Roteiro desconexo e direção ruim estragam 'Fúria de Titãs'
Num período em que Hollywood só sabe investir em superproduções no formato mais bocejante dos últimos tempos, o 3D - que para nosso desespero, aparentemente veio para ficar -, parecia que finalmente o frescor tinha chegado com o remake de
Fúria de Titãs, um clássico dos anos 1980, responsável por eternizar monstros da mitologia grega, mesmo com seus toscos efeitos em
stop-motion. Mas chamar o
Fúria de Titãsde Louis Leterrier (
O Incrível Hulk), que estreia nesta sexta-feira (21) no Brasil, em remake é quase insultar a obra original.
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O diretor teve em mãos uma série de recursos tecnológicos. Não poupou gastos: construiu grande parte dos cenários - dispensando o uso da computação gráfica -, podendo então abrir campo para criar uma saudável e divertida franquia. O problema é que mesmo baseando-se na história batida e sempre romântica de Perseu (Sam Worthington), um semideus que carrega o fardo dos mortais nas costas, Leterrier e sua equipe de roteiristas - revezados para satisfazer a Warner, estúdio por trás do orçamento milionário - conseguiram destruí-la, tornando-a num épico vazio, encostado em cenas de batalha que, de tão frequentes, causam tédio.
Dá para entender porque Fúria de Titãs se sai bem no visual, mas patina na história. Desde que o projeto foi aprovado, mais de 12 versões do roteiro saíram do forno. Optou-se pela menos óbvia, porém, fracamente construída, de que Perseu foi encontrado por um pescador e viveu como um humano até seus 20 e poucos anos, quando seus pais adotivos morrem num ataque de Hades (Ralph Fiennes), aparentemente furioso pela descrença dos mortais, mas que na verdade está tentando se vingar daquele que o rebaixou ao submundo, Zeus (Liam Neeson).
Perseu então é levado até a cidade de Argos, onde tem outro encontro com o rei do inferno e descobre - com a mesma emoção de quem acabou de tomar uma Fanta Uva - que é filho de Zeus e está predestinado a ajudar seus colegas humanos por todo o sempre (apesar de ninguém ter dito isso a ele). Certamente Jesus Cristo não reagiu assim quando descobriu seu fardo.
No meio tempo, Hades castiga os habitantes de Argos, lançando uma maldição: se eles não sacrificarem a "sagrada" princesa Andrômeda (Alexa Davalos) em dez dias, ele soltará o Kraken, um monstro superpoderoso e temido que uma vez eliminou os titãs, criadores dos deuses. E assim, minutos depois de descobrir que tem uma cadeira numerada no Olimpo, Perseu já tem um senso de justiça inabalável. Claro que ele não vai deixar a pobre donzela morrer por conta dos erros dos outros. Como era de se esperar, ele resolve combater a tirania de seus descendentes e vai atrás de três sábias bruxas, as únicas que sabem como matar a criatura, numa jornada de autoconhecimento.
São aproximadamente 15 minutos de explicação, suficientes para que o espectador esqueça, completamente, porque Perseu está nesta batalha, afinal, ele nunca trocou uma ideia com Andrômeda, ou qualquer outro habitante da cidade. Os soldados fieis a ele também não parecem muito entusiasmados com tal missão. E, se no original Perseu saía na aventura impossível porque estava apaixonado pela princesa, aqui, parece que ele quer mesmo é ficar mais tempo ao lado do belíssimo e rabugento soldado Draco (Mads Mikkelsen) com sua saia sexy esvoaçante.
As inconstâncias do roteiro também não ajudam Leterrier na direção. Nos bastidores, Fúria de Titãs teve uma série de problemas, chegando a ter cenas refilmadas, graças à quantidade de erros de continuidade. Atores do porte de Liam Neeson, Ralph Fiennes e Jason Flemyng parecem estar apenas cumprindo contrato para pagar a hipoteca no final do ano. Sam Worthington e Gemma Arterton (Io, outra 'tocada' pelos deuses) se saem um pouco melhor, mas nada suficiente para empolgar.
A apressada conversão ao formato 3D feita em oito semanas deixa as coisas ainda piores. Se nem filmes como Alice no País das Maravilhas e Como Treinar seu Dragão, rodados com o intuito de utilizar a tecnologia, não empolgaram por esse simples elemento, em Fúria de Titãs você quase se pergunta por que passou a projeção inteira usando os incômodos e nauseantes óculos.
Mas para a felicidade da Warner, grande parte dos espectadores não ligou para nenhum desses defeitos. Prova disso é que o filme já arrecadou mais de US$ 450 milhões pelo mundo e tudo indica que haverá uma sequência. Assim, Leterrier criou mais uma franquia dispensável. Pelo menos da próxima vez ele poderia aproveitar seus sarados atores para mostrar um pouco mais da tão falada "beleza grega". O ingresso valeria mais a pena.