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'Livro de autodestruição': Jovens engajam com recomendação de obras tristes e clássicas; entenda

Em oposição à autoajuda, comunidades virtuais de leitores buscam por narrativas que exploram as contradições e dores da experiência humana; veja dicas de livros

1 jul 2026 - 08h25
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A busca por histórias que exploram o lado sombrio, complexo e contraditório da experiência humana é o mais novo fenômeno de engajamento no universo literário digital. A autora e influenciadora Clara Bueno, de 26 anos, ficou surpresa quando começou a compartilhar dicas de leitura e percebeu a reação do público aos temas densos. Em um de seus vídeos, ela lança a provocação: "Você é do time dos livros de autoajuda ou dos livros de autodestruição?". A resposta da internet evidenciou o fascínio crescente pelas narrativas que machucam e, paradoxalmente, também curam.

O que são livros de autodestruição?

Os chamados livros de autodestruição, que englobam diversos gêneros literários, vão, portanto, na contramão da autoajuda. A psicanalista e mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Ráissa Castro, de 30 anos, traça um paralelo claro entre os dois estilos. "A autoajuda tenta dar um contorno prático e reforçar o ego. Quando falamos de autodestruição, falamos sobre a experiência humana, que é devastadora e contraditória."

Para a especialista, a característica principal dessas obras reside na honestidade. "As pessoas se conectam a isso porque, quando colocamos a cabeça no travesseiro, sabemos que não é a nossa melhor versão que vamos encontrar. É a versão possível. Se voltarmos a Shakespeare, veremos que a literatura é violência, vingança, morte e amor proibido. É toda essa contradição."

Clara Bueno concorda e ressalta que "fórmulas prontas" nunca a atraíram. "Para quem gosta de mergulhar em uma história e entrar em uma realidade diferente, os livros de autodestruição conseguem, ao mesmo tempo que nos machucam, nos ensinar e até ajudar a curar algo. Já os de autoajuda são muito pragmáticos; eles ensinam algo para você aplicar, e não para você interpretar."

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Para Clara, o segredo está na prática da empatia. "Por meio de histórias distantes da nossa realidade, conseguimos entender que não estamos passando por uma experiência difícil sozinhos. Alguém já escreveu sobre aquilo antes de você sentir."

"É um livro bem profundo que toca em temas muito interessantes da existência humana. São três irmãos com visões completamente distintas de mundo. Os conflitos que surgem dentro deles são muito interessantes para vermos esse lado bem humano que Dostoiévski explorou como ninguém, e que traz também sempre um peso muito psicológico e filosófico." - Philipe Rodrigues.

  • Penguin-Companhia (Trad. de Cecília Rosas e Lucas Simone; 1.352 págs. R$ 99,90 | E-book: R$ 44,90)

3. 'Ensaio Sobre a Cegueira' - José Saramago (1995)

"É um livro que mudou a minha maneira de pensar a vida. É um autor que consegue, por meio de sentimentos tão contrastantes, nos fazer pensar sobre a nossa realidade e como ela é efêmera perto de tudo, e como o mundo que a gente constrói é um castelo de areia que pode ruir a qualquer momento. Essa foi uma literatura que me marcou muito." - Stênio Ribeiro.

  • Companhia das Letras (312 págs; R$ 92,90 | E-book: R$ 39,90)

4. 'Eu Que Nunca Conheci os Homens' - Jacqueline Harpman (1995)

"É uma ficção sobre a experiência de uma mulher que está em uma cela com outras 39 mulheres, sem nunca ter contato com outros seres humanos ou homens, até que elas conseguem sair dessa jaula e vão para o mundo. É um livro que elabora o que é ser humano e que vai trazer a autodestruição por tocar muito no desamparo, com reflexões interessantes sobre o que nos faz ser quem somos." - Ráissa Castro

  • Dublinense (Trad. de Diego Grando; 192 págs. R$ 69,90 | E-book: R$ 49,90)

6. 'Memórias de Minhas Putas Tristes' - Gabriel García Márquez (2004)

"Foi o mais perto que já cheguei de me emocionar com uma obra literária. É aquele livro que, quando terminamos de ler, nos sentimos tristes por não sermos capazes de escrever algo tão belo assim." - Stênio Ribeiro.

  • Record (Trad. de Eric Nepomuceno; 128 págs. R$ 69,90 | E-book: R$ 39,90)

7. 'Pão de Açúcar - Afonso Reis Cabral (2018)

"O livro é baseado na história real de Gisberta, uma mulher trans e brasileira morta por adolescentes portugueses em 2006. O ponto de vista narrado no livro é de um dos assassinos. Para mim, a narrativa é muito cruel, tanto pela narrativa ser do garoto, como também por eu saber que há uma história real por trás, que a Gisberta realmente passou por isso." - Clara Bueno.

  • HarperCollins (256 págs; R$ 59,90)

8. 'O Pássaro Secreto' - Marília Arnaud (2020)

"A narradora é uma garota de 14 anos que se depara com a chegada de uma irmã - filha fora do casamento do pai. Esse sentimento dela de ciúmes, que chama a atenção da família, faz com que ela comece a desenvolver sentimentos e ações que são totalmente controversos e complicados. É uma continuidade de desespero e angústia por ver essa personagem se perdendo dessa forma." - Clara Bueno.

  • José Olympio (196 págs; R$ 59,90)

9. 'Como Amar Uma Filha' - Hila Blum (2021)

"É um livro sobre uma mãe que faz o possível para a filha não sofrer. Talvez, proteger demais seja não deixar o passarinho voar, então, a narrativa traz essa experiência de uma certa autodestruição de uma relação pelo excesso de amor, que é algo presente na sociedade. Precisamos ter um trauma, um rasgo, para sairmos de casa e procurarmos uma outra coisa." - Ráissa Castro

  • Intrínseca (Trad. de Nancy Rozenchan; 240 págs. R$ 79,90 | E-book: R$ 54,90)
Estadão
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