'Suspiria' prova que a magia do cinema não está no roteiro, e sim no duo imagem e som
Com distribuição da FJ Cines, cultuado horror de Dario Argento está de volta aos cinemas em 4K
É sempre uma tarefa complicada escrever sobre um filme que habita o imaginário coletivo há décadas e que se aproxima do aniversário de 50 anos de lançamento. Ora, o que ainda não foi dito sobre Suspiria, clássico de Dario Argento lançado em 1977? Seu relançamento nos cinemas brasileiros, em uma versão restaurada em 4K, não é apenas um convite à revisitação, mas também uma oportunidade de compreensão do que o longa significa: a obra-prima do terror permanece até hoje como um marco não só do gênero, mas também do cinema enquanto experiência sensorial — um lembrete de como imagens e sons podem nos atravessar antes mesmo de qualquer explicação.
Mas talvez o ponto mais fascinante dessa revisita esteja no quanto Suspiria se mostra necessário e estimulante justamente por ser, em essência, o oposto do cinema dominante de hoje. A fala recente de Matt Damon sobre a lógica da Netflix — que incentiva explicações redundantes e cenas de impacto imediato para capturar a atenção de um público disperso — parece dialogar diretamente com o filme de Argento. Aqui, não há didatismo nem concessões. Imagine tirar os olhos da tela por alguns segundos: talvez o som ainda te capture — afinal, a trilha da banda Goblin é insistente, quase invasiva, antecipando o horror. Mas perder uma única imagem é perder parte essencial da experiência — e isso, em Suspiria, beira o imperdoável.
Na trama, Suzy (Jessica Harper, O Fantasma do Paraíso) é uma jovem estadunidense que viaja para Friburgo para estudar em uma conceituada academia de balé. Desde o primeiro dia, porém, ela começa a se assustar com estranhas situações que ocorrem ali e que levam a aluna a descobrir a verdade sobre o lugar.
É a partir dessa premissa simples que Argento constrói sua experiência sensorial. Quanto mais gráficas as mortes, mais saturadas se tornam as cores; quanto mais desconcertante a trilha, mais visceral a experiência. O vermelho — ao lado do azul e do amarelo — domina cada centímetro da tela e do cenário. Está no sangue, propositalmente artificial, mas também nas paredes da escola, nos tapetes, nas cortinas e nos mais variados elementos em cena. É uma paleta que não busca realismo, mas impacto.
Ao mesmo tempo, a música hipnótica da banda Goblin transforma cada passo de Suzy em um gesto de tensão crescente. A protagonista não apenas caminha: ela atravessa um pesadelo vivo, e nós atravessamos com ela. Esse choque entre o visual vibrante e o som agressivo cria uma imersão única — é como se estivéssemos ao lado, ou na própria pele da protagonista, tentando decifrar aquele ambiente hostil e incompreensível.
O roteiro, como a própria sinopse sugere, é simples ao extremo: sem grandes diálogos ou reviravoltas, os personagens se constroem menos por palavras e mais por sensações, enquanto Argento desloca o controle narrativo do texto para os estímulos audiovisuais: cores, sons e texturas nos atingem de forma explícita. É justamente aí que Suspiria sustenta sua força e importância, ao provar que a magia do cinema não reside no roteiro, mas no encontro entre imagem e som, reafirmando, em um momento que privilegia explicações e redundâncias narrativas, seu poder como experiência essencialmente sensorial.
No fim, Suspiria é daqueles filmes que se vive. Sua força está menos em contar uma história e mais em nos fazer senti-la — mergulhar nos devaneios de Suzy, sentir o peso da arquitetura opressiva da academia, se deixar levar por uma lógica de sonho — ou melhor, pesadelo — onde tudo parece à beira do colapso. Quase 50 anos depois, seu relançamento é um lembrete poderoso de que o cinema está longe de se limitar a narrar — ele existe, sobretudo, para nos fazer sentir.
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