França, paraíso dos ladrões de arte? Série de assaltos expõe fragilidade dos museus do país
O mais recente roubo ao Museu Renoir, em Cagnes-sur-Mer, no sul da França, reacendeu o debate sobre a segurança das instituições culturais do país. O caso ocorre menos de um ano após o furto de joias da Coroa da França no Louvre e se soma a uma série de crimes recentes que vêm colocando em xeque a capacidade dos museus franceses de proteger obras e objetos de alto valor histórico e financeiro.
Um recente roubo no Museu Renoir, que resultou na perda de duas obras estimadas em milhões de euros, expôs novamente a fragilidade da segurança nos museus franceses. O episódio se soma a uma série histórica e recente de assaltos a instituições culturais pelo país, incluindo o Louvre e o Museu Lalique. Diante da vulnerabilidade e de cobranças por apoio financeiro, o governo da França busca reforçar a proteção desses espaços por meio de medidas e protocolos de segurança mais rígidos.
Na madrugada desta terça-feira (8), dois ladrões invadiram o Museu Renoir, dedicado ao pintor impressionista Auguste Renoir, e roubaram quatro obras de arte. Durante a fuga, porém, abandonaram dois dos quadros nos jardins do próprio museu. Uma investigação foi aberta.
"As sirenes do museu e da polícia fizeram com que os ladrões se apressassem e só roubassem quatro obras do Museu Renoir, das 12 que o museu abriga", relatou o prefeito de Cagnes-sur-Mer, Bryan Masson. Segundo ele, os dois quadros deixados para trás foram encontrados "abandonados nos jardins" do museu municipal.
Em comunicado anterior, quando ainda mencionava apenas uma obra recuperada, o prefeito estimou em € 9 milhões (cerca de R$ 53 milhões) o valor das peças roubadas.
Criado em 1960, o Museu Renoir funciona na última residência onde Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) viveu, perto de Nice. Além do mobiliário original, o local conserva objetos pessoais do artista, incluindo seu cavalete e sua cadeira de rodas, além de retratos, paisagens e nus produzidos pelo pintor.
Segurança dos museus volta a ser questionada
O prefeito Bryan Masson, integrante do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), afirmou que o episódio revela um problema que vai muito além de sua cidade. Em comunicado da prefeitura, ele pediu que o governo francês "assuma plenamente sua parte e ofereça apoio financeiro aos municípios e aos estabelecimentos culturais".
O roubo em Cagnes-sur-Mer ocorre quase um ano após o assalto ao Louvre, o museu mais visitado do mundo. Na ocasião, oito joias da Coroa da França desapareceram da Galeria de Apolo, em Paris. O prejuízo foi estimado em € 88 milhões (mais de R$ 520 milhões). Até hoje, o paradeiro das peças segue desconhecido.
Desde então, o ministério francês da Cultura transformou o reforço da segurança dos museus em prioridade. O governo apresentou, em julho, um plano com 33 medidas de proteção. Entre as recomendações está a retirada temporária de determinadas peças das vitrines. A iniciativa busca "colocar em segurança, em locais apropriados que serão identificados para cada departamento, os objetos mais vulneráveis enquanto se aguarda a segurança adequada para sua exposição", explicou o ministério em comunicado.
Ainda assim, novos casos continuaram sendo registrados. No início de julho, ladrões roubaram peças de joalheria do Museu Lalique, em Wingen-sur-Moder, ao norte de Estrasburgo. O prejuízo foi estimado em mais de € 4,5 milhões (mais de R$ 26 milhões). Já no fim de julho, um colar de ouro pertencente ao Tesouro de Vix, conjunto arqueológico da época celta enterrado há cerca de 2.500 anos na Borgonha, foi levado em plena manhã de um museu em Châtillon-sur-Seine. A instituição já havia sido alvo de duas tentativas anteriores de invasão.
Uma longa lista de roubos célebres
O caso do Museu Renoir se soma a uma série de furtos que marcaram a história recente dos museus franceses. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 2010, quando cinco obras de Picasso, Matisse, Braque, Modigliani e Léger, avaliadas em mais de € 100 milhões (R$ 590 milhões), desapareceram do Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris. O ladrão se aproveitou de uma grave falha no sistema de segurança: os detectores de movimento estavam fora de funcionamento havia dois meses. Nenhuma das pinturas foi recuperada.
Outro episódio célebre envolveu o pastel "Os Coristas", de Edgar Degas, roubado em 2009 do Museu Cantini, em Marselha. A obra só foi reencontrada oito anos depois, dentro de um ônibus de turistas durante uma operação alfandegária na região de Paris.
Em 2007, cinco homens armados invadiram o Museu de Belas Artes de Nice e levaram quatro quadros segurados por mais de € 12 milhões: duas obras de Bruegel, uma de Sisley e uma de Monet. Os quadros foram recuperados dez meses depois.
Até Mona Lisa já foi roubada
Voltando mais no tempo, em 1985, a obra-prima impressionista "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet, foi roubada do Museu Marmottan junto com outras oito obras. O quadro foi encontrado dez anos depois em um apartamento em Porto-Vecchio, na Córsega. Já em 1976, nada menos que 118 obras de Pablo Picasso foram roubadas de um museu em Avignon antes de serem recuperadas.
O caso mais famoso, porém, continua sendo o desaparecimento da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, do Louvre, em 21 de agosto de 1911. O autor do furto era um vidraceiro italiano que havia trabalhado na instalação das proteções de vidro do museu. Após manter a pintura escondida por dois anos, ele tentou vendê-la a um antiquário em Florença, o que levou à sua captura. Vincenzo Peruggia foi julgado na Itália e condenado a sete meses de prisão.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.