'Precisamos Falar', com Marjorie e Nero, aponta para dilema: e se seu filho cometesse um crime?
Filme dirigido por Pedro Waddington (filho de Andrucha) e Rebeca Diniz, que chega aos cinemas, é baseado no livro 'O Jantar', do holandês Herman Koch
O filme "Precisamos Falar", dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz e estrelado por Marjorie Estiano e Alexandre Nero, aborda o dilema moral de pais cujos filhos cometem um crime brutal contra uma mulher em situação de rua. Baseada no livro "O Jantar", a trama usa o contexto da polarização brasileira para discutir privilégios, machismo, ética e os desafios de educar jovens na atualidade, provocando o espectador sobre os limites da própria moralidade para além das divisões ideológicas.
Em Precisamos Falar, que estreou nesta quinta-feira, 24, nos cinemas brasileiros, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Em uma noite, uma saída do adolescente Michel (Thiago Voltolini) e seus primos Jefferson (Cauê Campos) e Rick (Guilherme Cabral), também adolescente, acaba em tragédia, com o ataque e morte de uma imigrante em situação de rua.
Casos parecidos, infelizmente, já ocuparam os noticiários brasileiros. A partir dessa premissa, o filme dirigido por Pedro Waddington (filho de Andrucha) e Rebeca Diniz e baseado no livro O Jantar (Intrínseca, 256 págs.), do holandês Herman Koch, coloca famílias com visões de mundo opostas em conflito.
Mesmo que este seja o primeiro longa-metragem de Waddington e Diniz, os dois têm experiência no audiovisual e se conheceram trabalhando na série Sob Pressão. Eles pegaram o projeto de Precisamos Falar já iniciado, mas participaram do processo de deixar a adaptação mais brasileira e dentro da realidade do quadro político nacional.
"O filme tem esse pano de fundo de um Brasil polarizado, em que você reconhece um pouco certos tipos de personagem", disse Waddington em entrevista ao Estadão. "Mas ele justamente se preocupa em quebrar esses paradigmas, podendo fugir dessa divisão de esquerda e direita, desse mundo polarizado, para gerar reflexões mais complexas, em que tanto um lado quanto o outro pode ter as mesmas respostas."
Um acontecimento desses é capaz de destruir famílias. Mas, no caso de Sandra (Marjorie Estiano) e Paulo (Alexandre Nero), pais de Michel, e Celso (Emílio de Mello) e Anna (Hermila Guedes), que têm Jefferson e Rick, além de Valéria (Julia Svacinna), a realidade é que a relação já não é das melhores. Paulo e Celso são irmãos, e os três primos cresceram juntos, mas, com o tempo, as brincadeiras sobre a adoção de Jefferson, um menino negro, foram ficando cada vez mais pesadas.
Celso casou-se com uma mulher rica, enquanto Sandra e Paulo, embora tenham uma situação confortável em geral, não estão na mesma condição financeira. Celso está para se tornar um governador do campo progressista, enquanto Paulo está afastado do emprego depois de uma acusação e lidando com uma doença.
É nesse cenário que o dilema se impõe: seus filhos cometeram um crime (ou, pelo menos, foram testemunhas dele), e eles precisam tentar deixar as diferenças de lado e decidir como agir. Só que a polarização política entre as duas famílias reflete, como costuma ser, visões de mundo bastante diferentes.
Os diretores, porém, perceberam que a situação é cheia de nuances. "Logo que eu li o roteiro, eu me percebi não sendo tão ética assim", disse Diniz. "Com o drama que se apresenta ali, querendo usufruir de certos privilégios. A partir daí, a gente começou a entender que teria muita riqueza se misturasse um pouco os personagens. No mínimo, é um bom debate, uma forma de as pessoas saírem do cinema se perguntando onde é essa fronteira, até onde você consegue sustentar a sua moral. Eu acredito que o cinema pode provocar a pensar, a conversar." Para Waddington, "o filme quase obriga o espectador a refletir, a pensar: o que eu faria?".
Marjorie Estiano, que entrou bem no início do projeto, teve a chance de participar do desenvolvimento. "O livro tem um ponto de vista, um protagonista que guia a narrativa. A gente descobriu que era mais interessante poder dividir as argumentações, trazer perspectivas distintas. Foi muito laborioso e delicado, porque é um tema sensível, e a gente fez o possível para que os personagens não estivessem à luz dos nossos valores pessoais. Que eles pudessem ser defendidos de acordo com a lógica de raciocínio e perspectiva de vida que eles têm." A atriz já tinha trabalhado em Sob Pressão com os dois diretores, e esse foi um elemento de atração no projeto.
A lei deve ser cumprida, mas vivemos uma sociedade em que ela não serve para todos, em que há privilégios, em que os sistemas que deveriam ser de reeducação não fazem seu papel. Todos esses fatores entram na conta e vão além de proteger os filhos a qualquer custo ou, apesar da dor, ensinar a eles que atos têm consequências.
Os desafios de educar filhos no século 21
Precisamos Falar aponta também para os desafios de educar filhos no século 21 e de quanto as decisões dos pais são refletidas nas ações de crianças e jovens. "Fazer esse filme tem me feito descobrir muitas coisas", disse Alexandre Nero. "As discussões sobre o machismo, por exemplo. Por que são meninos no centro da história e não meninas? Porque os meninos têm que se mostrar, serem o líder, o garotão. Para as meninas não existem essas provas. Os atentados nas escolas são sempre feitos por homens."
O cinema, a televisão, a literatura têm se interessado em investigar e debater a educação dos meninos justamente por causa da percepção de aumento de violências cometidas por garotos e homens. "Eu não sou mãe de menino, mas acho bonito quando o Nero fala dessa macheza, porque os meninos herdam violência do patriarcado", afirmou Hermila Guedes. "Eles também são vítimas, embora as mulheres estejam mais vulneráveis porque sofrem a violência."
O ator nunca chegou ao extremo como os adolescentes do filme, mas se lembra das brigas, do medo de ser chamado de mulherzinha". Estiano, que não tem filhos, acha que é preciso considerar o contexto. "Quando se nasce menina, você já significa algo socialmente. A mesma coisa com os meninos. É preciso considerar esse significado diante da sociedade. Não dá para educar seu filho isolado, ele faz parte do todo. É necessário amparar esse menino e essa menina e construir o menino e a menina para o que eles vão encontrar dentro dessa sociedade."
No filme, em geral, os filhos são reflexos dos pais. Michel não respeita as pessoas mais pobres nem quem tem a pele de cor diferente, o que espelha as opiniões do pai e a conivência da mãe. Na vida, porém, claro que tudo é um pouco mais complicado. A educação dos pais é apenas um dos elementos da formação de um indivíduo. O ambiente, os amigos, a internet são fatores importantes também. "Em uma sociedade como a nossa, em que pais e mães estão trabalhando 18 horas por dia, como se educa uma criança? É muito difícil ficar colocando a culpa nos pais nesses casos", afirmou Nero.
Pai de dois meninos, Emílio de Mello diz que é o público-alvo do filme. "É extremamente difícil educar um filho, não existe regra, manual. É uma beleza, sou um ser humano melhor por causa deles, porque só assim consegui experimentar o real sabor do sentimento de empatia. Eu levei meus filhos para ver Precisamos Falar e acho importante que os pais levem seus filhos e filhas."
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