Rachel McAdams brilha em 'Socorro!', 'terrir' com a assinatura de Sam Raimi
Misturando terror e comédia, novidade dirigida por Sam Raimi, da franquias Uma Noite Alucinante e Homem-Aranha, já está em cartaz nos cinemas brasileiros
Existem filmes que você assiste e pensa: "ok, isso aqui poderia ser dirigido por qualquer pessoa". Socorro!, não. Socorro! é daqueles que, no primeiro plano-detalhe, com a câmera focando em algo que vai te fazer rir ou ter nojo, você já sabe: isso é Sam Raimi (Uma Noite Alucinante).
Em Socorro!, Rachel McAdams (Doutor Estranho no Multiverso da Loucura) interpreta a dedicada funcionária Linda Liddle, que vê a sua sonhada promoção a vice-presidente ser negada pelo arrogante Bradley Preston, vivido por Dylan O'Brien (Twinless: Um Gêmeo a Menos), que herdou o comando da empresa após a morte do pai. Porém, apesar da má relação, eles precisam contar um com o outro quando se tornam os únicos sobreviventes de um acidente de avião, que os deixa presos em uma perigosa ilha deserta.
Na novidade, a marca de Raimi está em tudo: no ritmo acelerado, no terror que vira piada, no exagero que vira estilo e, principalmente, nessa mistura deliciosa entre o horror e o cômico. É "terrir" no sentido mais puro da palavra: enoja e causa repulsa, mas logo faz rir.
Melhor ainda: o diretor consegue fazer isso em um filme de estúdio, com a limitação da classificação indicativa. Ele abraça o caos e o absurdo conseguindo afrouxar — ainda que não se livre por completo — as amarras de um blockbuster dos tempos atuais. E é justamente aí que o filme se destaca, porque não tenta se encaixar numa fórmula engessada de estúdio. Ele pode até ter cara de produto grande, mas tem algo raro hoje: personalidade.
Mesmo com o toque de Raimi, o filme não funcionaria se a dupla protagonista não estivesse afinada. E aí entra o grande trunfo: Rachel McAdams brilha. Ela domina o filme com uma facilidade absurda, como se estivesse se divertindo com cada mudança de tom que o roteiro pede — e elas são muitas. Em uma mesma sequência ela consegue ser doce, engraçada, assustadora e até cruel, mas sem perder o controle da personagem. É uma atuação que segura o filme com presença e carisma — e ainda tem aquele prazer extra de ver McAdams fugindo do lugar comum da comédia romântica e mostrando que pode fazer muito mais.
Dylan O'Brien também funciona muito bem neste conjunto, e ainda bem, porque Socorro! depende demais dessa dinâmica improvável entre os dois. Se não tivesse química, desandava. Mas tem e isso dá sustentação emocional para o filme mesmo quando ele vira uma bagunça proposital cheia de reviravoltas e sequências de ação que colocam a dupla em situações exageradas.
Há pontos negativos: Socorro! tem bastante CGI. E, sim, dá pra notar em alguns momentos, mas Sam Raimi, com sua carreira muito mais trilhada nos efeitos práticos, sabe usar isso a favor do próprio tom: os efeitos não estão ali só pra "encher a tela", e sim pra dar forma ao delírio das situações. O CGI vira parte do jogo — afinal, o problema nunca está na ferramenta por si só, mas em como ela é utilizada.
No fim, Socorro! é o tipo de experiência que faz falta no cinema de hoje em dia: um filme que não precisa de tema. É o entretenimento pelo entretenimento. Duas pessoas sem pudor lutando com seus egos pela sobrevivência. Poderia ser só mais um terror divertido em cartaz nos cinemas, mas vira outra coisa porque Sam Raimi está ali, puxando a narrativa pro lado mais ousado e imprevisível. E com Rachel McAdams jogando esse jogo com tanta entrega, fica impossível não embarcar junto.