'Entendi coisas que criticava antes', diz Grace Passô sobre dirigir 'Nosso Segredo'
Diretora do vencedor de três Kikitos em Gramado, Grace Passô falou à Rolling Stone Brasil sobre a estreia na direção de longas, a casa como personagem e o olhar infantil sobre o luto
Vencedor de três Kikitos em Gramado, o longa Nosso Segredo marca a estreia de Grace Passô na direção. O filme retrata o luto de uma família negra em Belo Horizonte sob a perspectiva poética de uma criança, trazendo a própria casa como elemento central da narrativa. Ao comentar o lançamento, a artista reflete sobre a transição da atuação para a direção, destacando como a nova função ampliou sua maturidade artística e sua compreensão sobre a complexidade dos processos do cinema.
Vencedor de três Kikitos no Festival de Cinema de Gramado, incluindo os prêmios de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, Nosso Segredo, primeiro longa dirigido por Grace Passô (O Filho de Mil Homens), estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (27). Ambientado em Belo Horizonte, o filme acompanha uma família negra que tenta reconstruir a rotina após uma perda recente, enquanto o luto transforma gradualmente a relação entre os integrantes e o próprio espaço onde vivem.
Em bate-papo exclusivo com a Rolling Stone Brasil, a cineasta mineira falou sobre a experiência de assumir a direção de um longa após uma trajetória consolidada como atriz, as descobertas e desafios do processo, a construção da casa como um personagem da narrativa e a escolha de acompanhar o luto a partir do olhar de uma criança. Confira a seguir:
Da atuação à direção
Para Grace Passô, dirigir Nosso Segredo significou muito mais do que assumir pela primeira vez o comando de um longa-metragem. O filme, que levou seis anos para ser concretizado e chega ao público depois de uma trajetória de cerca de duas décadas desde a concepção inicial do projeto, também transformou a maneira como a artista enxerga o próprio cinema. "Todas essas funções, direção, escrever pra cena, pra roteiros e tal, tudo isso veio da minha experiência como atriz. E isso me faz muito bem", afirma.
Para ela, a atuação oferece uma preparação particularmente generosa para quem deseja experimentar outras áreas da criação cinematográfica. "Atuar é se relacionar. É de modos, com técnicas específicas e tal, mas é sempre sobre relação. E acaba sendo uma grande escola mesmo, pra vida e também pra começar outras funções."
A mudança de perspectiva, porém, também fez Grace rever algumas críticas que carregava em relação aos processos de direção. Ela conta que, antes de assumir a função, tinha pouca compreensão sobre determinadas etapas da realização de um filme — inclusive aquelas que envolviam diretamente o trabalho dos atores. "Eu antes era mais chata como atriz, com diretores. Hoje eu entendo um pouco mais as coisas", brinca. Entre as questões que passou a compreender de outra maneira estão os testes de elenco e a necessidade de antecipar determinadas escolhas antes da filmagem.
"Eu não entendia a necessidade de pedir testes para um ator. Olha o nível que eu estava", conta. A experiência de dirigir fez com que ela percebesse a dimensão coletiva, financeira e definitiva envolvida na realização de um filme. "É um processo muito caro, é um processo que envolve muita gente, é um processo que não tem volta", explica. "Então, eu entendi muitas coisas que eu criticava antes, no universo da direção."
Ao mesmo tempo, a experiência não tornou a atuação necessariamente mais fácil. Pelo contrário: "Talvez tenha se tornado mais difícil atuar, porque eu tenho uma dimensão maior de todo o processo, mas, sem dúvida nenhuma, me tornei uma pessoa mais consciente", afirma.
A casa como personagem
Essa ampliação do olhar aparece diretamente em Nosso Segredo. A história acompanha uma família negra de Belo Horizonte atravessada pela morte de um dos seus integrantes. Incapazes de elaborar plenamente a perda, os personagens se fecham em suas próprias rotinas enquanto a casa em que vivem parece absorver e materializar aquilo que eles não conseguem dizer.
Desde o roteiro, porém, a residência já era pensada por Grace como mais do que um cenário. "Desde o início, já no roteiro, a casa era um personagem", revela. A ideia serviu inclusive como uma espécie de chave para a diretora conversar com os diferentes departamentos envolvidos na produção.
"Os signos, a simbologia, a importância da memória que existe nas casas, nos cômodos de uma casa, é algo muito comum entre nós", explica. A partir daí, Grace e sua equipe passaram a pensar no espaço como uma extensão dos sentimentos daquela família. "Que luz é essa numa casa que acaba de perder alguém? Que ambientes são esses? Em que estado a casa está? O que é uma casa que tem uma criança de seis anos e outro de 40?"
Essas perguntas ajudaram a construir a atmosfera do filme, especialmente na relação entre luz e escuridão. "A gente tinha muitas cenas noturnas, então, desenhar uma luz numa paisagem bem escura e também o extremo oposto, que é nas manhãs, que tem a ver com a criança, as manhãs no quintal, a luz que invade a casa", conta.
A construção visual também impôs desafios técnicos. A diretora de fotografia Wilssa Esser precisou lidar com uma câmera que frequentemente se movimentava em 360 graus dentro da residência, enquanto a direção de arte, comandada por Lucas Osório, acompanhava a transformação gradual daquele espaço.
Grace destaca ainda sua paixão pela câmera na mão e a maneira como Esser conseguiu incorporar esse movimento à narrativa. "Uma respiração muito presente", define a diretora, que buscava justamente uma imagem capaz de transmitir a sensação de que aquele olhar poderia estar em todos os lugares da casa.
Olhar a morte pela perspectiva de uma criança
Embora Nosso Segredo seja construído a partir de uma família inteira, é a perspectiva da criança que conduz boa parte da experiência do espectador. Para Grace, essa escolha surgiu da vontade de olhar para a morte a partir de alguém que está justamente começando a descobrir o mundo.
"Desde o início tinha essa escolha de olhar para a morte a partir de um olhar muito fresco", explica. "Olhar a morte a partir de uma energia de quem está começando a vida."
O contraste entre o fim e o começo é fundamental para a linguagem do longa. Enquanto os adultos carregam o peso de uma experiência que já conhecem, a criança encara a ausência como algo ainda sem explicação completa. "O olhar da criança sempre me ajudou a construir essa narrativa com uma linguagem mais poética", afirma Grace. "O olhar da criança é um pouco esse de quem está vendo e vivendo as coisas pela primeira vez."
Assim, a criança não funciona apenas como um personagem dentro da família, mas como uma espécie de porta de entrada para o espectador. É através dela que o filme se aproxima da ausência, da morte e da dificuldade de compreender aquilo que não pode ser revertido. "É a possibilidade de usar isso também para aproximar o público desse sentimento da perda e da ausência", diz Grace.
No fim, Nosso Segredo parece encontrar justamente nesse olhar infantil uma maneira de falar sobre algo inevitavelmente conhecido por todos: "É um olhar que me ajuda a construir uma perspectiva de quem está buscando entender algo que sempre está entre nós, que é o fim das coisas."
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