'A Lei e o Crime' acerta ao apostar na estética da violência
Nada de romances. O que vale é o delito. A estética do exagero e da violência está de volta em
A Lei e o Crime, minissérie da Record com 16 episódios previstos.
E volta com muito sucesso: Em sua estréia tomou de assalto a audiência e foi líder no Rio de Janeiro, com média de 23 pontos de audiência e pico de 25. Em São Paulo, ficou na vice-liderança, com 18 de média e 19 de pico.
A Lei e o Crime repete assumidamente a temática que levou a emissora a conquistar bom ibope com a novela Vidas Opostas, exibida em 2006.
Marcílio Moraes é o autor das duas obras e nessa minissérie ele repete os mesmos elementos da trama anterior: a criminalidade urbana, o tráfico de drogas e a repressão policial. Desde a redescoberta da favela pelo cinema brasileiro, a partir de Cidade de Deus, de 2002, a teledramaturgia também passou a se interessar pelo tema, tratado de forma bastante diferente daquela que os noticiários apresentam os moradores das favelas e das periferias.
No lugar do criminoso anônimo, do manifestante que tumultua a ordem da cidade ou simplesmente do cadáver apresentado pelo telejornalismo, aqui a bandidagem ganha ares épicos, corações valentes e um nome e sobrenome.
São guerreiros do asfalto, onde apenas os mais fortes sobrevivem. Ninguém é exatamente bom ou ruim. É o que o protagonista Nandinho da Bazuca, de Ângelo Paes Leme, explica, antes de matar Anderson, de Cláudio Gabriel, seu rival no tráfico: "É a única maneira de eu sobreviver".
O personagem principal poderia sucumbir a uma representação social mecanicista e didática, como o homem bom submetido ao mundo mau. Mas Ângelo Paes Leme deixa Nandinho flutuar entre a uma lógica cínica e um ódio contido que o transformam em um acabado vilão.
Outros atores constroem personalidades igualmente confusas, nas quais sentimentos e estratégias se misturam de forma irracional. Em poucas cenas, Raquel Nunes construiu uma antológica Olímpia. Mulher de Nando, ela sabe que o marido matou o pai dela e, entre o medo e a fidelidade, apóia o assassino com pureza e intensidade carnal.
Mesmo Caio Junqueira - a despeito do ridículo bigodinho de policial corrupto - faz de seu Romero um policial pleno de justiça ao fuzilar crianças e torturar inocentes. Destaque absoluto para o Silvio Guindane, como o contador do tráfico Valdo, que contabiliza riscos e lucros com rara lucidez em um personagem de folhetim.
De resto, o Counter Strike. As diversas cenas de tiroteio parecem saídas deste "game" de computador, sucesso entre adolescentes. Tudo é exacerbado - o som das armas, a ação vertiginosa, os cortes nas imagens e as cada vez mais espetaculares explosões.
A estetização da violência de Alexandre Avancini ganhou uma fotografia esmerada e uma óbvia sonoplastia. Musicar com bossa nova o inexpressivo núcleo rico é tão evidente quanto às notas soltas de piano para conotar suspense em A Favorita. Um réquiem para o milionário Alcebíades: Nildo Parente morre como ninguém.
A Lei e o Crime - Record - Segunda, às 23h.