'Língua', falada em português e libras por elenco bilíngue, não é uma peça sobre inclusão
Espetáculo dirigido por Vinicius Arneiro, que estreia no Sesc Consolação, mostra personagem que não ouve envolvido em conflitos que vão além da deficiência auditiva
Uma peça protagonizada por um ator surdo e falada simultaneamente em português e em libras por um elenco bilíngue sem que a acessibilidade seja a temática central. Esta é a bem-sucedida proposta de Língua, espetáculo carioca dirigido por Vinicius Arneiro, que ganha, enfim, a primeira temporada na cidade a partir desta sexta, 5, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação.
Lançada no Rio de Janeiro em junho de 2024, a montagem fez sucesso no Festival de Curitiba e realizou três sessões no ano passado na capital paulista, dentro da MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, e outras duas na Mostra 2025 Em Cena, organizada pela prefeitura, em dezembro.
Com dramaturgia assinada por Arneiro e Pedro Emanuel, Língua enfoca conflitos relacionados à adoção, homossexualidade, assédio sexual e diferenças culturais sem que a deficiência auditiva do motorista de táxi Matias (interpretado por Ricardo Boaretto) seja o mote da história. A manifestação do afeto sob diferentes perspectivas e a dificuldade de compreender o outro permeiam as situações. "A ideia sempre foi criar uma peça que não fosse sobre inclusão", explica o fluminense Arneiro, de 41 anos, que traz no currículo peças significativas como Cachorro!, Rebu e Colônia, todas vistas em São Paulo. "A questão é mostrar a convivência de duas linguagens no cotidiano."
Na trama, Virgínia (papel de Erika Rettl) organiza uma festa de aniversário para o filho Matias, rapaz surdo que cresceu cercado de pessoas ouvintes. Para a comemoração aparecem o amigo de infância Tom (o ator Jhonatas Narciso), Julieta (a atriz Luize Mendes Dias), por quem o protagonista é apaixonado, e Félix (vivido por Filipe Codeço), colega de trabalho de Matias e o único que precisa se adaptar ao grupo acostumado à linguagem de sinais. "O Félix é um representante do público ouvinte no palco", define Codeço, de 42 anos. "Todo mundo entende o que acontece e ele, em um primeiro momento, sente um estranhamento por não parecer incluído."
Em meio aos sentimentos desencontrados dos personagens, diferentes discussões vêm à tona para mostrar que o universo de um surdo é tão amplo quanto o de qualquer ouvinte. O fato de Matias ser um deficiente auditivo é um detalhe na ficção e seus conflitos poderiam ser enfrentados por qualquer um. "O espetáculo é todo pensado em uma subjetividade não ouvinte", afirma Codeço. "É importante que surdos e ouvintes se encontrem na plateia e se enxerguem da mesma maneira nos personagens."
Este é o grande diferencial da dramaturgia construída por Arneiro e Emanuel, que contou com a consultoria da artista surda Catharine Moreira, e venceu o Prêmio Shell carioca no ano passado. O protagonista é carregado de contradições, longe da figura de um herói por superar limitações no dia a dia e, por vezes, pode apresentar um caráter questionável, fugindo de qualquer mitificação. "O nosso maior desafio foi fazer jus às complexidades dos seres humanos", declara Arneiro.
O ator carioca Ricardo Boaretto, de 43 anos, que representa Matias, estudou teatro por pouco tempo na infância - e não se sentiu à vontade. Adulto, ele fez outras aulas de intepretação, mas nenhuma específica para surdos, e só se encontrou quando conheceu o trabalho do Grupo Moitará, que oferece cursos de formação artística para surdos. Língua é sua primeira peça profissional, e a participação lhe abre perspectivas de ser escalada para outros projetos. Além de ator, Boaretto é poliglota e trabalha como tradutor para quatro idiomas de sinais. "Língua me fez derrubar uma barreira de vida e prova que é possível criar uma peça falada e em libras simultaneamente", declara.
Vinicius Arneiro se emociona ao se lembrar de reações de espectadores desde a estreia. Uma das mais impactantes aconteceu no Sesc Copacabana, no Rio, com uma mulher ouvinte de cerca de 50 anos que levou o pai surdo, de aproximadamente 80, para assistir à montagem. Foi a primeira vez que ele pisou em um teatro. O sujeito sempre acreditou que não se sentiria confortável devido a impossibilidade de compreender a história e saiu da sala emocionado. "O recurso da tradução em libras propagado nos últimos anos é importante, mas muitos surdos se queixam que precisam ficar concentrados apenas no intérprete no canto do palco", comenta o diretor.
Boaretto explica melhor qual é a sensação ao acompanhar uma peça com a tradução em libras. Para ele, o espectador surdo assiste a um espetáculo pela metade o que proporciona uma experiência bastante diferente daquela oferecida aos ouvintes. "O nosso foco fica em um canto do palco e perdemos, por exemplo, grande parte da encenação e detalhes do trabalho dos atores", conclui Boaretto.
Língua
- Teatro Anchieta - Sesc Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 245 - Vila Buarque, São Paulo)
- Quinta a sábado, 20h; domingo, 18h. Até 28/6. Abre 5/6. Não haverá sessões nos dias 13 e 19, datas de jogos do Brasil na Copa do Mundo
- R$ 60
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