'Nosso Segredo' encontra na fantasia a resposta para um luto que não cabe em palavras
Estreia de Grace Passô na direção de longas, vencedor de três Kikitos em Gramado transforma o silêncio de uma família negra em uma experiência de estranhamento, memória e afeto
Vencedor do Festival de Gramado, "Nosso Segredo", estreia de Grace Passô na direção, aborda o luto e os silêncios de uma família negra em Belo Horizonte. Ao trocar o drama convencional pela fantasia e pelo olhar infantil, o longa transforma a própria casa em uma extensão física da dor reprimida e dos tabus não ditos. Com forte apelo visual e surrealista, a obra explora a arquitetura e a ausência para materializar sentimentos universais que as palavras não conseguem expressar.
Há coisas que uma família compartilha sem jamais colocar em palavras. Em Nosso Segredo, primeiro longa dirigido por Grace Passô , vencedor de três prêmios Kikito no Festival de Cinema de Gramado, incluindo o de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, o silêncio é quase uma herança: circula entre os cômodos, atravessa os personagens e se instala na rotina de uma família negra de Belo Horizonte marcada por uma perda.
Em vez de transformar o luto em um drama convencional, a cineasta encontra na fantasia uma maneira de materializar aquilo que permanece escondido. O resultado é um filme sobre ausência, tabu e comunicação que entende que, às vezes, o que mais sufoca é justamente aquilo que ninguém consegue dizer.
A escolha do olhar infantil é fundamental para que essa transformação aconteça. Há algo de naturalmente fantástico na maneira como uma criança encara aquilo que ainda não compreende: o mundo não está organizado por certezas, e aquilo que parece absurdo para um adulto pode ser apenas mais uma possibilidade.
Grace Passô aproveita essa perspectiva para falar de morte, ausência e tabu sem transformar o filme em uma explicação sobre esses sentimentos. A criança observa, pergunta, tenta entender — enquanto os adultos se fecham em silêncios e rotinas. É justamente esse contraste que permite ao filme encontrar uma poesia particular: olhar para o fim a partir da energia de quem ainda está começando a vida.
No centro de tudo está a casa, talvez o personagem mais expressivo de Nosso Segredo. E é compreensível que o longa tenha vencido os prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte em Gramado. O local não apenas abriga aquela família; absorve seus segredos, suas memórias e aquilo que seus integrantes não conseguem compartilhar. Aos poucos, o espaço se torna sufocante, como se a arquitetura também estivesse vivendo o luto.
A lama que invade escorre pelas paredes parece sair das entranhas da própria casa — um sangue escuro e viscoso de uma família que tenta seguir em frente enquanto permanece presa àquilo que não foi elaborado. Grace filma paredes, corredores, portas e quartos como extensões dos personagens, fazendo com que a transformação física da residência acompanhe a transformação emocional de quem vive nela.
É aí que o surrealismo deixa de ser apenas uma escolha estética e se torna a própria linguagem do filme. A fantasia não serve para esconder o segredo, mas para revelar aquilo que o realismo talvez não conseguisse alcançar. Grace entende que certas experiências são tão difíceis de verbalizar que precisam encontrar outra forma de existência na tela.
O naturalismo ainda está ali: Os silêncios, os enquadramentos fechados, a escuridão e os movimentos da câmera criam um universo em que a angústia pode ser sentida antes de ser compreendida. Quando o segredo finalmente vem à tona, a revelação importa menos como resposta para um mistério do que como consequência de tudo aquilo que o filme vinha construindo: o que é reprimido sempre encontra uma maneira de aparecer.
Ao colocar uma família negra no centro dessa experiência, Nosso Segredo também encontra uma dimensão que vai além do drama particular daqueles personagens. O filme não precisa transformar a negritude em explicação para seus conflitos, tampouco reduzir seus personagens à dor ou ao preconceito. Eles são pessoas que amam, se afastam, escondem, sofrem e tentam continuar vivendo — e é justamente nessa humanidade cotidiana que o filme encontra sua força.
Ora, o tabu pode pertencer àquela família, mas a dificuldade de falar sobre aquilo que machuca é universal. No fim, Grace Passô constrói uma história sobre compartilhamento a partir do silêncio e sobre afeto a partir da ausência. A fantasia não resolve o luto; ela dá a ele um corpo, uma casa e uma forma para que, finalmente, possa ser compartilhado e encarado.
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