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Festival de Richard Wagner na Alemanha faz 150 anos sem apagar "passado sombrio"

3 ago 2026 - 16h06
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Antissemitismo do compositor predileto de Hitler gerou nova polêmica em Bayreuth, com vai e vem em concerto em memória ao Holocausto e encenação de ópera que fascinou o líder nazista.Controvérsias costumam fazer parte do Festival de Bayreuth. O evento na cidade de mesmo nome no sul na Baviera, criado por Richard Wagner (1813-1883) e que chegou à 150ª edição em 2026, é indissociável do passado antissemita do compositor favorito de Adolf Hitler. Ao menos recentemente, o enfrentamento dessa história também tem sido um dos desafios por parte da família Wagner, a organizadora do festival.

Mas nem sempre com sucesso. Neste ano, a maior polêmica ficou a cargo de um concerto em memória do Holocausto, no âmbito do evento, inicialmente cancelado por "motivos de segurança" e "descancelado" após uma chuva de críticas.

A apresentação, intitulada "Vozes Silenciadas", ocorreu em 26 de julho, logo antes da estreia no Festival de Bayreuth da ópera "Rienzi", conhecida como a obra preferida de Hitler. O concerto incluiu releituras de Wagner, Gustav Mahler (1860-1911) e do compositor judeu Pavel Haas (1899-1944), assassinado no campo de concentração de Auschwitz. O programa tinha o objetivo de ajudar a enfrentar a própria história do festival e homenagear músicos judeus perseguidos pelo regime nazista - a organização destinou toda a renda do "Vozes Silenciadas" a bolsas de estudo para músicos israelenses.

Além das peças orquestrais, o festival convidou o jornalista, escritor e ex-vice-presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, Michel Friedman, para discursar sobre oantissemitismo de Richard Wagner e o seu legado. "Ainda há algo que não está certo aqui", disse ele no discurso - dias depois do desastrado vai e vem em torno da realização do evento.

De acordo com os organizadores, o cancelamento tinha ocorrido porque o festival era incapaz de garantir o maior nível de segurança em torno de Friedman devido à "atual situação global", como descreveu o diretor-geral interino Heinz-Dieter Sense à emissora alemã Bayerischer Rundfunk antes do "descancelamento". As autoridades locais, no entanto, declararam à DW não terem participado do planejamento de segurança.

A situação gerou indignação de Friedman, que afirmou, também à DW, ter se sentido "totalmente esquecido" após o cancelamento. Mas a situação acabou contornada pela diretora do Festival de Bayreuth, Katharina Wagner, bisneta do compositor, que pediu desculpas e "reconvidou" Friedman.

Passado sombrio

Uma das principais vozes judias nos debates sobre antissemitismo e passado nazista na Alemanha, Friedman não poupou palavras no discurso, seguindo a mesma linha do que havia afirmado ao Süddeutsche Zeitung poucos dias antes: "O solo em Bayreuth está contaminado".

"Neste fim de semana começa o novo Bayreuth, a nova ordem de revisão, de desenterrar, de falar sobre o compositor, sobre a história da família - e de tornar público, com toda a clareza, o uso indevido da música", afirmou ele.

Friedman lembrou que, na refundação do festival em 1951, discussões políticas eram evitadas pela família do compositor, seguindo o lema "o que importa é a arte", citação da ópera "Os Mestres Cantores de Nuremberg": "Como se fala com carinho da Colina Verde [sede do festival], na esperança de que não se veja a terra marrom que há por baixo".

Mas as críticas não vieram só de Michel Friedman. Anno Mungen, diretor do Instituto de Pesquisa em Estudos de Teatro Musical da Universidade de Bayreuth, também disparou contra a direção do festival em uma entrevista ao jornal semanal Die Zeit, acusando a organização de "desconhecimento histórico" por decidir encenar a "Rienzi" pela primeira vez na história do Festival de Bayreuth.

O líder nazista ficou fascinado por Wagner e, em especial, pela história em "Rienzi" muito após a morte do compositor. "O que atraiu Hitler na ópera foi o protagonista, um homem que alcança grande poder graças ao seu carisma", explica Sven Friedrich, diretor do Richard Wagner Museu em Bayreuth, à DW.

Hitler admirava o estilo monumental de Wagner e as melodias recorrentes utilizadas pelo compositor nascido em Leipzig. A música wagneriana foi apropriada pelo regime nazista para fins de propaganda e utilizada como parte do tormento psicológico infligido nos campos de concentração. Cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados durante o Holocausto, nos campos de concentração e por meio de execuções em massa realizadas pelo regime nazista.

Wagner e o antissemitismo

Essas associações continuam a lançar uma sombra sobre o festival, juntamente com o próprio caráter controverso do compositor. Wagner era antissemita convicto e, em 1850, publicou o ensaio O judaísmo na música, no qual argumentava que os judeus careciam de identidade artística autêntica e se limitavam a imitar os outros.

"Sempre houve uma corrente subjacente de antissemitismo em Bayreuth, e Cosima, esposa de Wagner, também era antissemita", explica Friedrich. "Os filhos e netos que cresceram aqui na província da Francônia, com poucas influências externas, absorveram parcialmente essas atitudes", diz.

Hitler desenvolveu uma estreita amizade com o filho de Wagner, Siegfried, e, especialmente, com a esposa de Siegfried, Winifred Wagner. O líder nazista visitava com frequência a mansão da família Wagner - hoje sede do Museu Richard Wagner. "O Festspielhaus [casa de ópera erguida por Wagner na Colina Verde] era algo como seu teatro da corte real", acrescenta Friedrich.

Após a Segunda Guerra, Winifred Wagner e seu filho Wieland passaram pelo processo de desnazificação conduzido pelos Aliados. Para livrar o festival de associações com o nazismo, Winifred cedeu oficialmente seus direitos aos filhos, Wieland e Wolfgang.

Enfrentando dificuldades financeiras e ansioso por distanciar o festival de seu passado, Wieland reinventou as óperas do avô com produções simples e minimalistas que passaram a definir o estilo da "Nova Bayreuth". Após a morte de Wieland, Wolfgang assumiu a liderança exclusiva e começou a convidar diretores de fora do festival para encenar as produções. "Ele abriu caminho para uma gama muito mais ampla de estilos artísticos", conta Friedrich.

Nos últimos anos, Katharina Wagner, bisneta de Richard Wagner, tem buscado revitalizar o festival mais uma vez, pensando no futuro e lançando mão de iniciativas como o uso de realidade aumentada e inteligência artificial, ao lado das discussões sobre o passado controverso do bisavô.

No domingo (02/08), a tecnologia, no entanto, foi o alvo da mais nova polêmica do Festival de Bayreuth. Durante a apresentação de Crepúsculo dos Deuses, quarta e última ópera da tetralogia O Anel do Nibelungo, uma projeção de imagens produzidas com inteligência artificial irritou o público. Ao final da apresentação, o curador Marcus Lobbes e sua equipe foram recebidos pelos espectadores com vaias. Basta saber se, ao menos no caso da IA, a indisposição se repetirá: ainda há duas outras performances da apresentação durante a edição deste ano, que se encerra em 26 de agosto.

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