'Temos que aprender a trabalhar com a natureza, não contra ela', diz Benedict Cumberbatch
Ator narra documentário 'How to Live on Earth', que estreou gratuitamente no YouTube e reúne histórias de pessoas que tentam reconstruir a relação entre humanidade e natureza
Com narração autêntica do ator Benedict Cumberbatch, o documentário How to Live on Earth estreou gratuitamente no YouTube para alertar sobre a perda da biodiversidade. Focada em soluções práticas em vez de catastrofismo, a obra retrata iniciativas globais de restauração ecológica, incluindo a Amazônia sob a ótica da conciliação entre economia e preservação. O objetivo central da produção aberta é democratizar o acesso e inspirar a convivência harmônica entre a humanidade e a natureza.
Há uma presença que paira sobre praticamente todo documentário britânico de natureza: a de David Attenborough, o centenário naturalista britânico. Em How to Live on Earth, porém, Benedict Cumberbatch não tenta ocupar exatamente o mesmo lugar. O ator empresta sua voz ao filme, que estreou gratuitamente no YouTube neste domingo, 20, mas a proposta desde o início era fazer da narração uma extensão de sua própria personalidade e não uma imitação do mais conhecido narrador do gênero.
"A sombra de Sir David Attenborough, ícone que é nessa área, é longa e merecidamente reverenciada", disse Cumberbatch em entrevista ao Estadão. "Mas acho que, desde as primeiras conversas e o roteiro, o tom sempre foi para ser algo ligeiramente diferente. Sou eu, e tinha que caber e soar autêntico à minha voz". Segundo o ator, trechos do roteiro foram adaptados para isso. "É uma versão de mim", resume.
Produzido pela Open Planet Studios, How to Live on Earth parte de uma preocupação que vai além da emergência climática. O ponto de partida do projeto foi mostrar uma crise menos percebida: a perda da biodiversidade. "As pessoas falam bastante sobre clima, mas há outra coisa acontecendo, que é estarmos perdendo a natureza sem perceber", afirma Jonnie Hughes, produtor e sócio do estúdio, ao Estadão. "Esse foi o briefing, e How to Live on Earth é a nossa resposta a ele".
O resultado é um documentário construído menos como um alerta sobre o que pode acontecer no futuro e mais como um inventário de experiências que já estão acontecendo. Ao redor do mundo, pessoas tentam recuperar ecossistemas, reconstruir a relação com a natureza e encontrar maneiras de produzir e viver sem necessariamente colocá-la em oposição às necessidades humanas.
É esse aspecto que mais chamou a atenção de Cumberbatch. O ator conta que já conhecia o diretor Fredi Devas por ter trabalhado com ele no documentário Antarctica e que se interessou pelo projeto quando percebeu que não teria de reproduzir a fórmula de Attenborough. "Quando vi o conceito e percebi que não estavam me pedindo para fazer o que David Attenborough faz de forma insuperável, fui atraído pelos roteiros, pelas imagens, pelos argumentos", conta. "Simplesmente me intrigou muito".
A Amazônia pelo caminho das soluções
O Brasil aparece no filme principalmente por meio da Amazônia. O recorte, no entanto, evita transformar a região apenas em símbolo do desmatamento ou em cenário para uma denúncia sobre a destruição da floresta. A intenção, segundo Hughes, foi apresentar também os incentivos econômicos que podem tornar a preservação uma alternativa concreta para quem vive da terra.
"Queríamos mostrar, tanto para a direita quanto para a esquerda no Brasil, que manter a Amazônia de pé é uma ideia inteligente. Não importa de que lado do espectro político você esteja", afirma.
Hughes argumenta que mudanças no sistema financeiro podem aumentar a remuneração de proprietários que mantêm áreas de floresta biodiversa preservadas. O filme, portanto, tenta deslocar o debate da oposição entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental para a busca de modelos em que os dois possam coexistir.
"Não queríamos apontar o dedo para fazendas de gado e pessoas assim, porque são pessoas tentando ganhar a vida", diz. "O que estamos tentando dizer é que existe uma forma diferente de ganhar a vida chegando. E deveríamos comemorar isso".
A escolha do tom também ajuda a explicar a posição de Cumberbatch diante do filme. Embora seja conhecido por seu ativismo em questões ambientais, ele faz questão de não se colocar como especialista. Seu papel, diz, é usar a visibilidade que conquistou como ator para colocar em primeiro plano quem trabalha diretamente com esses problemas.
"Qualquer tipo de ativismo que eu faça não é porque estou vendendo uma base de conhecimento — que, aliás, é muito pequena perto da de quem realmente está lá, no campo", afirma. "Se posso ajudar usando minha visibilidade como ator para apresentar esse trabalho, que seja".
Da prisão aos recifes de coral
O documentário reúne histórias bastante diferentes entre si. Há presidiários que reencontram uma relação com a natureza dentro das próprias prisões, pessoas trabalhando na recuperação de recifes de coral nas Maldivas e uma equipe que acompanha, do antes ao depois, a restauração de um sistema fluvial na Califórnia.
Em comum, estão iniciativas que tentam mostrar que recuperar ambientes degradados não é uma ideia abstrata, mas algo que já está sendo colocado em prática. Para Cumberbatch, a realização do filme reforçou uma convicção que já fazia parte de sua relação com as questões ambientais.
"Temos que aprender a trabalhar com a natureza, não contra ela", afirma. Segundo o ator, o filme revelou uma série de soluções "lideradas pela natureza" ou desenvolvidas a partir da inventividade humana que podem ajudar a aproximar novamente as pessoas dos ecossistemas dos quais fazem parte.
"Encontrei soluções extraordinárias, muitas delas conduzidas pela natureza, outras pela inventividade da humanidade, que estão nos trazendo de volta a ser parte da natureza, em vez de estarmos separados dela", diz.
Por que o filme está de graça no YouTube
A outra escolha incomum de How to Live on Earth está fora da telona. Em vez de chegar a uma plataforma de streaming por assinatura, o documentário foi disponibilizado gratuitamente no YouTube. A decisão faz parte da própria proposta do projeto: se o objetivo é ampliar a conversa sobre biodiversidade, o filme precisa estar acessível ao maior número possível de pessoas.
"Se você quer alcançar um público amplo, não existe nada melhor que o YouTube", afirma Hughes. Ele cita os cerca de 2,7 bilhões de usuários mensais da plataforma e a possibilidade de compartilhar o filme diretamente, sem que o espectador precise pagar por uma assinatura.
A distribuição aberta também amplia os usos possíveis do documentário. Segundo o produtor, escolas já discutem incorporar o filme aos currículos, cientistas podem utilizá-lo como material de referência e empresas demonstraram interesse em torná-lo disponível para funcionários. "É muito acessível", afirma Hughes. "A democracia disso tudo fez do YouTube a melhor escolha para nós".
Cumberbatch vê nessa acessibilidade uma extensão da própria ideia do filme. "Ao educar as pessoas e trazê-las para a conversa e para as soluções, todos nós saímos ganhando", afirma. "E isso é lucro, seja para a nossa saúde, seja para a saúde do planeta".
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