A falta que Galeano e a copa nos fazem
Um novo mundial só em quatro anos e o Uruguai do escritor ganhou o prêmio de consolação de receber uma mísera partida; o texto abaixo é uma ficção, mas frases atribuídas a Eduardo Galeano vieram do livro 'Fechado por motivo de futebol', póstumo, e que reúne textos sobre o esporte
Nunca vou esquecer, pois o chão que dá acesso à arquibancada era de grama e terra batida poeirenta. Deve ser assim até hoje num estádio que - 100 anos depois daquela constituição - recebeu partidas de Copa do Mundo.
A Copa do Mundo, aliás, que acabou de acabar. E falar de Copa do Mundo é precisamente o que eu vim fazer aqui hoje. Com Ele.
Nada é mais acolhedor do que uma livraria. Mas uma livraria no Uruguai é mais acolhedora do que uma no Rio de Janeiro, por exemplo. E essa aqui que eu acabei de entrar é daquelas de filme - ou de manual.
Mesas abarrotadas de livros, paredes abarrotadas de livros em estantes, um mezanino, adivinha… pois é, também abarrotado de livros. Mas essa livraria tem um porão, e nesse porão tem pedras nas paredes, muitas pedras. Mas ao contrário do que parece à primeira vista, o local é iluminado.
Também é acolhedor. Num canto à direita de quem entra, está Ele.
Confortavelmente sentado em uma poltrona, com uma taça de vinho, taça colocada em uma mesinha do seu lado esquerdo - sempre o lado esquerdo. Vejo uma cadeira, que parece bem mais confortável que a dele, e uma televisão está ligada na final do mundial de futebol.
Galeano acompanha os últimos momentos da vitória da Espanha contra a Argentina. Messi acaba de perder mais uma, como no Brasil em 2014. Não resisto e pergunto sobre Messi, mas Ele prefere responder sobre Maradona, um gênio que fez em uma mesma Copa do Mundo, a do México, em 1986, dois dos mais maravilhosos gols da história dos mundiais.
"Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou".
Peço licença, me sento.
A televisão agora exibe uma série infindável de comerciais, de muitas das marcas que também patrocinam a Copa do Mundo. Ele se lembra que houve uma época, em Buenos Aires, que não se tratava mais de um Boca Juniors contra River Plate, mas de um clássico Quilmes contra Quilmes porque a marca de cerveja patrocinava os dois supertimes.
"Poder-se-ia dizer que a Adidas venceu a Nike quando a França derrotou o Brasil no final do Mundial de 1998", diz o escritor após beber um gole de vinho e mordiscar um queijo. Lembro a Ele que essa final suscitou uma série de teorias da conspiração no Brasil, muitas delas sugerindo que as duas marcas esportivas mais importantes do mundo tinham alguma coisa a ver com o drama de Ronaldo e com a glória de Zidane. Lembro que isso parece comum no meu País.
Ele diz que no Uruguai também a vitória é importante e que no futebol, quando ela acontece, é sempre por providência da tal garra charrua. Só que, ele completa, "No ano de 1832, os poucos índios charruas que tinham sobrevivido à derrota de Artigas foram convidados a firmar a paz, e o presidente do Uruguai, Fractuoso Rivera, prometeu que eles iam receber terras". Receberam comida, bebida, adormeceram. Os soldados entraram em ação e os charruas foram libertados de sua vida a golpes de punhal.
Barbosa e a glória eterna de 1950
Não sabia da história, me atrapalho com tanta coisa na mochila - bloquinho, gravador, caneta e máquina fotográfica. Bem ou mal, vou começar a entrevista…
Mas aí eu lembro da história do Barbosa. A tragédia do Brasil em 1950 é a glória dos uruguaios que me cercam. Como a glória de 1994 para nós é a tragédia inominável dos italianos e de Baggio. Ninguém pagou tanto por aquela derrota do que Barbosa, o nosso goleiro de então. Não me furto de questionar o mestre, afinal, Galeano tem certeza da cerimônia do exorcismo.
"Treze anos depois, quando o estádio do Maracanã renovou seus arcos, Barbosa levou com ele os três pedaços de madeira onde aquele gol o havia humilhado. E partiu a madeira a machadadas, e queimou tudo até tudo virar cinzas". Eu nunca acreditei nessa história, mas será que não é verdade? Começo a duvidar e imaginar a cena quando o gato branco da entrada pula no meu colo. Carrega um cordão atado ao pescoço com um bilhete que diz. "Conheço um (arghh) cachorrinho que se chama Pickles. Ele sabe onde está a Jules Rimet e eu posso levá-lo até ele".
É tentação demasiada.
Que eu saiba, a taça foi roubada e recuperada na Inglaterra e depois roubada e jamais recuperada no Rio de Janeiro, lá onde estão as livrarias menos aconchegantes do mundo…. Será que a taça nunca deixou de existir?
Será?
Peço licença a Galeano, que vai entender, digo que me vou e que preciso seguir aquela pista felina. Mas ele se levanta, veste um sobretudo duzentas vezes mais elegante que o meu casaco moderno azul marinho de grife. Ele diz que iniciar essa busca da Jules Rimet é uma forma de homenagem aos verdadeiros protagonistas do futebol, os verdadeiros donos da festa.
"No futebol profissional, os deveres sobram: aceitar decisões alheias, a disciplina militar, os treinos extenuantes, as partidas que são disputadas dia sim e outro também, a obrigação de render mais a troco de menos…"
O interrompo…. vamos por eles.
Para entender
O texto acima é uma ficção, menos as frases atribuídas ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, que já não pode mais acompanhar copas do mundo, pelo menos não daqui da Terra. Todas as frases atribuídas a ele estão no livro Fechado por motivo de futebol, póstumo, e que reúne textos sobre futebol e pelo menos uma entrevista e um discurso de premiação atribuídos ao autor.
A biblioteca existe naquele mesmo endereço mencionado, o gato branco - infelizmente - não.
Mas os livros, esses monumentos à derrota, estão todos lá, continuam todos lá e continuarão em uma prateleira, em algum lugar do mundo, para sempre.
A próxima Copa do Mundo vai acontecer precisamente 100 anos após a primeira disputa em 1930. Ela vai ocorrer na Espanha, agora de novo campeã do mundo, em Portugal, que nunca vai ganhar um mundial, e no Marrocos, que bem poderia vencer o próximo. O Uruguai, como prêmio de consolação ortogado pela Fifa, amiga de todas as horas de Donald Trump, vai ganhar o direito de receber apenas uma partida de primeira rodada.
É muito pouco, sobretudo por causa de Galeano.
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