Terra entrevista o diretor de 'Entre os Muros da Escola'
Depois de 21 anos sem prêmios no Festival de Cannes, finalmente um filme francês conseguiu a Palma de Ouro. O diretor Laurent Cantet reuniu crianças de uma escola francesa para compor o elenco de
Entre os Muros da Escolae parece ter conseguido a fórmula certa: mostrar a realidade através da visão das pessoas que vivem naquele cotidiano. Até o protagonista, François Bégaudeau, estava familiarizado com o projeto, afinal, ele tinha escrito o livro que inspirou o roteiro.
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Em rápida passagem ao Brasil, Laurent concedeu uma entrevista ao Terra, em que contou como foi o processo de composição do elenco e as discussões multi-étnicas que o filme gerou. Confira a entrevista na íntegra:
Depois de muitos anos, finalmente um filme francês ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Como foi receber esse prêmio?
Foi uma sensação incrível. Ninguém sabia nada sobre o meu filme. É muito interessante ver que as pessoas o descobriram assim. Ninguém tinha assistido ao filme antes de Cannes para poder fazer uma crítica. E foi muito emocionante ver a reação das pessoas. Antes dessa exibição, achei que não poderia mais assistir ao filme. Eu tinha acabado de editá-lo, assisti muitas vezes. Estava tenso com a situação. Mas depois senti a comoção na sala de cinema. Vi pessoas rindo, vi pessoas tensas. Elas estavam atraídas, mais do que eu esperava. Ganhar o prêmio foi mágico porque toda a equipe estava reunida, desde os atores até a equipe técnica. Lideramos um espírito democrático com ele e foi importante receber a Palma de Ouro juntos.
Como foi o processo de seleção dos atores? Você visitou escolas francesas antes das filmagens?
Nós organizamos um workshop em uma escola de Paris. Meu único pré-requisito era que essa escola fosse mista social e etnicamente. Todas as quartas-feiras as pessoas interessadas podiam chegar e improvisar, praticar ao lado do François Bégaudeau, que é protagonista do filme e autor do livro. Escutei o que essas crianças tinham a dizer, assim como escutei os professores. No começo, acho que 50 crianças vieram para o processo de seleção. Depois de algumas semanas, muitas delas deixaram o projeto para jogar futebol, fazer outras coisas, porque viram que atuar não era a praia delas. Dessas 50, 25 ficaram para participar do filme. O interessante foi que eu não as escolhi. Elas escolheram participar e se envolveram com o processo.
Por trazer atores e professores que estavam envolvidos neste cotidiano, o filme lembra um documentário. Por que você adotou este estilo, ao invés de contratar atores reais?
Ele parece um documentário, mas não é. Tudo foi feito várias vezes. Apesar de as crianças não serem atores, elas também não eram elas em frente às câmeras. Eu dei espaço para a improvisação, mas ao mesmo tempo essa improvisação foi dirigida. Fiz eles falarem exatamente o que eu queria. Eles nunca leram o roteiro, mas sabiam das minhas intenções.
O François, autor do livro e protagonista do filme, deu alguma opinião na sua direção?
Ele deu uma ajuda no roteiro, então é claro que deu sua opinião. Mas foi interessante ver o que ele poderia tirar dessa situação. Ao mesmo tempo, ele confiou muito em mim. Quando entramos no set, François foi como os outros: propôs coisas, só pra ver se me interessavam ou não. Ele não ordenava nada. Não havia uma relação de poder, nós confiávamos uns nos outros. Para aquelas crianças, François também foi um verdadeiro professor. Ele as guiou e as fez dizer o que era esperado. Foi um grande trabalho em grupo.
Você acredita que o filme ajudou os franceses a compreender e aceitar as diferenças étnicas que ocorrem no país?
Eu não sei se o filme tem esse poder, mas muita gente viu isso quando o assistiu. Depois do lançamento, essas perguntas foram discutidas por muitas pessoas. Como diretor, não acho que o filme abra espaço para essa discussão. Mas, se ele conseguiu esse feito, fico muito feliz.
Há muitos filmes, especialmente no cinema americano, que retratam a atmosfera nas escolas. Por outro lado, no seu trabalho, vemos uma relação mais real entre professor e aluno, especialmente pelos detalhes. Você teve intenção de levar o público jovem para a sala de cinema? Viu a reação deles depois de assistir o filme?
Sim, vi e fiquei muito feliz que muita gente jovem resolveu assisti-lo, principalmente por ele não ser óbvio como os outros. Os adolescentes e adultos da França sempre preferiram filmes de ação, que vêm de Hollywood. Mas eles foram assistir a Entre os Muros da Escola. Muitas vezes foram os próprios professores que os levaram ao cinema, mas teve uma parcela que comprou o ingresso. Fiz o filme para dar a eles esse ponto de vista real. Essas crianças e adolescentes são julgados por todo mundo. As pessoas as chamam de fúteis porque elas só brincam no computador e não tem sonhos, não conseguem se concentrar. Eu quis mostrar os problemas que eles enfrentam. Acho que esses atores jovens compreenderam isso e ajudaram a mudar essa imagem. Isso foi muito importante.
Você citou o interesse dos jovens em assistir filmes de Hollywood, mas há uma fama mundial de que os filmes franceses são "cabeça" demais para o público comum. O que você acha dessa repercussão?
As pessoas assistem o que é mostrado para elas. Acho que nenhuma criança ou adolescente vai ver um filme francês porque elas querem. Mas, quando esses filmes são mostrados a elas, acabam percebendo que não é tão chato e ruim como se diz. Eu vi isso com meus próprios filhos. Como todos os outros, eles gostam dos filmes americanos. Mas, só por mostrar a eles, você pode fazer com que entendam que é interessante. Acho que as escolas poderiam cumprir esse papel, de abrir a mente deste público.
Entre os Muros da Escola abre uma série de questões sobre o sistema educacional francês, mas não traz uma solução. Isso o incomoda?
Em todos os meus filmes eu abro perguntas que não têm respostas. Acho que você pode sentir minha simpatia por algumas idéias e pessoas, mas, por essa complexidade, não dá para achar uma única resposta para várias questões. Talvez esse seja o problema da sociedade. Não dá para dizer "sim" ou "não" diante de um problema. Nós não queremos trazer respostas. Eu quero que as pessoas pensem nelas.
Depois do turbilhão do Festival de Cannes e das críticas positivas, você está satisfeito com o filme?
Sim, estou. Acho que é a primeira vez na minha carreira que sinto isso. Posso assistir várias vezes e consigo dizer que é exatamente o que eu queria fazer. Depois da edição, não me questionei mais se era um filme bom. Normalmente não sinto isso. Sempre penso que o filme não é bom. Eu ainda consigo rir quando o assisto, mesmo sabendo exatamente o que eles vão dizer.
Com tantas coisas para fazer em prol de Entre os Muros da Escola, como ficam os próximos projetos?
Eu ainda não tive tempo de fazer isso. Não consigo pensar em nada. Tenho viajado para dezenas de lugares, fazendo entrevistas com centenas de jornalistas. Só sei que com esse filme consegui um jeito de filmar que pretendo usar como método para os meus próximos.