Nicolas Cage fala sobre sua experiência em dublar uma toupeira
A voz é quase irreconhecível. Mas, sim, a toupeira nariguda de G-Force, o desenho animado em 3-D que é sucesso de bilheteria nos EUA, ganhou vida através da interpretação de Nicolas Cage. Aos 45 anos, o sobrinho de Francis Ford Coppola, que recebeu o Oscar de melhor ator por Despedida em Las Vegas e que nas últimas temporadas vem se notabilizando por protagonizar sucessos de bilheteria mal-recebidos pela crítica - entre eles O Vidente, A Lenda do Tesouro Perdido e Perigo em Bangkok.
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A toupeira Speckles é um dos animais treinados para combater o crime - os outros são porquinhos da índia que ganham as vozes de astros como Penélope Cruz, Sam Rockewell, Jon Favreau (o diretor de Homem de Ferro) e Steve Buscemi - na mais secreta unidade de inteligência do governo norte-americano. Produzido por Jerry Bruckheimer (o homem por detrás de Os Piratas do Caribe) nos estúdios Disney, G-Force segue a receita esperada desta parceria: cenas de explosão e ação com ternura que fariam Hebe Camargo suspirar mas que graciiiiinha a cada dez minutos de filme.
Com cabelos lisos jogados para o lado revelando uma senhora entrada, o pai de Kal-El (o nome do filho de 3 anos de Cage com sua terceira mulher, a ex-garçonete Alice Kim, é uma homenagem ao super-homem, o personagem das HQs) foi simpático na conversa que teve com a imprensa nos salões de um hotel de luxo nas proximidades do Central Park.
Seguem os principais trechos do bate-papo com a reportagem do Terra
:Você é fã de desenhos animados?
Sou completamente fascinado por todos os estilos do cinema. Sou muito eclético. Gosto de explorar personagens diferentes em gêneros diversos. Mas neste exato momento acho que há uma necessidade de fazer com que crianças do mundo tudo garagalhem nas salas de cinema. Não há nada mais sagrado para mim do que o mundo mágico das crianças. E com a crise financeira global, há muita tensão familiar, as pessoas estão perdendo seus empregos. Quero fazer filmes que animem as famílias e G-Force é um exemplo perfeito do que almejo alcançar com meu trabalho, exatamente como A Lenda do Tesouro Perdido, que também fiz com o Jerry. Esses filmes me dão uma sensação de estar fazendo a coisa certa, sabe?
Mas você se sente bem fazendo dublagem, colocando a voz em um personagem animado?
Cresci assistindo na televisão aos desenhos dos personagens de Looney Tunes, o Pernalonga e toda sua turma, como o Eufrasino e o Patolino. E virei fã de Mel Blacn, que fez a voz de vários deles, mudando a tonalidade. Então, quando o Jerry me convidou para fazer G-Force eu disse que topava, desde que pudesse fazer algo novo, criar uma nova voz para mim.
E é realmente impressionante, a gente quase não reconhece sua voz. Você pensou também que o Speckels se pareceria de alguma forma com você? Ele acaba sendo um dos personagens mais importantes da história...
Para mim tudo começou quando o Jerry me mostrou os desenhos dos personagens e...bem...com o devido respeito, não havia a menor chance de que eu viraria um porquinho da índia! (risos). Não rola. Pessoalmente, acho eles meio sem-graça. Eles são queridinhos, peludinhos, carinhosinhos. Não sou eu, né? (mais risos). Preciso de um animal que tenha uma cauda longa e uma atitude na linha: nem pense em passar a mão em mim! Sai pra lá! (risos). Quando vi Speckles, pensei: este eu consigo fazer, um personagem com opinião, motivação e muita personalidade. Aí prestei atenção nas formas dele, nos óculos de mergulhador com grau que ele usa para poder enxergar na claridade, e fui encontrando uma voz que, na minha cabeça, tinha a ver com estas características.
Você era famoso por seu animal de estimação, uma cobra... Ela ainda vive com você?
Nada. Eu me mudei de Los Angeles para Nova York, vivo em um apartamento, não tenho nenhum animal em casa. O condomínio não me deixou trazer os animais, mas eu os deixei em abrigos e sei que eles estão sendo muito bem-cuidados.
Esta é a sexta colaboração sua com o Jerry Bruckheimer, mas a primeira em que seu único trunfo é a voz. Foi diferente?
Foi sim. Tive que confiar inteiramente em minha imaginação. Não tem câmera. Não há interação de fato com os outros atores. Fui para um cubículo no estúdio, era como se estivesse em um aquário, com um microfone. Outras vezes, dependendo de onde estávamos neste mundão, fazia por rádio mesmo. Eu faria umas cinco versões de cada diálogo e Jerry selecionaria o que tinha mais eletricidade. E assim por diante...
G-Force gerou um vídeo-game e é a primeira parceria sua e de Bruckheimer em 3-D...
Sim, e esta não é a tecnologia em 3-D que eu cresci vendo nos cinemas especiais de Los Angeles. Aquela, dos anos 70, sempre terminava com uma baita dor de cabeça nos espectadores (risos). Você lembra? A gente tinha que usar aqueles óculos verdes ou vermelhos pra lá de inconfortáveis. E dava para ver a linha dos objetos e dos animais, era bem precário. Hoje é o oposto. Você não pensa tanto na 3-D vindo até você em sua poltrona mas no movimento contrário: em você entrando na telona. Acabou a enxaqueca. Quando vejo G-Force em 3-D penso que estou cercado pelo filme em todos os lados, e isso é uma sensação sensacional.
Você fez alguma pesquisa para encarnar esta toupeira no filme?
Fui buscar a voz do Speckles na minha própria experiência quando passei noites e noites a fio filmando e ficava com um resquício de Cage no ar, sabe? Tinha aquele fio de voz, de alguém completamente exaurido ou muito, muito estressado. Subi uma oitava na minha tonalidade normal. Jerry me convidou para fazer G-Force no último dia de filmagens de A Lenda do Tesouro Perdido 2 e eu disse a ele, cansadíssimo: ¿mas a voz do Speckles pode ser assim?¿. E ele disse: ¿mas é claro!¿. Ali terminou o trabalho de pesquisa para o Speckles (risos).
Já que você mencionou que valoriza o ecletismo, o senhor acaba de filmar com Werner Herzog Bad Lieutnenat Port of Call New Orleans (ainda sem título em português), em você vive um policial asqueroso. No elenco estão ainda Val Kilmer e Eva Mendes. Como foi esta experiência?
Acabo de saber que nosso filme foi escolhido para a competição oficial do Festival de Veneza, então estou mais feliz do que nunca. O filme deverá chegar aos cinemas em dezembro e meu trabalho com Werner foi uma experiência fantástica, tudo o que eu esperava e um pouco mais. Ele é completamente diferente de todos os outros diretores com quem trabalhei. Ele é onipresente, faz a própria câmera, mantém contato olhos nos olhos com os atores o tempo todo. Ele é um condutor de orquestra, sabe? Werner Herzog é um gênio visionário, especialíssimo.
