'Primavera', sobre Vivaldi e sua pupila, frustra por não mergulhar de verdade na vida do compositor
Longa-metragem coloca um dos maiores nomes da música como coadjuvante e perde a chance de explorar, enfim, a história por trás de 'Quatro Estações'
Frustrante. Esse é um bom adjetivo para categorizar o longa-metragem Primavera, em cartaz nos cinemas. Produção italiana, o filme se propõe a contar, em partes, a história de Antonio Vivaldi. O compositor, sempre lembrado por Quatro Estações, era uma figura por si só -- genial, introvertido, talentoso; era músico, mas também padre. No entanto, Primavera parece não se contentar com tudo isso e o transforma em coadjuvante.
O longa, dirigido pelo pouco experiente Damiano Michieletto -- realizador vindo da ópera, o que se sente em cada plano --, tenta imitar Moça com Brinco de Pérola, de 2003: ao invés de falar do artista, fala da musa. Vivaldi (Michele Riondino) se torna coadjuvante na história de Cecilia (Tecla Insolia), violinista treinada no Ospedale della Pietà, convento e escola musical. Ela, claro, é uma prodígio e se torna pupila de Vivaldi quando ele nota suas qualidades. A partir daí, cria-se uma relação forte entre eles, mesmo com Cecilia prestes a partir para casar com um nobre.
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Mais frio e distante do que precisaria, Primavera não sabe muito como lidar com esses dois personagens tomando conta da tela, ao contrário do que Peter Webber conseguiu habilmente fazer com a trama sobre Vermeer e sua musa. Nesta produção italiana, o equilíbrio entre Vivaldi e Cecilia nunca é bem trabalhado. Michieletto não abraça de vez a narrativa fascinante ao redor de Cecilia, tampouco entende Vivaldi como o coadjuvante que é. Com essa indecisão, a história não consegue ser interessante para nenhum dos lados -- e ainda se arrasta em um ritmo que testa a paciência de quem assiste.
Cecilia, pra começo de conversa, nunca ganha vida de verdade. Mesmo com o bom trabalho de Insolia, a personagem é sempre a sombra de Vivaldi. É uma ideia, um borrão, um projeto. Problema evidente de roteiro, assinado por Michieletto e mais duas pessoas, que não consegue dar asas para a personagem voar. Enquanto isso, Vivaldi belisca um protagonismo aqui e ali, mas nunca ganha o destaque que precisaria para dar conta de um gênio como ele -- precisaria, claro, de algo da altura de Amadeus, por exemplo.
Ao redor dos dois, o filme até acerta na ambientação: velas, tecidos, conservatórios entalhados em madeira escura. Mas a fotografia, apesar de toda essa fartura de detalhes de época, raramente encontra um brilho à altura do que está sendo mostrado -- é competente, mas achatada, como se a luz das velas nunca conseguisse realmente queimar na tela. E quando o romance entre professor e pupila poderia ganhar alguma ousadia, Primavera prefere recuar para um tom morno e pudico, como se tivesse medo do próprio impulso.
Um filme interrompido
Tudo em Primavera, assim, soa incompleto. De um lado, a pupila não é desenvolvida como a protagonista que é; do outro, Michieletto fica com pena (ou até mesmo medo) de entender o gênio italiano como coadjuvante. Quando os créditos sobem, permanece a sensação de que Cecilia ainda não existe, enquanto continuamos sem entender a mente de Vivaldi -- e é irônico que a peça-título, afinal, só apareça de fato, inteira, durante os próprios créditos finais, como se o filme guardasse para o fim aquilo que deveria ter sido seu centro desde o início.
Projetos assim, que usam um grande nome histórico como coadjuvante na trama de uma pessoa pouco conhecida, precisam ser lapidados para não se tornarem meros exercícios narrativos sem vigor e, principalmente, sem propósito. Primavera perde a oportunidade de fazer um filme completo e complexo sobre Vivaldi, enquanto também não consegue fazer com que Cecilia ande com a própria história. Tudo fica pelo meio e a frustração toma conta.
Uma história mais trabalhada sobre Cecilia, por exemplo, poderia trazer com mais força toda a questão envolvendo a arte como libertadora, mesmo séculos atrás. Enquanto isso, uma história focada em Vivaldi, mesmo nesse período específico, poderia ajudar o longa a escapar de ser uma biografia convencional -- o que, curiosamente, acaba se tornando conforme não sabe como explorar o compositor. No final, fica a sensação de frustração de mais um filme sobre Vivaldi desperdiçado. Boas ideias que resultam em um filme bonito de se ver, mas que não sabe por qual caminho seguir.
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