'Meu Malvado Favorito' acerta em seus planos infalíveis
O dia é de Sol, céu aberto, flores e brisa de primavera. A previsão do tempo indica que este será um bom começo de história, até que nosso herói, em sua sorridente caminhada, dá de encontro com um menino aos prantos: seu sorvete cor-de-rosa acaba de cair no chão. Conflito narrativo à vista. O simpático protagonista faz sinal de que vai reverter aquele drama epicamente gelado e em poucos segundos mostra ao garoto toda sua habilidade de Daniel Azulay em transformar um balão em um cachorrinho. O menino abraça carinhosamente seu novo brinquedo. Fofo, não? Mas eis que, opa, nosso herói pega um agulha e pum!, estoura nossa impressão de que estávamos diante de um protagonista cheio das boas intenções. Não, o herói dessa história não foi educado para a bondade e isso o torna um dos personagens mais cativantes de todas essas últimas franquias de animação que temos visto no cinema.
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Em Meu Malvado Favorito, Gru nos é apresentado como o vilão nº 1 do mundo e sim, ele é o protagonista maquiavélico-pero-no-mucho desse que é o primeiro filme do novo estúdio de animação em Hollywood: a Illumination. Portanto, em sua primeira tentativa de conquistar o mundo com uma ideia na cabeça e um bom software nas mãos, a Illumination nos apresenta um personagem que, bem, poderíamos passar parágrafos aqui falando de todas suas possibilidades dramáticas, mas o que vem ao caso mesmo é que Gru é um sujeito com quem vale a pena dividir uma conversa, nem que seja para você entender quem pede o prato mais caro nunca está disposto a pagar por ele. Um vilão sincero, enfim.
E como tal, leia-se, um vilão, Gru enfrenta um problema sério que acomete 10 entre 10 trabalhadores, pessoas casadas, apaixonadas e afins: ser substituído por alguém mais novo. Isso porque sempre haverá alguém mais jovem e, quem sabe, disposto, a assumir seu espaço, nem que este seja o de vilão nº 1 do mundo. De onde nos é apresentado então Vector, um adolescente nerd mimado que, como maior trunfo, tem a seu favor todos aqueles gadgets que fariam Steve Jobs rever seu faro para inovação. Enquanto isso Gru, bem, Gru é do tempo em que o termo "última geração" significa algo realmente novo. A palavra ultrapassado parece estar piscando em neon na testa desse querido vilão. Algo precisa ser feito urgentemente.
Entram em cena então as simpáticas três garotinhas Margo, Edith e Agnes, meninas abandonadas em um abrigo para órfãos. Sem pai ou mãe, essas três vivem de vender biscoitinhos até que, num golpe de gênio, Gru percebe nelas uma gangorra para conseguir uma tal de uma máquina de encolher que está guardada na mansão high-tech de Vector. O que acontece a partir daí é uma divertida e improvável convivência entre o Gru, o ex-vilão nº 1 do mundo, e três crianças animadas com a possibilidade de, finalmente, ter um pai.
Apesar de algumas poucas brincadeiras que só gente grande vai entender - além das referências bem adultas citadas acima e algumas inserções típicas da equipe de roteiristas dos Simpsons -, o filme se pretende mesmo ser uma boa diversão para gente pequena. E acerta em cheio no foco. Meu Malvado Favorito encara a vilania com a ingenuidade de quem acredita que roubar a Lua de tamanho é a coisa mais malvada de todos os tempos. Bem, para um mundo que mal se dá conta de que a Lua ainda continua lá, essa certamente é uma decisão que passaria despercebida por muitos. O filme se ilumina nesse espírito de planos infalíveis orquestrados por crianças e sua visão macro de que o mundo é micro.
Como bônus, temos ainda eles, os Minions. Funcionários da fábrica de maldades de Gru, esses surtados seres amarelos roubam a cena com aquele tipo de raciocínio caótico de um cachorro que balança o rabo até quando você faz cara feia. De levar para casa para alimentar e amassar.
Ok, você não verá a sublime poesia dos personagens da Pixar, as histerias e piadas internas de alguns filmes da DreamWorks e da Blue Sky e se dará conta em algum momento que o filme carece de cenários mais detalhados daqueles tipos de encher os olhos, mas estava em tempo de rebuscarmos menos para confiar mais no talento de uma história que acerta com sua comunicação simples e esperta. Ponto para a Illumination, os diretores Pierre Coffin e Chris Renaud e toda a equipe de animadores que apostou numa história infantil em que o vilão, finalmente, ganha seu merecido papel protagonista.