Katia Adler promove Festival do Cinema Brasileiro em Paris com homenagens a vários artistas
Fundadora do evento comenta os desafios de exibir a produção atual na França e a questão política inerente à sétima arte
Diretora de curtas e documentários, Katia Adler se tornou uma referência da promoção da cultura brasileira no exterior, com atuação em diferentes países, incluindo Suíça, Qatar e Canadá.
Ela é a idealizadora e produtora do ‘Le Festival du Cinéma Brésilien de Paris’. A 28ª edição acontece de 7 a 14 deste mês, no Cinéma L’Arlequin.
Entre os longas a serem exibidos estão ‘Malês’, ‘Manas’, ‘Vitória’, ‘Decreto Presidencial’ e ‘O Agente Secreto’.
Em entrevista à coluna, Katia Adler comenta sobre os artistas homenageados desta edição, os apoios para a realização do evento e a importância de mostrar no exterior a diversidade de realidades do Brasil por meio dos filmes.
Como chegaram à escolha de Taís Araújo e Lázaro Ramos como homenageados desta edição do Festival?
É a primeira vez que um casal é homenageado pelo festival, depois de homenagear em 2024 Antônio Pitanga; e em 2025, Dira Paes. A escolha de Taís Araújo e Lázaro Ramos tornou-se evidente, não apenas pela importância de suas carreiras individuais, mas também pelo impacto simbólico de sua trajetória como dupla no audiovisual e na cultura brasileira, como referência para as novas gerações e exemplo de engajamento político e social.
O saudoso ator e humorista Paulo Gustavo também receberá uma homenagem. Como acontecerá?
Sem dúvida, será o segundo momento mais forte do festival. A homenagem a Paulo Gustavo contará com a presença da diretora Susana Garcia e das atrizes Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, que virão a Paris para apresentar um teaser de seu novo filme (‘Minha Melhor Amiga’), com lançamento previsto para maio, durante a sessão especial de homenagem. Para esta sessão, escolhemos o filme ‘Minha Mãe é uma Peça’, permitindo que muitos jovens possam descobrir, pela primeira vez, o cinema de Paulo Gustavo na tela grande. A homenagem recebe o título ‘Eles por Elas’.
O Festival se destaca por projetar o melhor do cinema brasileiro na Europa. O evento conta com apoio governamental, de representantes da política e apoiadores financeiros?
Nosso objetivo é apresentar o melhor do cinema brasileiro contemporâneo, valorizando a diversidade de olhares, gêneros e propostas, por meio de uma curadoria que reflita a riqueza da produção atual no Brasil. O festival conta, desde a sua criação, com o apoio institucional da Embaixada do Brasil em Paris e da Prefeitura de Paris. Nos últimos três anos, o evento também contou com o patrocínio da Embratur. No entanto, o que ainda nos falta é um patrocínio estruturante e de longo prazo, que possa acompanhar o festival ao longo dos próximos anos e fortalecer de forma consistente o nosso trabalho, como já ocorreu em outras fases com instituições como a Petrobras, o BNDES ou a Caixa Seguradora. Um apoio desse porte é fundamental para garantir a sustentabilidade do festival e ampliar ainda mais seu impacto cultural na Europa.
Hoje, os filmes brasileiros têm mais facilidade de despertar a atenção do público e da imprensa na França? Há espaço no mercado de exibição?
Acredito que sim. Hoje percebemos uma presença cada vez maior de filmes brasileiros no circuito comercial na França, o que demonstra um interesse crescente tanto do público quanto da imprensa. Além disso, depois da realização do nosso festival, recebemos muitos pedidos de outros festivais e programadores interessados em exibir os filmes apresentados. Existe, de fato, uma curiosidade real e um espaço cada vez mais aberto para o cinema brasileiro no mercado de exibição francês.
Em que medida o cinema brasileiro apresentado na França contribui para reformular a imagem do Brasil no imaginário europeu?
Contribui de forma muito concreta. Ao apresentar filmes contemporâneos, autorais e diversos, mostramos um Brasil muito mais complexo, plural e atual do que os estereótipos ainda frequentemente associados ao país. As obras revelam diferentes realidades sociais, regiões, gerações, linguagens cinematográficas e questões universais, aproximando o público europeu das experiências humanas retratadas no cinema brasileiro. Na prática, o que percebemos é que esses filmes ajudam a deslocar o olhar sobre o Brasil: deixam de ser vistos apenas por imagens exóticas ou folclóricas e passam a ser reconhecidos como produções artísticas fortes, politicamente relevantes e esteticamente inovadoras. Isso fortalece a presença do cinema brasileiro no mercado internacional e contribui para construir uma imagem mais contemporânea, crítica e diversa do país.
Os franceses costumavam privilegiar um certo tipo de narrativa brasileira, mais social e política. Isso ainda acontece ou o interesse se tornou mais diverso?
Sim, esse olhar ainda existe. Durante muito tempo, o público e os profissionais franceses tendiam a associar o cinema brasileiro a um certo tipo de narrativa, mais marcada por temas sociais e políticos, como o sertão, as favelas, as desigualdades sociais ou a história da ditadura. No entanto, o interesse vem se tornando cada vez mais diverso na França. Ainda há uma expectativa em relação a esse imaginário tradicional do Brasil, mas percebe-se hoje uma abertura maior para outros gêneros, formatos e formas de contar histórias. É justamente por isso que considero o festival tão importante: buscamos programar filmes muito diferentes entre si, que apresentem toda a diversidade de narrativas, de estilos e de temas do cinema brasileiro contemporâneo, ampliando o olhar do público francês sobre o que é, hoje, o cinema feito no Brasil.
Você se considera uma resistente da cultura diante das variadas dificuldades de promover o audiovisual brasileiro no exterior?
Eu me vejo, antes de tudo, como alguém profundamente comprometida com a circulação do cinema brasileiro na França. É claro que existem muitas dificuldades — financeiras, institucionais e de visibilidade —, mas acredito que promover o audiovisual do Brasil no exterior é, hoje, um verdadeiro trabalho de resistência cultural. Resistência no sentido de manter um espaço ativo e contínuo para esses filmes, de insistir na diversidade de olhares, de linguagens e de narrativas, e de construir, ano após ano, um diálogo sólido com o público e com os profissionais europeus. Mais do que resistir, eu diria que é uma forma de acreditar no poder do cinema como ferramenta de encontro, de reflexão e de representação, e de não abrir mão de mostrar a riqueza e a complexidade da produção brasileira, mesmo em contextos cada vez mais desafiadores.
Como estão os outros festivais sob sua direção, em Portugal, Montreal e Toronto?
Em 2025, encerrei meu ciclo à frente do festival francês em Portugal. Foram cinco anos de trabalho e uma experiência extremamente enriquecedora. Considero que cumpri minha missão. Convidei um grupo de brasileiros para assumir a continuidade do festival de Toronto, do qual fui produtora durante 17 anos. Já o festival de Montreal completa 20 anos este ano, e espero que esta edição seja um verdadeiro marco. Trata-se do evento dedicado ao cinema brasileiro mais antigo em atividade no Canadá, com uma adesão muito forte tanto do público brasileiro quanto do público canadense. Além disso, temos uma parceria histórica com o Cinéma du Parc, que nos acompanha desde a primeira edição do festival.
No Brasil, o cinema continua sob ataque ideológico por uma parcela numerosa da sociedade polarizada. Como avalia essa hostilidade contra os artistas e os realizadores?
A hostilidade contra artistas e realizadores no Brasil reflete, sobretudo, o clima de forte polarização que o país vive há alguns anos. O cinema, como toda manifestação cultural, acaba se tornando um alvo fácil quando passa a ser visto apenas por uma lente ideológica, e não como um espaço legítimo de criação, reflexão e diversidade de pensamento. O que mais preocupa é que esse tipo de ataque tenta deslegitimar o trabalho artístico e enfraquecer políticas culturais fundamentais para a existência do próprio setor. Ainda assim, o que vemos é uma enorme capacidade de resistência dos realizadores brasileiros, que continuam produzindo, inovando e dialogando com o público, no Brasil e no exterior. Para mim, essa vitalidade do cinema brasileiro — apesar das pressões e dos discursos hostis — é justamente a prova da sua força cultural e da sua importância para a sociedade.
Uma polêmica no Festival de Berlim suscitou uma questão relevante: o cinema deve ou não ser político e ativista? Qual a sua opinião?
Na minha opinião, o Festival Internacional de Cinema de Berlim sempre foi um festival profundamente político. Basta observar, ao longo dos anos, os filmes que foram premiados em Berlim para perceber que o festival valoriza obras que dialogam diretamente com o seu tempo, com questões sociais, históricas e humanas.