Waltz diz que seria "estúpido" interferir em roteiro de Tarantino
O mundo conheceu esse austríaco quando ele estava na pele do coronel nazista Hans Landa, em Bastardos Inglórios (2009). O filme do renomado e polêmico diretor Quentin Tarantino rendeu a Christoph Waltz o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Agora, a dobradinha está de volta no filme Django Livre, que estreia no Brasil nesta sexta-feira (18). O personagem de Waltz, Dr. King Schultz, é quase uma reedição do caçador de judeus, com o mesmo senso de humor apurado e sarcástico, mas com a missão de caçar recompensas, tendo como cenário o sul dos Estados Unidos, anterior a Guerra Civil. Pela atuação impecável, Waltz está mais uma vez na seleta lista dos concorrente à estatueta dourada de Melhor Ator Coadjuvante.
O ator, 56 anos, conversou com jornalistas em Los Angeles e apesar de seus 35 anos de carreira, parece que quer esquecer boa parte dela, ou melhor, 30 anos, que segundo ele representaram muito pouco. Nesse período, ele fez teatro, filmes e séries, principalmente para redes de televisão da Alemanha, um sucesso que em nada pode ser comparado ao de depois de atuar em Bastardos Inglórios. Agora, ele se dá ao luxo de escolher, dentre tantos convites, aqueles que realmente valem a pena: numa das próximas produções, Reykjavik, será Mikhail Gorbachev e contracenará com Michael Douglas que interpretará Ronald Reagan.
Nessa entrevista Waltz fala sobre a reviravolta de "180 graus" na sua vida, depois dos 50, da amizade com Tarantino que acha ser "um dos melhores roteiristas e diretores vivos" e mostra que engraçado mesmo ele é apenas no telão. Respostas secas, perguntas sem respostas, um punhado de arrogância, frases que não poupam nem as celebridades que fazem boa ação, doses de cortadas em jornalistas e muito charme. Essa é a fórmula desse, agora, superstar.
Terra - Me falaram para não perguntar detalhes sobre seu personagem nem de como foram as gravações. Por que não gosta de falar sobre isso?
Christoph Waltz -
A descrição do trabalho é ator, não explicador. Quero que o expectador experimente a história, não quero que ele pense sobre minha explicação. Quero que ele tire conclusões, reconheça o seu desejo, o seu medo, sua esperança, e não alguma besteira que eu tenha falado para um jornalista. Um filme é uma experiência pessoal
Terra - Você está trabalhando com Tarantino novamente. Como aconteceu?
Christoph Waltz - Quando ele estava escrevendo o roteiro, me mostrou o que ele estava escrevendo, como estava escrevendo. Eu pude acompanhar, mas não dei minha opinião, pois acho que não é meu trabalho interferir no roteiro, nem se fosse de um escritor menos importante. Seria simplesmente estúpido fazer isso no caso de Tarantino. Mas, para mim, foi ótimo, pois fui aos poucos conhecendo melhor o personagem, sabendo o que estava sendo preparado para mim e imaginando o que viria a seguir. Então, pude pensar em como seria minha atuação, gradualmente, melhor do que de repente ter que fazer um personagem de um dia para o outro.
Terra - Mas você não deu nenhuma opinião sobre como achava que o personagem deveria ser?
Christoph Waltz - Não. Fui convidado para ser ator e não co-diretor ou roteirista. Imagine: seu filho faz um desenho e você diz para ele: "dê-me seu lápis, por que não faz desta maneira?". Por que você faria isso? É o desenho dele e se ele quer destruí-lo depois, como as crianças fazem frequentemente, é problema dele. Não podemos interferir. Por que eu faria isso com Quentin Tarantino?
Terra - Mas você tem ideias e opiniões sobre o personagem ...
Christoph Waltz - Eu tenho ideias, elas são minhas. Ele tem as ideias dele e eu estou interessado nas ideias dele, apenas.
Waltz vive um caçador de recompensas em 'Django Livre' (Foto: Divulgação)
Terra - Como sua vida mudou desde que você conheceu Tarantino?
Christoph Waltz - A minha vida profissional, 180 graus, a vida privada ainda é a mesma.
Terra - Você sente falta de trabalhar na Alemanha?
Christoph Waltz - Nem um pouco. Não era nada interessante. Não quero generalizar, mas, normalmente, as ofertas que eu tenho agora são para papéis que eu não teria feito cinco anos atrás, então, eu realmente não vejo uma razão pela qual eu deveria ir para a Alemanha novamente.
Terra - Como é mudar completamente de vida depois dos 50 anos de idade?
Christoph Waltz - Não é uma coisa normal, não. Eu realmente não sei, inclusive, porque aconteceu justo comigo, mas prefiro agradecer e viver com essa alegria e gratidão.
Terra - Qual lugar você chama de lar hoje?
Christoph Waltz - Los Angeles e Nova Orleans.
Christoph Waltz - Se é um bom faroeste, eu gosto, tanto quanto gosto de uma coisa boa. Mas eu não sou uma pessoa que me fixo num gênero, em particular. Se é bom, eu gosto.
Terra - A história de Django Livre é bem americana, fala da época da escravidão aqui, então como é vê-la com os olhos de um europeu, um austríaco? Há vantagens e desvantagens?
Christoph Waltz - Não vi as desvantagens, mas tenho plena consciência do fato de que pode ter havido desvantagens. Escolhi só ver as vantagens de não conhecer ao certo o que ocorreu durante a escravidão, sobre o sul dos Estados Unidos, sobre todas essas coisas sinistras. Nós temos nossas próprias coisas sinistras na Europa. Escravidão, felizmente, não é uma delas. Com isso não quero dizer que não exista racismo. Existe. Cresci em Viena, onde há o anti-semitismo. Mas não é tão forte como aqui, que teve a escravidão. O país precisa superar essa fratura que dividiu as pessoas. O racismo é como um sofrimento, uma praga, um incômodo e deve ser erradicada por todos os meios.
Terra - Acha que sendo de fora fica mais fácil de observar?
Christoph Waltz - Sim, escolho ficar de fora das discussões, porque como eu posso ser sensível a ela, pois não cresci aqui, não senti isso. Não é o meu problema. Não é minha busca. Não seria a minha missão. É um pouco como os atores americanos que viajam para a Bósnia. O que você quer na Bósnia? Reforme Beverly Hills, se você precisa reformar alguma coisa. Na Bósnia, não há nada para você na Bósnia. "Precisamos chamar a atenção". Todo mundo é bem consciente disso. Nós não precisamos de ajuda de celebridades. Muito obrigado. Será que só fazem isso para trazerem os holofotes para eles mesmos?
Terra - Diga isso a Angelina Jolie!
Christoph Waltz - Por favor, diga!
Terra - E como você escolhe os filmes que vai fazer, já que as oportunidades hoje são melhores?
Christoph Waltz - Eu uso esta oportunidade para fazer o que eu sempre quis fazer, para realmente só escolher de acordo com o meu interesse atual. Eu tenho que gastar um monte de tempo com um roteiro, uma história, uma ideia por trás dele e com as pessoas. Se eu não quiser passar muito tempo com uma história, eu não aceito fazer o filme. Essa é a grande vantagem e o grande luxo que eu estou feliz de estar desfrutando nesse momento.
Terra - Como você pode descrever seu relacionamento com Tarantino? É estritamente profissional ou são amigos?
Christoph Waltz - Na verdade, é mais uma amizade pessoal do que profissional, o que é uma coisa boa e a gente sabe como separá-las. Quando eu trabalho com ele, trabalho com ele. Ele é o diretor. É o filme dele e ele é diferente de qualquer outro diretor no mundo. E eu estou lá para tentar fornecer o melhor material para edição.
Terra - O que vocês fazem quando saem juntos? Bebem, discutem filmes?
Christoph Waltz - Eu e o Tarantino bebemos juntos, jantamos, vamos ao cinema, a óperas, falamos sobre filmes antigos e uma conversa leva a outra, sempre, e vai longe..
Terra - Apesar de ter sangue e tiro para todos os lados, seu personagem parece estar ainda mais engraçado do que em Bastardos Inglórios. Como é para você tentar fazer comédia?
Christoph Waltz - Tive oportunidades de fazer comédia no passado. Na verdade, foram anos fazendo comédia. Comédia é um resultado. O Tarantino confiou em mim e eu tinha que garantir o resultado. O processo que leva ao resultado é o passo a passo e isso é especialmente importante na comédia. Se você vai direto na piada, a piada geralmente dá errado. Se você fizer tudo certo, a piada, a comédia, acontecem por conta própria. É quando fica engraçado. O resto é trabalho.