual identificou uma série de folhetins literários, crônicas políticas e poemas de Guimarães que permaneciam fora da bibliografia oficial. "Foi um trabalho imenso. Eu localizei duzentos e cinquenta jornais na cidade no período de setenta anos. A Escrava Isaura, por exemplo, chegou a ser publicada em folhetim antes de virar livro, mas essa versão foi interrompida", explica ela, em entrevista para o Estadão. Parte desse material foi encontrado em jornais mineiros, outros em acervos do Rio de Janeiro e de Goiás, onde o autor também atuou como juiz.

O caso de A escrava Isaura chama atenção por não constar nos registros tradicionais da história da literatura brasileira. Como era comum no século XIX, romances estreavam em formato seriado nos jornais, ocupando a parte inferior da primeira página e, às vezes, também a terceira. Em setembro de 1874, O Globo publicou três capítulos do romance, mas interrompeu a série a partir de 6 de setembro daquele ano, sem dar explicações. O espaço passou a ser ocupado, em 26 de setembro, por A Mão e a Luva, de Machado de Assis, sem interrupções. A razão veio de fora: o jornal O Apóstolo, dirigido pelo Monsenhor José Gonçalves Ferreira, iniciou uma campanha contra A Escrava Isaura.

A 'Miscelânea'

A seleção dos textos para o novo livro levou em conta tanto a relevância temática quanto a diversidade de gêneros explorados por Bernardo Guimarães, incluindo romances, poemas e matérias com reflexões publicadas originalmente na imprensa do século XIX. "É interessante porque ele vai criticar autores, poetas de renome na época que ele estava escrevendo. Foi muito ousado, muito determinado a fazer uma crítica, como ele mesmo diz, uma crítica científica. Por exemplo, ele tem coragem de criticar Gonçalves Dias", explica Francelina. A curadoria do material buscou equilibrar o interesse de dois perfis de leitores: o público geral, curioso pela obra do autor, e o leitor mais especializado, como estudantes de letras, jornalismo e pesquisadores.

Mais do que uma homenagem, Miscelânea é, nas palavras da organizadora, um convite à releitura. "Além de ser muito importante para a literatura contemporânea, é um capítulo da história nacional também. É um vigilante que vê isso tudo, capta e testemunha a história", afirma Francelina. Ela destaca ainda que o livro busca contribuir para a valorização da memória cultural de Ouro Preto e de Minas Gerais, reconectando leitores com a herança literária da região. A obra foi lançada nesta quarta-feira, 13, em evento da Semana Bernardo Guimarães, em Ouro Preto.

Do texto ao desenho

As ilustrações que compõem o livro também revelam uma dimensão afetiva e reflexiva da obra. Criadas pelo Atelier Dois Capelistas, composto por Leandro Vilar e Aurélio H. dos Santos, elas foram feitas em nanquim sobre papel, a partir de um mergulho profundo nos textos e no universo de Bernardo Guimarães. "Conforme você vai lendo, o seu cérebro sozinho já vai criando as imagens. Criar as ilustrações não foi difícil, a gente seguiu como se tivesse pegado na mão dele e saído andando. Ele nos guiou", conta Leandro. Ao longo do processo, o sentimento de melancolia presente nos escritos acabou transbordando para os desenhos, que carregam um tom introspectivo, irônico e crítico, fiel ao espírito do escritor.

Além de contribuírem visualmente para a leitura da obra, os artistas também ampliaram o projeto para além do livro. A partir das ilustrações, nasceu uma exposição no Museu Casa dos Contos em Ouro Preto e a criação do "Nos Passos de Bernardo Guimarães", um roteiro que mapeia 13 locais marcantes da trajetória do autor em sua cidade e nos distritos vizinhos. "Hoje, quando a gente anda pela cidade com nossa cachorra e passa pelos lugares que ele viveu, e que desenhamos, o olhar mudou. A gente refletiu sobre esses espaços, e isso transformou até o nosso cotidiano na cidade", diz Leandro.

Estadão
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